Com a escolha de José Sarney para assumir a presidência da República, em 15 de março de 1985, após a internação do presidente eleito Tancredo Neves, chegava ao fim a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985). Passados 40 anos, diversos estudos e iniciativas, como a Comissão Nacional da Verdade, se dedicaram a demonstrar os excessos e crimes praticados durante o período militar.
Mas como esse passado autoritário é visto hoje pelos brasileiros? Se, por um lado, parte da população reconhece os abusos ocorridos pelo autoritarismo, outra parcela das pessoas parece não se preocupar se o país vive um regime democrático ou não. Em dezembro de 2024, uma pesquisa Datafolha mostrou que 17% dos brasileiros não se importavam se o governo era uma democracia ou uma ditadura e 8% afirmaram que, em certas circunstâncias, uma ditadura seria melhor que uma democracia. Esses números são ainda mais preocupantes face ao crescimento de narrativas públicas que negam a ditadura e enaltecem torturadores.
A professora Rosenilde Alves de Lima é uma das muitas historiadoras preocupadas com esse legado. Para ela, os professores de história são peça-chave no debate público sobre a ditadura. “Provavelmente, se conseguirmos demarcar as fronteiras que separam as narrativas negacionistas das narrativas historiográficas reguladas pela operação historiográfica e do ensino, os professores podem ter melhores condições de contrapor e explicar esse fenômeno complexo e inescrutável”, defende a pesquisadora. Rosenilde desenvolveu uma dissertação intitulada “Histórias públicas e ditadura militar: a verdade sedutora dos negacionistas como um problema para o ensino de história”, defendida em 2021, no Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Regional do Cariri. A pesquisa pode ser acessada aqui.
A dissertação está dividida em três partes. No primeiro capítulo, a autora discute o ensino da História e a história pública, e o papel do professor nesses contextos. No segundo capítulo, são abordadas questões referentes à educação histórica, narrativas negacionistas e as disputas de memória relacionadas à Ditadura Militar. Por fim, o último capítulo é dedicado à análise de memes sobre conteúdo histórico como estratégia de difusão de abordagens negacionistas nas mídias digitais.
“Analisamos duas narrativas de grande circulação e aceitação na cena pública que negam ou justificam a ditadura militar e ainda amenizam os efeitos políticos decorrentes dos anos em que os militares estiveram no poder, visando explicar os elementos estruturantes e sedutores de versões que propõem revelar a verdade sobre um passado sensível, em função de ser um período marcado por censura, exílio, cassações, prisões, torturas, desaparecimentos e mortes”, explica.
Negacionismo nas redes
Professora de História, na Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Simão Ângelo, em Penaforte (CE), Rosenilde conta que, a partir de 2015, passou a perceber que os estudantes apresentavam questionamentos embasados em informações e conteúdos históricos tirados da internet. “Ao navegar pelo mundo virtual, começamos a perceber que havia professores sendo influenciados por esses vendedores de verdade, de modo que essas narrativas midiáticas e negacionistas serviam de referência ao fazer pedagógico de professores de diversas áreas”, relaciona.

Para combater essa realidade, Rosenilde argumenta que os professores e professoras têm a função social de promover a construção de valores humanos, democráticos, participativos e inclusivos. Para ela, os docentes devem atuar como intelectuais públicos, interpretando o presente-passado no sentido de construir perspectivas de futuro com menos dissenso e mais fraternidade. “É evidente que o trabalho do professor não pode ser a mera descrição dos feitos do passado, como sugerem as narrativas negacionistas e seus discursos conservadores e tradicionais da história”, sustenta.
Ela também critica o impacto das fake news nos processos de aprendizagem histórica de jovens estudantes. Segundo ela, as narrativas promovidas na internet flertam com o discurso pós-verdade e são utilizadas pela extrema-direita e por grupos conservadores adversos à reflexão crítica, livre e autônoma. “Empreendemos uma análise que, primeiro, investigou o lugar social dessas produções discursivas para, em seguida, estabelecer uma comparação de como essas narrativas se apropriam das noções de história, memória e verdade, à medida que defendem suas linhas negacionistas”, define.