Há cerca de 12 mil anos, o planeta Terra entrou em uma era geológica chamada Holoceno. Ela começou após um intenso período de glaciação, quando o clima no planeta se tornou mais estável e facilitou o desenvolvimento dos seres humanos e outras espécies. Nos últimos séculos, porém, alguns cientistas acreditam que a humanidade tem produzido tantos impactos estruturais na natureza, que estaríamos vivendo uma nova era geológica. No início dos anos 2000, o químico Paul Crutzen e o biólogo Eugene Stoermer sugeriram um nome para descrever essa possível nova era: o Antropoceno.
Para os cientistas que defendem essa teoria, a invenção da primeira máquina a vapor em 1769 marcou o início do Antropoceno, ou seja, a era dos humanos. A escolha dessa marcação temporal se explica em razão dos impactos da industrialização nas sociedades e nos modos de funcionamento do planeta.
Desde seu surgimento, os seres humanos sempre se utilizaram da natureza para produzir sua própria subsistência. No entanto, a partir da Revolução Industrial, essa capacidade produtiva se tornou cada vez mais rápida e ampla, fazendo com que as condições climáticas dos últimos milênios fossem perturbadas.
Assim, ao chamar essa nova era do planeta de era dos humanos, Crutzen e Stoermer estão criticando os modelos de desenvolvimento experimentados nos últimos séculos. Por isso, uma visão do planeta baseada no Antropoceno ressalta a capacidade humana de, a partir da criação de novas tecnologias, transformar a vida na Terra.
O antropoceno na historiografia
Embora criado no campo das ciências da natureza, o Antropoceno ganhou destaque nas humanidades, abrindo espaço para novas perspectivas teóricas e trabalhos interdisciplinares. Representante de uma tendência conhecida como Big History (Grande História, em português), o historiador norte-americano David Christian escreveu uma história humana conectada ao desenvolvimento do universo e do planeta Terra. Nessa proposta, o ser humano, para além de suas características sociais e culturais, é também compreendido a partir de suas dimensões química, física e biológica.
Nessa longa narrativa, Christian aponta que a entrada no Antropoceno é um momento decisivo. Se, por um lado, as novas tecnologias permitiram que os seres humanos produzissem mais energia para seu sustento e experimentassem um salto qualitativo em seus padrões de vida, por outro, esse mesmo consumo intenso de energia fez com que as condições climáticas fossem alteradas drasticamente. Assim, ao situar o Antropoceno em uma escala global de tempo que remonta a bilhões de anos, Christian enfatiza como a capacidade de ação humana após a Revolução Industrial representa um novo e perigoso limiar na história do planeta.
Em outra leitura, o historiador húngaro Zoltan Simón analisa como o Antropoceno modifica os modos de compreensão do tempo. Durante a modernidade, especialmente no século XIX, as expectativas de futuro eram marcadas pelo progresso. Com as catástrofes do século XX e as emergências climáticas, essa expectativa é profundamente alterada e o futuro passa a ser imaginado com ansiedade e apreensão.
Essa apreensão quanto ao futuro deve promover mudanças na escrita da história. Para Simon, tais mudanças dizem respeito a uma aproximação entre a história e as Ciências do Sistema Terra (CST). Formadas nos anos 1980, as CST defendem que a Terra funciona a partir de um sistema com diferentes variáveis. Assim, para efetivamente compreender as dinâmicas terrestres, é preciso que as ciências abandonem suas fronteiras disciplinares e se integrem. A história, como parte dessas novas ciências, contribui ao investigar como seres humanos se comportam e se relacionam com os diferentes sistemas que compõem a Terra.
Portanto, ainda que por perspectivas diferentes, ambos os historiadores demonstram que a entrada no Antropoceno traz imensos desafios para as ciências e para a vida. Refletir sobre o futuro significa, a partir dessas leituras, construir uma consciência na qual os seres humanos entendam a si mesmos como parte dessa complexa cadeia planetária.
Por outro lado, o conceito recebeu importantes críticas entre os historiadores. A coletânea Antropoceno: perspectivas historiográficas, organizada por Rodrigo Turin e Walter Lowande, reúne apontamentos importantes sobre a construção do termo. Enquanto na definição original a criação de novas tecnologias aparece como marco inicial de uma nova era no planeta, os diversos autores presentes na coletânea apontam para a importância da colonização na compreensão do Antropoceno.
Ao usar o termo antropos, palavra derivada do grego que significa “homem”, é possível pensar em uma única humanidade capaz de alterar as condições climáticas. No entanto, as concepções políticas e culturais que deram origem ao Antropoceno foram criadas no continente europeu.
Durante o processo de colonização, iniciado no século XVI, o homem europeu torna-se a medida de todas as coisas e, com isso, a natureza e povos considerados inferiores, como africanos e indígenas, passam a ser considerados como recursos a serem explorados. Assim, para os povos africanos e indígenas, violentamente explorados ao longo desse processo, a catástrofe que tememos para o futuro já ocorreu, uma vez que as conquistas e as colonizações trouxeram consigo a destruição de condições de vida criadas por práticas ancestrais.
Vivendo em tempos difíceis
Décadas após a sua criação, o conceito de Antropoceno continua a estimular importantes debates nas ciências naturais e humanas. Apesar das diferentes abordagens, é possível perceber um núcleo comum: a preocupação com o futuro do planeta. Portanto, viver em tempos difíceis e ameaçadores exige reconsiderar antigas concepções.
Por um lado, o Antropoceno mostra a necessidade de repensar a função das tecnologias e do crescimento econômico, por outro, aponta uma nova percepção dos seres humanos, na qual não seremos mais o centro do planeta. Trabalhando a partir desses horizontes, podemos encontrar saídas para melhor habitar a Terra.
Referências
TURIN, Rodrigo (org.); LOWANDE, Walter (org.). Antropoceno: perspectivas historiográficas. Rio de Janeiro: Unirio, 2024.
CHRISTIAN, David. Origens: uma grande história de tudo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SIMÓN, Zoltan. Planetary futures, planetary history. In: SIMÓN, Zoltan (org.); DEILE, Lars (org.). Historical Understanding: past, present and future. Londres: Bloomsbury, 2022.
Com citar esse artigo
OLIVEIRA, Marcus Vinícius Furtado da Silva. O que é o Antropoceno? In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/o-que-e-o-antropoceno/. Publicado em: 9 jun. 2025. ISSN: 2674-5917.