Os tempos de Charlottesville: uma história norte-americana

Apesar das suásticas, bandeiras nazistas e clamores à defesa de uma “identidade europeia” ameaçada por uma alegada “invasão multicultural”, os semblantes de Charlottesville nos contam uma história genuinamente norte-americana.

Arthur Lima de Avila

Olhando agora, os rostos crispados diante das chamas bruxuleantes talvez pareçam mais patéticos do que qualquer outra coisa: um grupo majoritariamente branco, masculino e jovem desfilando seus preconceitos, inseguranças e ansiedades com o auxílio de tochas tiki um tanto ridículas e slogans aparentemente saídos de algum manual extremista da década de 1930. Se o fascismo, como bem disse certo filósofo alemão, consuma a estetização da política, isto não significa que ela necessariamente precise adquirir os contornos grandiosos e assustadores dos comícios de Nuremberg: ela pode igualmente ser bastante cafona, quando não simplesmente tosca, mesmo que continuamente assustadora.

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Supremacistas brancos entram em confronto com a polícia em Charlottesville, Virgínia, nos confrontos de 12 de agosto de 2017. Foto: Wikipedia, Evan Nesterak.

Apesar das suásticas, bandeiras nazistas e clamores à defesa de uma “identidade europeia” ameaçada por uma alegada “invasão multicultural”, os semblantes de Charlottesville nos contam uma história genuinamente norte-americana: o da estruturação, manutenção e preservação daquilo que Cedric Robinson chamou de “capitalismo racial” nos Estados Unidos. Do mesmo modo, eles nos confrontam com uma série de questões, algumas bastante pungentes, sobre a forma como imaginamos o tempo histórico nas democracias ocidentais atuais, especialmente no que tange às suas crenças em uma temporalidade liberal e progressista, como diria Walter Johnson. É esta intersecção, portanto, entre a racialização do capitalismo estadunidense e as diversas temporalidades daí decorrentes que eu gostaria de explorar brevemente, não somente para “contextualizar” aquele evento, mas para refletir sobre o que ele pode nos dizer sobre a situação histórica global em que nos coube viver.

“American Horror Story”: o capitalismo racial

O que significa falar em “capitalismo racial”? Para Robinson, é impossível pensar na conformação histórica do capitalismo estadunidense sem referência a dois processos concomitantes: a ampla acumulação de capital possibilitada pela escravização massiva do século XIX, por um lado, e a identificação entre “brancura” e “ liberdade” (ou “cidadania”), por outro. No primeiro caso, isto significa reconhecer o caráter eminentemente moderno da escravidão norte-americano, sem considerá-la um arcaísmo destinado a desaparecer naturalmente pelo simples desenvolvimento de forças históricas supostamente contrárias a ela (o trabalho livre, por exemplo); pelo contrário, como reconhece a historiografia mais recente, às vésperas da Guerra Civil, a produtividade do trabalho escravo aumentava progressivamente ano após ano – o que, por exemplo, levou diversos de seus apologistas a defenderem a reabertura do tráfico internacional de seres humanos e o fim dos (pequenos) entraves institucionais à expansão do trabalho escravo por todo território norte-americano. Isto significa admitir, talvez para o desgosto de vários, a vinculação intrínseca entre capitalismo e escravidão nos Estados Unidos e, do mesmo modo, a produção de diferença racial decorrente deste elo. Igualmente, isto também implica no reconhecimento de que a liberdade política e o trabalho assalariado da classe operária branca norte-americana, que chegou a ser uma das mais prósperas do globo já no século XIX, só foi possível a partir da extração massiva de trabalho forçado dos afro-americanos e desta diferenciação racial que transformou, no clássico entendimento de Ralph Ellison, os negros estadunidenses em “pessoas invisíveis”, salvo no que se referia à violência extrema. Nas palavras de Johnson, “o capitalismo racial do século XIX foi fundado a partir da racialização e instrumentalização, a comodificação e securitização, a expropriação e transporte forçado, a violação sexual e a alienação reprodutiva de afro-americanos e indígenas”.

A Emancipação libertou formalmente os seres humanos escravizados, mas não alterou as regras, por assim dizer, do capitalismo racial.

Após a Guerra Civil, aquela “revolução inacabada”, para usarmos os termos de Robin Blackburn, a racialização do capitalismo norte-americano continuou operando por outros modos – o que põe em questão a narrativa liberal e sua crença no progresso inexorável da liberdade nas terras ao norte do Rio Grande, como se isso fosse um dado histórico. A Emancipação libertou formalmente os seres humanos escravizados, mas não alterou as regras, por assim dizer, do capitalismo racial: vários foram os mecanismos que permitiram a contínua acumulação de capital “branco” a partir da espoliação e exploração das comunidades afro-americanas, da utilização de formas de trabalho compulsórias após o término da Guerra às diversas maneiras de segregação racial Estados Unidos afora, das quais as infames Leis Jim Crow foram apenas as mais visíveis e violentas. Não custa lembrar, dentre outros vários exemplos, de políticos sulistas como James Vardaman, Theodore Bilbo e, mais recentemente, George Wallace, para quem a segregação racial e o controle da população negra deveria ser mantida com brutalidade extrema – Vardaman, antigo governador do Mississippi, chegou a afirmar que qualquer tentativa dos afro-americanos em se “elevarem” à condição dos cidadãos brancos deveria ser respondida com balas e forcas.

Não é simples coincidência, assim, que os monumentos à Confederação, cuja defesa foi o objetivo inicial do protesto dos “direitistas unidos”, tenham sido alvo de intensos protestos nos últimos anos. Mais do que qualquer outra coisa, são eles que representam a defesa explícita da supremacia branca em terras norte-americanas e a luta última dos antigos escravocratas em manter a escravidão como uma condição inquebrantável da sociedade sulista – algo, diga-se de passagem, reconhecido pelo vice-presidente dos Estados Confederados, Alexander Stephens, quando, em 1861, afirmou ser a escravização de seres humanos negros e a supremacia branca os pilares do novo país. Robert E. Lee pode ter sido um general brilhante, mas liderou os exércitos de um estado que se orgulhava de ter sido o primeiro a ser fundado com base na “desigualdade natural” entre os seres humanos. Mais de cem mil afro-americanos empunharam armas para combater tal regime; as estátuas e símbolos confederados são uma afronta a memória daqueles que morreram para que o pesadelo representado pela “verdade suprema” esposada por Stephens e seus asseclas não fosse vitorioso.

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“Terminal de ônibus , Durham, Carolina do Norte.”, Mayo de 1940, Jack Delano. Foto: Library of Congress e Wikipedia.

Que estes ícones foram criados como homenagens ao “domínio do homem branco” foi algo reconhecido por seus construtores e advogados, movidos como estavam para afirmar os imperativos da “reunião da raça branca”, na análise de David Blight, separada, na visão deles, por um conflito supostamente fratricida e impulsionado por “radicais” que queriam interferir nos “assuntos do Sul” (isto é, acabar com a escravidão). Eles não foram paralelos à institucionalização da segregação racial: foram parte fundamental de sua legitimação e naturalização. Foram, em última instância, um dos modos pelos quais a antiga Confederação garantiu sua vitória simbólica através de instrumentos de memorialização que apresentavam seus combatentes como “heróis galantes”, soldados em prol de uma “causa perdida”, mesmo que “nobre”.  Ao mesmo tempo em que as árvores do Sul davam aqueles “estranhos frutos” imortalizados no lamento de Billie Holiday, os derrotados confederados eram refigurados como verdadeiros patriotas que apenas responderam à “agressão nortista”. Os motivos desta refiguração eram bastante manifestos: minimizar a violência escravista na formação e consolidação da nação ao mesmo tempo em que se afirmava a naturalidade daquela diferenciação racial que condenava os negros estadunidenses à condição de uma underclass permanente.

Neste sentido, os gritos de “white lives matter!” entoados a plenos pulmões pelos manifestantes na Virgínia não são somente uma reação às “políticas identitárias” das últimas décadas, como querem alguns, por mais importantes que elas possam ter sido em desafiar minimamente o racismo institucional nos Estados Unidos. Também não são tão-só uma demonstração do empoderamento reacionário resultante da vitória de Donald Trump em 2016, com sua plataforma dúbia, para dizer o mínimo, em relação à questão da supremacia branca no pais (e suas respostas à demonstração de Charlottesville apenas confirmam tal dubiedade), embora também o sejam. Eles são primeiramente uma expressão daquela condição histórica que permitiu, em primeiro lugar, que se diferenciasse certas vidas de outras em relação ao seu valor “natural”: neste contexto, “white lives matter” significa “black lives don’t matter”, pois a racialização daquelas foi construída, dialética e violentamente, a partir da negação da humanidade destas. A alt-right apenas reafirma, a seu modo, a centralidade deste processo para a história estadunidense.

O que os rostos e slogans de Charlottesville nos contam, portanto, é um conto de horror genuinamente norte-americano, uma em que, no dito do leão abolicionista Frederick Douglass, “o crime tem o poder de se reproduzir e criar condições favoráveis à sua própria existência”.  A defesa aberta da supremacia branca e a tentativa dos que lá estavam com suas tochas em “tomar de volta seu país” não é o sintoma de qualquer tipo de “atraso” político ou do arcaísmo de suas ideias, por mais pérfidas que elas sejam; para além de nossa reconfortante certeza de que os fantasmas do passado estão presos em outra dimensão, aquelas faces e frases nos confrontam com um presente ainda incapaz de se libertar dos vários passados que  conformaram-no e ainda alimentam-no. Charlottesville não é, portanto, o simples retorno de um passado anacrônico: muito mais do que isso, é o potencial catastrófico de nosso tempo encarando-nos de frente.


Dicas de bibliografia

BALDWIN, James. The Fire Next Time. New York: Vintage Books, 1991.

BAPTIST, Edward. The Half has Never been Told: slavery and the making of American capitalism. New York: Basic Books, 2014.

BLIGHT, David W. Race and Reunion: the Civl War in American memory. Cambridge: Harvard University Press, 2001.

JOHNSON, Walter. River of Dark Dreams: slavery and empire in the Cotton Kingdom. Cambridge: Harvard University Press, 2013.

MASSEY, Douglas & DENTON, Nancy. American Apartheid: segregation and the making of the underclass. Cambridge: Harvard University Press, 1993.


Arthur Lima de Avila – Professor Adjunto no Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2003), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2006) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com bolsa do CNPq e cuja tese recebeu o Prêmio Capes 2011 em História. Tem experiência na área de História, com ênfase em História da América, Teoria da História, Historiografia e História dos Estados Unidos, atuando principalmente com os seguintes temas: teoria da história, história intelectual, usos do passado, historiografia norte-americana, história do Oeste norte-americano e dos Estados Unidos.


Como citar esse artigo

AVILA, Arthur de Lima.Os tempos de Charlottesville: uma história norte-americana (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/os-tempos-de-charlottesville/. Publicado em: 28 Ago. 2017. Acesso: [informar data].

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