“O Eternauta”: neve tóxica, política, ditadura e ficção científica

Adaptação da HQ sul-americana mais famosa mistura apocalipse, resistência e memória em uma das séries mais ambiciosas da Netflix na América Latina até o momento.
14 de maio de 2025
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Ricardo Darín, em "O Eternauta", nova série argentina da Netflix.
Ricardo Darín, em "O Eternauta", nova série argentina da Netflix. Foto: Netflix.

O que acontece quando o fim do mundo começa na grande Buenos Aires? O Eternauta, série argentina lançada pela Netflix em 2025, tenta responder a essa pergunta com coragem e ousadia. Baseada na lendária HQ de mesmo nome de Héctor Germán Oesterheld com desenho do incrível Francisco Solano López e publicada originalmente entre 1957 e 1959, a adaptação faz algo que poucas obras (ou nenhuma até hoje) de ficção científica latino-americanas ousam: encara o trauma histórico de frente, com sangue, suor e neve — tóxica e mortal.

Dirigida por Bruno Stagnaro (Pizza, birra, faso/1998), a série conta com o ícone do cinema argentino Ricardo Darín (Argentina, 1985/2022) no papel de Juan Salvo, o “viajante da eternidade”. A trama se passa em uma grande Buenos Aires – os personagens principais vivem em Vicente Lopes – sitiada por uma nevasca mortal que mata ao toque e anuncia uma invasão alienígena encoberta. Mas os verdadeiros monstros não estão apenas fora da cidade — estão nas estruturas de poder, nos silêncios cúmplices, nos atos de traição cotidiana e na fragilidade de relações sociais diante de uma catástrofe.

“O Eternauta”: Ficção científica com sotaque e cicatriz histórica


O enredo segue a espinha dorsal da HQ dos anos 50, mas atualiza o tom e a estética para o século 21, assim como cria arcos e personagens novos. A fotografia é granulada, melancólica, quase documental, e os efeitos visuais — embora discretos na maior parte dos 6 episódios— sustentam com realismo e beleza as cenas de destruição e desolação.

A série não poupa a audiência: é seca, crua, muitas vezes angustiante. A tensão política, que já existia no original como metáfora – e que em futuros retrabalhos do autor se expõe como aberta crítica política e social – aqui vira a narrativa central da trama.

Não é possível assistir a O Eternauta sem lembrar da trágica história do sequestro e do desaparecimento de Oesterheld, suas filhas e seus genros durante a ditadura militar argentina. Nos anos 70, ele engajou-se politicamente na militância peronista e na resistência. Supõe-se que, em torno de 1977-78, todos os sequestrados foram assassinados em um centro clandestino de detenção, até hoje os corpos nunca foram encontrados.

Portanto, a criação de Oesterheld não é apenas uma história em quadrinhos — é um testemunho e um testamento. A série faz justiça a isso. A resistência do protagonista Juan e seu grupo (a esposa, a filha, amigos do bairro) se torna um espelho do povo argentino diante de suas tragédias históricas: a repressão, os desaparecimentos, o medo institucionalizado.

Elenco afinado

O ator Ricardo Darín entrega uma atuação contida como Juan Salvo, digna de um personagem que parece carregar o peso do tempo e as sequelas de soldado durante a Guerra das Malvinas (1982). Seu Juan não é um herói clássico. É um homem comum arrastado para uma luta que não escolheu, tentando proteger o que ama em meio ao caos. Ao seu lado, a bela Carla Quevedo, como Elsa, oferece uma presença firme, mesmo em momentos em que o roteiro lhe dá pouco espaço para respirar devido à ação.

O elenco secundário também traz nomes fortes da cena argentina: César Troncoso como o melhor amigo de Salvo “Tano” Favalli, Ariel Staltari – que também assina parte do roteiro – como Omar, Orianna Cárdena que se destaca como a jovem Inga. Há química, há tensão, há dor. O roteiro — assinado por Stagnaro, Staltari e uma equipe de roteiristas que conhece bem o material original — respeita a inteligência do público e não se entrega ao didatismo. Aqui não há vilões caricatos nem mocinhos messiânicos. Há sobreviventes, cada um à sua maneira, fugindo bastante dos clichês e maniqueísmos comuns em filmes de ação.

Estética da catástrofe e ética da lembrança

A produção acerta ao evitar o espetáculo hollywoodiano. A catástrofe aqui é íntima, silenciosa, acumulativa. A neve branca que mata ao toque é mais assustadora do que qualquer explosão. A série entende que o horror não precisa gritar para ser profundo — às vezes ele sussurra na forma de uma rádio silenciosa, de uma janela fechada, de um vizinho que não volta, de relevos de corpos cobertos pela neve.

Com um orçamento de produção de 15 milhões de dólares e filmada em mais de 50 locações na cidade de Buenos Aires e arredores a estética de O Eternauta remete ao cinema de resistência latino-americano, com ecos de filmes como La historia oficial (1985), Relatos selvagens (2014) e até de Children of Men (2006). A trilha sonora é discreta, quase ausente em certos trechos, reforçando o silêncio sufocante como estratégia narrativa.

Uma adaptação que não foge da briga

Transformar O Eternauta em série foi, sem dúvida, um risco. A HQ é reverenciada, estudada, quase sagrada na Argentina e na américa latina. Mas a Netflix e a equipe criativa não fizeram concessões fáceis. É uma série sobre ficção científica, sim, mas também sobre memória, sobre desaparecimento, sobre o que acontece quando a história se repete e fingimos que é novidade. E, acima de tudo, é uma história sobre a importância da coletividade, unindo no caos pessoas com diferentes classes sociais, econômicas e credos. “A união nos faz mais forte!” é o grito de Oesterheld, e os criadores fizeram jus a isso.

Se há falhas, elas estão no ritmo e no foco — o meio da temporada desacelera demais e alguns personagens poderiam ser mais bem desenvolvidos. Por vezes, o enredo gira demasiadamente em torno de Juan Salvo e suas lutas pessoais – o que é compreensível pela presença da figura imponente do grande ator Darín – que acaba se transformando em uma espécie de Bruce Willis em uma espécie de Die Hard sul-americano.  Personagens coprotagonistas na HQ, como Favalli, ficam na sombra da persona imponente de Juan criada. Mas no todo, O Eternauta é um triunfo raro: uma ficção científica politizada, com alma latino-americana e coragem estética. E um baralho de Truco.

Memória viva no streaming global

O Eternauta é, acima de tudo, um lembrete. De que a ficção pode ser arma, espelho e cura. Que o futuro é político. Que o passado não passou. E que as boas histórias — mesmo contadas com neve tóxica, alienígenas e invasões — têm o poder de dizer verdades que documentários por vezes não conseguem.

Assista. E depois leia a HQ. Ou vice-versa. Só não passe batido. Porque, como diz o próprio Juan Salvo, preso entre tempos e espaços: “a eternidade não é o fim — é a lembrança que se recusa a morrer”. O Eternauta está disponível na plataforma Netflix para assinantes.

Leia também a resenha do nosso blog parceiro, o Bonecas Russas.


Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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