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Busto de Eva Maria de Jesus instalado em frente à Igreja de São Benedito. A escultura foi esculpida com base na imagem da bisneta de tia Eva, de nome Nadir Antônia da Silva. Foto: Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.

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Diante da ausência de fontes, o pesquisador e Jorge Ribeiro Diacópulos entrevistou descendentes de Eva Maria de Jesus, fundadora da comunidade, e lideranças locais.
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Localizada a quatro quilômetros de Campo Grande (MS), a “Comunidade Quilombola Tia Eva” foi iniciada em 1905 por Eva Maria de Jesus, uma escravizada nascida no interior de Goiás que migrou para o sul de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul) no final do século XIX. A história da comunidade e a trajetória de Eva ganharam um site especial, que pode ser acessado aqui.

 A página é fruto da dissertação “Comunidade Quilombola Tia Eva (Campo Grande/MS): memória, ensino de história e educação antirracisata, defendida por Jorge Ribeiro Diacópulos, em 2022, no Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). O trabalho pode ser acessado aqui.

Diante da ausência de fontes, o pesquisador entrevistou descendentes de Eva e lideranças locais por meio de técnicas da História Oral. O objetivo principal com isso foi o de coletar memórias que pudessem subsidiar a criação do website.

“Esta comunidade foi fundada a partir da iniciativa de Eva Maria de Jesus, no início do século XX, e sua trajetória se entrelaça com a história e a formação da cidade onde está localizada. Entretanto, o protagonismo de tia Eva na genealogia de Campo Grande foi silenciado pela historiografia e pelo ensino de História durante anos, reforçando sua invisibilidade”, reflete o pesquisador.

O trabalho de Diacópulos foi dividido em quatro capítulos. No primeiro, o autor discute a importância da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira no currículo escolar do Brasil. Em seguida são abordadas as comunidades quilombolas no Brasil e em Mato Grosso do Sul. O terceiro capítulo se aprofunda na formação e história da Comunidade Quilombola Tia Eva e em sua fundadora. E o capítulo final foca nas etapas do processo de construção do website e na apresentação do conteúdo da página, além da discussão em torno do uso de tecnologias digitais no ensino de História e a expansão da História Pública como instrumento de divulgação científica para o grande público.

Comunidade Quilombola Tia Eva

A “Comunidade Quilombola Tia Eva” começou a ser formada em 1905 e sua fundação está intrinsecamente relacionada à trajetória de Eva Maria de Jesus. Nascida escrava em uma fazenda no interior de Goiás, em uma região conhecida como sertão do Paranaíba, Eva Maria se tornou uma liderança religiosa e política entre os outros escravizados da região. “Em torno da tia Eva, surgiu uma rede social de laços de solidariedade entre os negros, que se conectavam pelos mesmos anseios por liberdade, por meio da fé comum no santo preto ou até mesmo o ‘dom’ de curandeira e benzedeira”, explica Jorge.

Alforriada pela Lei Áurea de 1888, aos 41 anos, Eva continuou trabalhando na fazenda por alguns anos até juntar dinheiro de doações oferecidas por aqueles que a procuravam em busca do “dom” da cura. Com a reserva, Tia Eva e seus familiares se juntaram a uma comitiva formada por outros ex-escravizados e partiram rumo ao sul do Mato Grosso.

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Apresentação de capoeira durante a Fest de São Benedito. Foto: Agência de Notícia do Governo de Mato Grosso do Sul.

 “O grupo de migrantes libertos, unidos simbolicamente por laços de irmandade e compadrio, oriundos do interior de Minas Gerais e Goiás, estabeleceram-se em terras isoladas e pouco valorizadas para a criação de gado na Vila de Santo Antônio de Campo Grande. Nesta região, além dos grupos mencionados, somaram-se outros negros camponeses que viviam na área antes da chegada da comitiva de tia Eva”, contextualiza Jorge.

Trabalhando como curandeira, cozinheira, lavadeira, parteira e benzedeira, ela juntou dinheiro e comprou as terras onde hoje está localizada a comunidade quilombola. Devota de São Benedito, também construiu uma igreja para o santo como pagamento de uma promessa e criou uma festa anual em homenagem ao padroeiro da comunidade, realizada pelos seus descendentes no mês de maio até os dias atuais. Tia Eva morreu em 1926 aos 78 anos. Ela teve três filhas. 

História pública na internet

O website Comunidade Quilombola Tia Eva é composto por dez seções com fotografias, vídeos e textos direcionados não só a professores de História e estudantes da educação básica, mas também ao público.

“O alcance propiciado pela internet pode ser um importante mecanismo para promover a visibilidade, reconhecimento e valorização da relevância histórica e o patrimônio cultural da comunidade fundada por Eva Maria de Jesus, tornando esse material pedagógico um instrumento de educação antirracista no ensino de História”, justifica.

Além de trazer conteúdo sobre a formação histórica da comunidade, as memórias do protagonismo e da liderança exercida por tia Eva e a trajetória das comunidades quilombolas em Mato Grosso do Sul, o site também disponibiliza material didático para ser utilizado em sala de aula, como um jogo virtual em formato de quiz e sugestões de planos de aula para a utilização do website no ensino de História.

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Festa de São Benedito, idealizada por Tia Eva em homenagem ao padroeiro da comunidade. Foto: Raoni Ramires/Prefeitura de Campo Grande.

O visitante também pode fazer um passeio virtual pela comunidade usando a tecnologia de imagens em 360º e ter acesso a pesquisas e publicações feitas sobre a comunidade. “A construção do website como instrumento pedagógico, se insere como uma ação político-científica que se fundamenta no dever à memória e no direito à história na educação básica, oferecendo um espaço de visibilidade para o protagonismo de tia Eva na fundação de Campo Grande”, conclui.

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Bruno Lima

Graduado em Jornalismo e História. Meste em História pelo Programa de Pós-graduação em História Social na Universidade de Brasília (UnB). Dedica-se a estudos de História do Brasil República, com ênfase na Era Vargas, direitos trabalhistas, História Social do Trabalho, Justiça do Trabalho, comunismo e anticomunismo e PCB nos anos 1930. Escreve regularmente sobre mestrado profissional em História (ProfHistoria) para o Café História.

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