Antoine Destutt de Tracy: o “pai” do termo ideologia

Filósofo iluminista francês cunhou o termo no final do século XVIII para designar aquilo que ele acreditava ser a “ciência das ideias”.

Por Bruno Leal Pastor de Carvalho

O termo ideologia aceita muitas e diferentes definições – e parece estar na moda. Ele pode ser usado para expressar a visão de mundo compartilhada por uma coletividade, por exemplo, ou o conjunto de ideias de um indivíduo. Ideologia pode designar uma determinada “doutrina política”, como “socialismo” e “liberalismo”, ou um grupo de valores que orienta a ação dos homens no mundo. Na obra de Karl Marx, ideologia pode ser encontrada ora como sinônimo de “ilusão”, ora como de “distorção da realidade”. Mas você sabia que o termo foi cunhado por um filósofo iluminista francês chamado Antoine Destutt de Tracy (1754-1836) para designar uma nova e ousada ciência, a “ciência das ideias”? O objetivo deste artigo é contar a inusitada (e irônica) história do surgimento do termo ideologia.

O aristocrata que virou revolucionário burguês

Antoine Destutt de Tracy nasceu em Paris, no dia 20 de julho de 1754, no seio de uma família aristocrática conhecida por ser uma das maiores proprietárias de terra da França. Como muitos outros jovens aristocratas de seu tempo, no entanto, Tracy envolveu-se profundamente com as ideias iluministas, estudando com particular ênfase as obras de Voltaire, Holbach e Condiliac. No final do século XVIII, era um dos mais combativos representantes da burguesia revolucionária. Lutou como soldado na Revolução Francesa, mas, depois da vitória dos revoltosos, acabou sendo preso no período do Terror (1793-1794). Robespierre e outros jacobinos, imersos em uma atmosfera de enorme paranoia política, desconfiavam de praticamente todos aquele que tinham uma ascendência nobre.

Tracy: seu nome provavelmente cairia no esquecimento não fosse seu termo “ideologia”.

O período em que permaneceu preso mudaria para sempre sua vida. Foi em sua cela que Tracy começou a elaborar o projeto de uma ciência que pudesse fazer uma análise sistemática das ideias e das sensações, uma ciência que pudesse mapear de forma racional a origem e o desenvolvimento de todas as ideias, suas combinações e suas consequências. Essa ciência não seria só a “rainha das ciências”, já que todas as ciências partiam sempre de ideias preconcebidas, como também promoveria o uso da razão no desenvolvimento do Estado, das leis, da governança e da sociedade de uma maneira universal.

O projeto de Tracy estava completamente imbuído do ímpeto otimista do Iluminismo: buscava explicações lógicas, seculares, científicas e racionais para o mundo. Mas havia também um componente político, como ressalta o historiador John B. Thompson. “Para Tracy e alguns de seus companheiros de prisão, era como se Robespierre estivesse tentando destruir o Iluminismo. Para esses intelectuais, a anárquica barbárie do Terror poderia ser contornada por uma combinação de filosofia e educação baseada na análise sistemática das ideias: seria assim que o legado do Iluminismo poderia ser preservado da era revolucionária”. Como bem aponta o crítico literário inglês Terry Eagleton, “a noção de ideologia nasceu, assim, nas condições ideologicamente ideais”.

O nascimento de uma ciência

Embora muitos intelectuais tenham sido executados no período do Terror, Tracy foi solto da prisão em 1974, pouco tempo depois da queda de Robespierre. Em 1795, a lealdade republicana do filósofo foi recompensada com um convite do Diretório (1795-1799) para integrar o Instituto Nacional de Paris, que agora, na nova República Francesa, viria a substituir a Academia Real abolida alguns anos antes por Robespierre. Além de uma Academia de Ciências e uma Divisão de Literatura e Artes Clássicas, o instituto também oferecia uma Divisão de Moral e Ciências Políticas. Nesta divisão, Tracy foi eleito como titular da seção dedicada à análise das sensações e das ideias no ano seguinte, em 1796.

Como titular da distinta seção, Tracy retomou o seu projeto dos tempos de prisão. Entre 1796 e 1798, em artigos apresentados em fascículos ao Instituto Nacional de Paris sob o título Mémoire sur la faculté de penser (“Memórias sobre a faculdade de pensar”, em livre tradução), o filósofo cunhou um termo para nomear a tal “ciência das ideias” que ele vinha investigando. A palavra era um neologismo composto pelos termos gregos eidos e logos: ideologia, significando algo como “estudo das ideias”.1

Seguindo os filósofos iluministas que admirava, Tracy acreditava que todos as áreas da experiência humana, tradicionalmente examinadas à luz da teologia ou da metafísica, deveriam ser examinadas pela razão. Segundo Eagleton, “uma vez que toda ciência repousa em ideias, a ideologia desalojaria a teologia como soberana de todas elas, garantindo-lhes unidade. Reconstruiria completamente a política, a economia e a ética, partindo dos processos mais simples de sensação até as regiões mais sublimes do espírito. A propriedade privada, por exemplo, baseia-se em uma distinção entre o ‘seu’ e o ‘meu’, que se pode remontar, por sua vez, a uma oposição fundamental entre ‘você’ e ‘eu’.”

Não faltava ambição à “ciência das ideias”. Conforme sublinha Thompson, a Ideologia almejava ser uma ciência prática, em oposição à metafísica e sua alta carga especulativa, fornecendo fundamento sólido para diversas áreas, tais como a moral, a ciência política, a época, a lógica, a educação e a gramática. “Por meio de uma cuidadosa análise das ideias e das sensações, a ideologia tonaria a natureza humana conhecida e, portanto, permitiria encontrar um novo arranjo em que a ordem política e social estivesse em acordo com as necessidades e aspirações dos seres humanos. A Ideologia daria bases sólidas para a moral e a ciência política, livrando-as de erros e preconceitos – uma fé iluminista que Tracy herdara de Condillac e Bacon”.

Tracy tornou-se um membro importante do Instituto Nacional de Paris, compondo um seleto grupo formado por cientistas e filósofos cuja principal missão era reconstruir a França do ponto de vista social. Conforme aponta Andrew Vincent, Tracy reuniu uma pequena legião de seguidores que viam com bons olhos o impacto que a Ideologia poderia ter na educação, podendo, por exemplo, diagnosticar as raízes da ignorância humana. Por isso, entre 1799 e 1800, o filósofo, plenamente identificado com os valores liberais republicanos, foi nomeado pelo Diretório como Conselheiro de Instrução Pública e expediu circulares para inúmeras escolas do país, destacando o importante papel que a “Ideologia” teria no currículo escolar francês –  uma ação que soa curiosa nos dias de hoje no Brasil, quando justamente setores liberais denunciam o que chamam de “ensino ideológico”.

Tracy escreveu diversas obras dedicadas às “ciências das ideias”.

Oposição e desdém de Napoleão

Com a ascensão de Napoleão Bonaparte, Tracy inicialmente desfrutou de um ótimo status. Napoleão era membro honorário do Instituto Nacional de Paris e tinha orgulho do papel que a entidade desempenhava na nova França. Contudo, com a derrota do exército francês na Rússia e a identificação cada vez maior de Tracy e seus associados com o republicanismo, o anticlericalismo e o liberalismo, a sorte de Tracy mudou. Napoleão passou a acusá-los de fomentar “agitações políticas”. Criou o termo depreciativo “ideólogos” para diminuir e ridicularizar o trabalho desenvolvido por Tracy e seus seguidores. Napoleão também os chamava de “sectários”, “subversivos”, “sonhadores” e, ironicamente, “metafísicos”. Nesta época importante para a formação da opinião pública burguesa ocidental, o termo “ideologia” adquiriu, graças aa imperador francês, um sentido negativo.

Napoleão tinha a sensação de que os “ideólogos” o espreitavam por toda a parte. Ele os culpava pela derrota na Rússia e por outros revezes políticos e militares. Em 1802, em medida despótica, Napoleão fechou a Seção de Ciências Morais e Políticas do Instituto Nacional de Paris, sendo seus membros deslocados para novas funções: ensinar História e poesia. Em 1812, proferiu um discurso célebre que confirmava os “ideólogos” como “bode expiatório” francês: “É a doutrina dos ideólogos – a essa metafísica difusa que artificialmente busca encontrar as causas primárias e sobre esse alicerce erigir a legislação dos povos, em vez de adaptar as leis ao conhecimento do coração humano e das lições da história – que se deve atribuir todos os infortúnios que se abateram sobre nossa amada França”. De acordo com observação espirituosa feita à época por Madame de Staël, Napoleão sofria de “ideofobia”.

Sossego e esquecimento

Apesar das críticas e das limitações impostas por Napoleão ao seu trabalho no interior da máquina do Estado, Tracy continuou escrevendo e pesquisando sobre as origens e funções da linguagem. Com a abdicação de Napoleão em abril de 1814, alcançou novamente influência no campo intelectual e político francês. Em 1815, terminou de escrever o último dos quatro volumes de sua monumental obra Elementos da Ideologia, que chegou a ser traduzida e publicada em inglês em 1817 por Thomas Jefferson, que fora presidente dos Estados Unidos (1801-1809) e o principal autor da declaração de independência daquele país (1776). Nos anos seguintes, o trabalho seria também traduzido para o espanhol, o russo e o italiano. No final da vida, Tracy chegou a escrever ainda sobre o “amor”, defendendo causas bastante progressistas, como a liberdade sexual, a liberdade para as jovens escolherem seus próprios maridos e a defesa das mães solteiras.2

Tracy faleceu em 1830. Apesar de todo o seu esforço em consagrar a Ideologia como a “ciência das ideias”, não foi este o rumo que o termo ideologia tomou. O sentido pejorativo de Napoleão acabou se firmando no senso comum. E poucos anos depois de sua morte, Karl Marx, leitor atento dos “ideólogos” e da rusga que estes estabeleceram com Bonaparte, reelaborou, a partir da década de 1840, o termo ideologia, dando vários sentidos a ele, sendo o mais importante, talvez, o de “distorção da realidade”, colocando o capitalismo liberal da sociedade contemporânea em posição equivalente à da religião.

O historiador Emmet Kennedy, um dos maiores conhecedores da obra e da vida de Tracy, sublinhou em um importante ensaio sobre os sentidos de “ideologia” as várias ironias que marcariam o termo: “A palavra que foi criada para suplantar a metafísica e denotar algo mais científico e positivo sofreu uma metamorfose no Império Francês devido às conotações políticas que Napoleão deu a ela, além de considerá-la, a despeito do sentido oposto dado por Tracy, metafísica. Quando Marx usou a palavra, o sentido pejorativo da palavra já tinha se consolidado. Mas foi a leitura econômica que Marx fez Tracy em seu Elementos de Ideologia que o levou a associar a palavra com os interesses da classe burguesa – apesar do alto pedigree de nobreza do Conde Destutt de Tracy”.


Notas

1 Seu trabalho foi depois publicado em 4 volumes com o nome Elementos da ideologia (1801-1815)

2 Tracy, contudo, tinha seus limites explica Eagleton. “As mulheres deviam ter direito à instrução completa, mas não ao voto”.


Referências Bibliográficas

EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: Unesp, 1997.

THOMPSON, John B. Ideology and modern culture: Critical theory in the era of mass communication. Cambridge: Stanford University Press, 1990.

KENNEDY, Emmet. “Ideology” from Destutt De Tracy to Marx. Journal of the History of Ideas, v. 40, n. 3, p. 353-368, 1979.

VINCENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.


Bruno Leal Pastor de Carvalho – Professor do Instituto de História pelo programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD), vinculado ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi também professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). É doutor em História Social pela UFRJ (2015), mestre em Memória Social pela UNIRIO (2009) e especialista em História Contemporânea pela PUCRS (2010). Graduado em História pela UERJ (2006) e em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela UFRJ (2006). É fundador e editor do portal Café História, além de cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ (NIEJ). É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais. Seu campo de interesses inclui: holocausto, crimes de guerra, história pública digital e divulgação de história.


Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Antoine Destutt de Tracy: o “pai” do termo ideologia (artigo).  In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/o-pai-do-termo-ideologia/ ‎. Publicado em: 5 mar. 2018. Acesso: [informar data].

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