“O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface”: Oh! O horror, o horror!

Para Andre Freixo, releitura de clássico de 1974 produzido pela Netflix não é excelente, tampouco agrada a qualquer pessoa, mas tem seu valor.

Novo filme da franquia já está disponível na Netflix Brasil.

Em 2022, a Netflix lançou uma nova versão de um velho filme. Dirigido por David Blue Garcia, “O Massacre da Serra Elétrica: o retorno de Leatherface” (Texas Chainsaw Massacre) segue de perto os elementos do roteiro do filme que originou tudo em 1974. O filme não é excelente, tampouco agrada a qualquer pessoa. O retorno do monstro da motosserra (a expressão “serra elétrica” no título em português não faz sentido, pois a motosserra utilizada é movida a combustível, e não a eletricidade) não acrescenta muito ao subgênero, provavelmente, o mais subestimado da sétima arte, os slasher films, mas isso não é ruim. O filme tem o seu valor.

Filmes slasher são produções de baixo orçamento sobre crimes e mortes violentas, assustadoras, e explicitamente gráficas, porém, criados sob um pano de fundo histórico, social e político. Sim, tudo isso está ali na nova produção da Netflix, mas não é abordado explicitamente na trama; está no subtexto. O cinema pode ser importante no debate sobre política e arte. Parte importante da experiência estética não é apenas o “entretenimento”, o “curtir” ou não o filme, “saber se divertir”, ou o escapismo da coisa toda. Mas o debate que o filme (res)suscita.

Os filmes slasher são filmes de horror. Contudo, o que gerou o cenário horrendo no qual a trama se desenvolve? Que mundo foi responsável pelo surgimento destes monstros? Esse tipo de subtexto em geral não aparece de forma óbvia em filmes como esse, senão como sugestões na trama principal.

Uma das tópicas mais utilizadas, por exemplo, é o uso de ferramentas de trabalho como armas para o crime. No caso do filme de 1974, a motosserra, facas, facões, ganchos de pendurar carne. A atmosfera era desoladora: vandalismo em cemitérios (descaso com a morte e com a memória dos mortos), calor extremo, clima desértico (sem água, componente essencial da vida), postos de gasolina abandonados (falta de combustível – a crise do petróleo), casarões em ruínas; tudo é tosco, sujo e decadente. Uma distopia do medo no coração do capitalismo. O horror da história reflete as ruínas do “sonho americano”. Evidentemente, o diretor/roteirista Tobe Hooper e o co-roteirista Kim Henkel retiraram também a “inspiração” da violência nos crimes do filme da vida real (os crimes de Ed Gein). Mas o mesmo pode ser dito sobre a situação social no interior pobre dos EUA, devastado pela expansão das grandes empresas, falência de pequenos negócios familiares (como abatedouros, por exemplo), seguidos de endividamentos e da eventual perda das suas propriedades por bancos, morte, fome, necessidade. Qual o limite do desespero e o que emerge das profundezas após cruzarmos esse limite?

Assim, penso que “O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface” é um filme interessante. Ele não se propõe a ser nada além de um slasher na tradição do original de 1974 (algo que consegue realizar). Assim, cria uma nova sequência do primeiro filme que se passa na nossa contemporaneidade, aproximadamente 50 anos depois. Tudo ali está relativamente bem encaixado: a nostalgia (marca registrada da Netflix), as cenas de susto, as mortes violentíssimas, o exagero visual, sangue, sangue e mais sangue.

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Personagens do filme. Foto: reprodução.

OK. Mas há mais do que isso. E essa é a parte legal! O Retorno de Leatherface nos mostra (novamente) quatro jovens de Austin, no Texas, numa viagem de carro pelos cafundós do estado. Para quem não sabe, a cidade de Austin é considerada uma espécie de “oásis verde” (da economia sustentável) e “progressista” (democratas e liberais) encravado no coração do estado com a fama de ser o mais republicano, conservador, tradicionalista, armamentista e “politicamente incorreto” (bandeiras confederadas são ostentadas por toda a parte) do sul dos Estados Unidos. Os quatro jovens se dividem em duas duplas: duas irmãs, Melody e Lila; e um casal inter-racial, Dante, jovem negro, e Ruth, uma jovem mulher branca. Todos esses elementos são importantes no subtexto que trato.

Melody e Dante são “youtubers” famosos. E a viagem de carro em direção à cidade-fantasma de Harlow não é turística: eles têm como missão a gentrificação da mesma. A cidade teve todos os seus edifícios arrendados por bancos e foi delegada a estes jovens a tarefa de refazer a cidade. Em uma palavra, a missão dos quatro jovens de Austin é vender a promessa de uma utopia do capitalismo tardio no coração do Texas para investidores.

Lila, é uma jovem traumatizada e atormentada pela “culpa” que sente por ter sobrevivido ao tiroteio na sua escola que ceifou a vida de seus amigos. Ruth oferece a caricatura de uma juventude arrogante, ingênua e alienada das redes sociais. Podemos identificar que há muito da “cultura do cancelamento” e de outras saídas fáceis para que tais jovens não se responsabilizem pelo mundo adulto em que vivem, menos ainda por aquilo que fazem, pelas heranças do passado (e os “fantasmas”), ou pelo rumo das coisas (e o futuro – ou ausência de futuro) no lugar onde vivem. A “fuga” para uma “nova utopia” (no aqui e agora) é alimentada pela esperança dos jovens de um começo “do zero” num paraíso do consumo. Eles não estão sozinhos na tarefa, claro. Um ônibus repleto de jovens empreendedores os acompanha na missão, cheios de ideias mirabolantes para Harlow.

Aqui precisamos prestar atenção nos detalhes. O plano deles é erigir a nova cidade perfeita para a “Geração Z” a partir das ruínas de uma cidade-fantasma que o próprio capitalismo tardio ajudou a deixar nesse estado (o personagem Dante verbaliza isso). O horror parece habitar nesse lugar há muito tempo. Ao avistarem uma bandeira confederada hasteada no alto de um prédio, Dante avisa que devem retirá-la de lá imediatamente. O motivo, contudo, não é o simbolismo racista da bandeira, mas o fato de que “se os investidores virem essa bandeira aqui, eles abandonarão o projeto”.

Ao entrarem no edifício do antigo orfanato da cidade eles se deparam com uma senhora muito idosa que ali vivia e cuidava de um “dos últimos órfãos”, um enorme e assustador homem que exige cuidados especiais (spoiler? Não, né?). A senhora é muito frágil e precisa de um balão de oxigênio. Ela, muito educadamente, os recebeu e ofereceu-lhes chá e disse que aquela propriedade era dela. Eles, muito impaciente e grosseiramente, ouviram a história da senhorinha e insistiram que não, que aquele prédio agora pertencia ao banco e que ela deveria sair de lá imediatamente. Ela jurou que tinha resolvido tudo com o banco, mas eles não acreditaram. Depois de uma breve discussão, a senhora teve uma síncope. Precisou ir de ambulância acompanhada pelo xerife, seu assistente, Ruth e o grandalhão e assustador “órfão”, mas não resistiu. A matança começa a partir desse ponto.

Os principais elementos do subgênero slasher estão bem representados nesse filme, para o bem ou para o mal. Um deles, é a questão das vítimas. Há certa “exploitation” aqui como havia no original de 1974 (as personagens femininas em especial). Contudo, o que me parece digno de nota é que as vítimas não são figuradas como absolutamente “inocentes” que deram o trágico azar de cruzar com pessoas inerentemente más em circunstâncias extraordinariamente violentas. O diretor parece se esforçar para complexificar esse entendimento. Ele parece cultivar uma antipatia quase irresistível pelas pessoas que serão massacradas por Leatherface. Nada disso torna o serial killer um “herói” no filme, evidentemente. Mas a atitude dos jovens em relação à cidade, desde o momento em que pisam em Harlow, o descaso com a sua história, seus moradores, sua cultura, tradições e problemas. Há uma imensa arrogância, por vezes uma indiferença cruel nos juízos de valor moral das pessoas da “cidade grande” sobre aquelas vidas e seu cotidiano é o pior possível (Dante não demonstra empatia alguma ao saber que a senhorinha morreu depois de uma discussão com ele e Melody).

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Cena icônica do novo filme. Foto: reprodução.

Penso que o horror do filme não está apenas na violência do assassino em série. Ela é gráfica, claro, e muito explícita como se espera em filmes como esse. Mas esse horror pode ser pensado como uma consequência de outras forças violentas em atividade ali. Consequência de situações sociais, políticas e históricas de violências que nós, infelizmente, naturalizamos como “normal”. A gentrificação, a arrogância, o esnobismo, a ganância, o individualismo consumista, a alienação e a indiferença destes jovens “empreendedores” (que lembram muito certas “figurinhas liberalóides” que temos na política brasileira de uns tempos para cá) como agentes do grande capital, dos bancos e da economia de mercado diante de uma velha cidade trucidada pelos novos tempos da América pós-industrial (e neoliberal).

Este tipo de horror, que nada tem de normal (certo?), despertou um monstro que estava adormecido e controlado há cerca de 50 anos naquele cantinho esquecido do mundo. Um monstro das profundezas de um abismo de decadência moral e civilizacional que, uma vez desperto, não poupará ninguém em seu caminho, munido com sua inseparável motosserra. Exatamente, como costuma fazer a implacável máquina de triturar gente chamada capitalismo. A questão que fica é: por que nos escandalizamos com um tipo de horror e não com o outro?

André de Lemos Freixo

Doutor em História (PPGHIS/UFRJ, 2012), Mestre (PPGHIS/UFRJ, 2008) e Bacharel com Licenciatura (UFRJ, 2006) em História. É Professor Adjunto no Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Tem como áreas de interesse: História da Historiografia Brasileira, História do Brasil Republicano, História Pública, Teoria e Filosofia da História. Foi coordenador do Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade (NEHM/UFOP) no biênio 2014-2016.

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