O Grande Golpe do Leste (título original: Zwei zu Eins), novo filme de Natja Brunckhorst, é uma comédia policial com pano de fundo político que se baseia em uma história real ocorrida na Alemanha logo após a reunificação. Ela trata de um sonho corriqueiro humano: o que faríamos se, do nada, encontrássemos montanhas de dinheiro? O longa, que faz uma grande mistura de elementos de comédia de assalto, drama romântico e reflexão histórica, estreou nos cinemas alemães no verão de 2024, após ser exibido no Festival de Cinema de Munique e chega aos cinemas brasileiros agora em 12 de junho.
Uma ideia maluca com fundo sério
A história se passa no verão de 1990, em Halberstadt uma pequena cidade do finado leste alemão, logo após a unificação monetária da Alemanha ocorrida após a queda do muro. O clima político é tenso, a economia está em colapso. Uma “fuga” em massa dos moradores da Alemanha oriental para a ocidental resulta em um abandono quase que total de cidades e, principalmente, de empresas e indústrias, as quais já se encontraram, nos anos do regime comunista, em pleno estado de precariedade e atraso tecnológico.
No meio desse caos, três amigos – Maren interpretada pela excelente Sandra Hüller que conhecemos de Anatomia de Uma Queda (2023), Robert incorporado por Max Riemelt que ficou mundialmente famoso através da série Sense 8 (2015)e Volker interpretado por Ronald Zehrfeld – descobrem por acaso um depósito subterrâneo com grandes quantidades de dinheiro da antiga Alemanha Oriental os marcos da RDA, que recentemente havia saído de circulação substituindo pelo ocidental Deutsche Mark.
O que começa como uma curiosidade se transforma em um plano ousado: os três, com o “tio Marke” (Peter Kurth) ex-funcionário e militar da Alemanha Oriental, pretendem colocar o dinheiro de volta em circulação – não para enriquecer, mas para ajudar a comunidade empobrecida e abandonada ao seu redor. O plano, no entanto, os coloca em rota de colisão com a nova ordem econômica, a legalidade e até seus próprios sentimentos.
Por meio de trocas, truques e improvisações, eles conseguem usar o dinheiro para adquirir bens e serviços oferecidos, ironicamente, pelos alemães ocidentais que agora inundam o território oriental com suas grandes modernidades. A narrativa combina de forma interessante elementos de filme de assalto, comédia social, romance e sátira política. À medida que o projeto cresce, surgem conflitos com a burocracia, com a lei – e entre eles mesmos.
Elenco
Um dos pontos fortes do filme é definitivamente o seu elenco. Sandra Hüller dá vida à Maren com inteligência e muita emoção. Max Riemelt interpreta o idealista Robert com energia e carisma e a ingenuidade típica de um grande sonhador. Já Ronald Zehrfeld, como Volker, e Peter Kurth, como o irreverente ti, oferecem um contraponto pragmático e pé-no-chão.
A química entre os quatro sustenta tanto a comédia quanto os momentos de tensão dramática. O relacionamento – quase – poliamoroso entre eles é tratado de forma natural e respeitosa – algo raro no cinema alemão ocidental, mas não raro nas relações dos alemães do leste, que, apesar do regime ditatorial em que viviam, sempre desfrutaram de liberdades pessoais e amorosas diferentes da parte ocidental com sua forte influência moral e religiosa na sociedade. O leste alemão era famoso por suas produções de conteúdo sexual, didática e livre, assim como a naturalização da prática do nudismo, do divórcio e da presença feminina na força de trabalho.
Direção e produção
Natja Brunckhorst assina o roteiro e dirige com sensibilidade as mudanças de tom da narrativa. A fotografia e a ambientação recriam com autenticidade nostálgica a atmosfera do leste alemão no início dos anos 90. Brunckhorst dirige com muita personalidade, mesclando tons de farsa, crítica e drama íntimo. Já seu roteiro, por outro lado, sofre com o excesso de ambição: tenta abraçar o humor de golpe, a nostalgia histórica e um relacionamento poliamoroso – o que resulta em momentos instáveis e uma narrativa que se dispersa, especialmente no terço final.
O roteiro pode tropeçar no ritmo e na coesão, mas deixa uma marca pela originalidade e pelo olhar humano sobre uma época de rupturas. Temos momentos cômicos, quase pastelões e cenas introspectivas. Essa abordagem cria certa irregularidade, mas também confere ao filme um caráter único que não víamos desde Good Bye, Lenin! (2003).
A ambientação – de prédios em ruínas a mercados improvisados – reforça a sensação de instabilidade e urgência. A fotografia evoca com realismo o cenário cinzento e transformador da Alemanha Oriental à beira do capitalismo. As filmagens aconteceram, entre outros locais, na cidade de Gera e em um antigo túnel subterrâneo perto da cidade de Jena. A história se inspira em fatos relacionados a estoques de dinheiro da RDA que não foram destruídos após a reunificação por falta de meios rápidos e baratos para o descarte.
Uma “salada” interessante
A comédia dramática aposta alto ao combinar sátira social, romance não convencional e crítica histórica em uma trama inspirada em eventos reais da Alemanha pós-reunificação. O resultado é um filme corajoso, inventivo, mas nem sempre equilibrado. Apesar de criativo e de carregar uma crítica social apurada e necessária, o filme tem momentos que fogem muito do tom sugerido em sua primeira parte – especialmente os 30 últimos minutos não fazem jus à excelente qualidade dramática das relações retratadas com delicadeza anteriormente, e sofre do mal da dispersão cênica e de um final pouco coerente com sua trajetória dramática.
O Grande Golpe do Leste pode não ser um filme redondo nem perfeito, porém acerta ao fugir do comum. É um sopro de criatividade dentro do cinema alemão contemporâneo, com muito humor e empatia, e que conta uma história pouco explorada – principalmente para quem vive fora da Alemanha – sobre a transição da Alemanha Oriental para o capitalismo. A obra é feita sob medida para quem aprecia filmes históricos com um toque anárquico e humano – mesmo que nem todas as piadas funcionem e algumas cenas pareçam excessivas.
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