Há filmes que não apenas contam uma história — eles a pressentem, como se o ar estivesse impregnado de lembranças. O Agente Secreto, novo longa do diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho, é um desses. Em vez de seguir o caminho padrão do espetáculo ou da denúncia óbvia, o diretor pernambucano prefere o som abafado das portas que rangem, dos passos ecoando pelos corredores de uma cidade onde o tempo parece nunca passar por completo. O filme respira a atmosfera de um Brasil de 1977, mas fala diretamente ao presente, transformando o Recife em palco e, também, personagem de um thriller político sobre vigilância, medo, culpa e esquecimento.
Uma distopia tropical da nossa história recente
Depois das obras excelentes Aquarius (2016) e Bacurau (2019) – esse último, em especial, empolgando o público brasileiro – Kleber mergulha agora no terreno mais denso dos segredos. Inspirado por pesquisas sobre o período da ditadura militar e por ecos de filmes de espionagem e paranoia dos anos 1970, Kleber nos oferece um protagonista dividido: Marcelo (Wagner Moura), aparentemente um técnico de som que retorna à sua cidade natal durante o Carnaval, acaba enredado em uma teia de vigilância, crimes e memórias abafadas ainda sob a mão da ditadura brasileira.
O diretor escreve o roteiro e dirige com o mesmo pulso firme de quem documenta um sonho febril. O Agente Secreto, filme que nos é apresentado como um mosaico incompleto de lembranças, silêncios e suspeitas, é executado com uma precisão que só quem conhece o cheiro, a cor e o ritmo de Recife poderia alcançar.
KMF constrói uma narrativa e nos apresenta em três movimentos, alternando tempos, espaços e tonalidades de luz como recurso para reforçar as diferentes épocas abordadas. O que começa como um reencontro pessoal entre pai e filho se transforma em investigação histórica e termina como fábula política sobre o custo da busca pela verdade.
A estética do segredo
Aqui entramos de corpo e alma na cultura pernambucana. A fotografia de Evgenia Alexandrova (Sem Coração/2023) é pura contenção. As lentes anamórficas, populares nos anos 50 – buscando o efeito widescreen na pós-produção – comprimem o quadro, achatam e acentuam a sensação de confinamento. Os filtros em tons ocre e metálicos dominam a tela, sugerindo um país visto sob uma eterna penumbra.
Os interiores são iluminados como memórias — uma estética amarelada que lembra tanto os arquivos esquecidos quanto as lembranças que preferimos não reabrir. Kleber filma o Recife como quem descobre ruínas vivas, uma cidade feita de becos, vozes, rádios e ecos do passado.
Já a trilha sonora de Mateus e Tomaz Alves, que já foram parceiros de KMF em outros de seus filmes, costura o som ambiente com músicas populares e gravações originais de época. É uma colagem sonora que mistura frevo, ruídos e silêncios. O som de uma fita cassete em um gravador antigo pode valer mais que qualquer outra expressão verbal — aqui, o barulho é memória.
Wagner Moura em plena ascensão
O também diretor e ator Wagner Moura nos entrega uma atuação de contenção impressionante. Seu personagem Marcelo é um homem dividido entre a culpa, o amor pelo filho e a necessidade de entender o próprio passado na busca pela identidade da mãe. Sua presença é magnética mesmo (ou principalmente) quando nada diz.
Moura faz de seu corpo um campo de batalha: os olhos são cansados, o andar é hesitante, a voz que se quebra ao tentar explicar o inexplicável. Há algo de profundamente humano e melancólico nesse personagem que parece carregar os ruídos do país dentro da cabeça e o peso do mundo em seus ombros.
Ao redor dele, personagens como Elza, interpretada pela sempre competente Maria Fernanda Cândido, surgem como uma figura de lembrança e resistência de um passado recente. Temos aqui a construção do elo entre o afeto e o trauma. Gabriel Leone, Hermila Guedes, Tânia Maria – excepcional como dona Sebastiana – e o ator alemão Udo Kier completam um elenco que parece surgir de diferentes fantasmas do tempo, todos orbitando em torno de questões como o que ainda é possível redimir, o que perdoar e como seguir em frente.
A política da memória
O Agente Secreto é menos um filme padrão sobre espionagem e mais um filme sobre o próprio ato de (se) esconder. Kleber Mendonça não oferece respostas fáceis e diretas — ele filma a ditadura como uma névoa que ainda paira sobre a cidade e sobre nós mesmo em sua fase de enfraquecimento durante o governo Geisel. Há uma coragem em fazer cinema político sem precisar de slogans diretos e KMF optou pela tensão das esquinas, o olhar atravessado, o som distante de uma fita que é rebobinada e volta a rodar.
O roteiro, escrito por ele mesmo, tem a delicadeza de quem entende que a verdade não se revela em explosões, mas, muitas vezes, em silêncios. A cada corte, a cada pausa, há uma história maior sendo contada além da imagem. O que importa aqui não é o fato histórico em si ou um intrincado arco entre espiões, mas o que o esquecimento (ou a negação) faz conosco.
O Brasil, o mundo e o eco dos prêmios
Estreando mundialmente no Festival de Cannes 2025, o longa foi recebido com entusiasmo e prêmios pela crítica e público — inclusive o de Melhor Ator para Wagner Moura e o Prêmio Especial de Direção para Kleber Mendonça Filho. O reconhecimento internacional veio acompanhado da escolha pela Academia Brasileira de Cinema do filme para representar o Brasil no Oscar 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional, consolidando o diretor como um dos nomes mais consistentes do cinema contemporâneo brasileiro.

Com distribuição internacional pela Neon e exibições confirmadas em festivais como Toronto, Nova York e San Sebastián, O Agente Secreto já figura entre os títulos mais elogiados do ano. E Wagner Moura aparece encabeçando listas de indicações pela sua atuação. Há quem diga que é o filme mais contido e, ao mesmo tempo, o mais devastador de Kleber — e há uma certa verdade nisso.
Entre o som e o silêncio
No fim, percebemos que O Agente Secreto é sobre o peso do que não se diz. Sobre o país que arquiva seus papéis amarelados ou enterra os esqueletos de suas dores, mas que continua a ouvi-las ressoando no fundo do peito. Kleber Mendonça Filho faz cinema como quem abre um diário empoeirado e, ao reler, descobre que as páginas ainda sangram verdades.
E nesse ponto preciso avisar, o longa de duas horas e meia de duração, não é um filme marcado por grandes explosões ou cenas impactantes de ação, mas, sim, de pequenas rachaduras e infiltrações. E são essas rachaduras que deixam escapar a luz — a mesma que ilumina Wagner Moura caminhando pelas ruas vibrantes de Recife entre seus fantasmas, segredos e memórias.
O Agente Secreto consolida-se como uma das experiências cinematográficas mais inquietantes e necessárias do ano, teve pré-estreias limitadas nos cinemas brasileiros em outubro de 2025, e oficialmente está nas salas de todo o país desde o dia 06 de novembro.