“Não olhe para cima”: o ridículo do absurdo

Para Taís Zago, filme com Leonardo Di Caprio e Jennifer Lawrence “é um espelho da nossa realidade mundial onde muitas das sandices apresentadas na ficção refletem atitudes que reconhecemos rotineiramente, da mesma forma que é inegável o impulso de evitar a realidade como forma de autopreservação”.

Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence em seus papeis. Filme conta a história da descoberta de um cometa apocalíptico na rota da Terra. Fotografia por Niko Tavernise / Cortesia Netflix

Em tempos de persistente Pandemia, o que não nos falta são produções de audiovisual que usam (e abusam) do conceito de (pos-)apocalipse. Temos toda uma palheta de opções, que vai do tema mais óbvio como um vírus ou bactéria mortal transmitidos por zumbis, até as distopias mais futurísticas que ora apresentam a Terra como um deserto, ora como um grande oceano. O mundo vigiado, o mundo das mídias virtuais, o mundo onde perdemos a autonomia. O homem como vitima de suas criações ou destruições.  

“Não olhe para cima” (Don’t Look Up, 2012)não foge muito dessa fórmula, porém é bem mais assustador. E não nos apavora pelos seus monstros ou seus replicantes, nem por peste alienígena ou parafernálias que querem destruir a humanidade. O inimigo é próximo, é conhecido. É, muitas vezes, fogo amigo. São os nossos governantes, bilionários, incrédulos, sensacionalistas, negacionistas e oportunistas.

O roteiro do diretor Adam McKay não é complicado e nem rebuscado. Não conta com reviravoltas e atos de heroísmo norte-americanos. Já na primeira cena nos é revelado o que está por vir – um enorme meteoro está em rota de colisão com a Terra e temos apenas seis meses para bolar um plano e colocar em prática a fim de evitar a catástrofe. Mas o que parece um cenário desesperador para os pesquisadores Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e a estudante de astronomia Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), é tratado com desinteresse pelas mais altas autoridades americanas.  Diante da indiferença da presidente Orlean (Meryl Streep) e de sua equipe, Randall e Kate passam o restante do filme tentando chamar a atenção dos meios de comunicação, das autoridades e da população para o desastre iminente. E é nesse momento que sentimos o desespero, a impotência e a solidão de quem não é escutado. E aqui mora o terror. O medo que sentimos é real.

Adam McKay escreveu o roteiro antes da Pandemia. A intenção dele era que fizéssemos uma relação direta com o pouco caso que temas ambientais como o aquecimento global recebem dos governantes, e, também, de boa parte da população mundial. Porém, realizado em meio à crise do Corona, seria impossível não traçar um paralelo entre a ficção e a realidade. Não foram poucos os memes e as resenhas que desenharam muito bem essa associação, dando nomes reais a seus personagens, correlacionando falas fictícias com discursos reais. E isso ocorreu não somente nos EUA e no Brasil. Ao redor do mundo o elenco de “Não olhe para cima”encontrou suas personas (non gratas) reais.

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Comédia é dirigida Adam McKay e fez grande sucesso global. Foto: Cortesia Netflix.

O ridículo do absurdo nos leva ao riso e também às lágrimas. A Presidente Orlean é uma governante mais preocupada em abafar os escândalos da sua gestão do que em tomar atitudes proativas. Ela praticamente gargalha diante do horror dos cientistas. O alívio cômico fica por conta do seu filho e assessor Jason (Jonah Hill), um pastiche do trumpismo, responsável pelas redes sociais e relações públicas de Orlean. Como não poderia deixar de ser, ainda estão bem amparados em um escopo de generais e influenciadores, como o bilionário CEO de uma famosa empresa de tecnologia (Mark Rylance) que não demora a encontrar uma “serventia” para o monstruoso meteoro. Plano que o deixaria com trilhões em sua conta. Mas claro, com um plano de fuga dentro da manga para si e para a casta dos mais ricos e famosos do mundo.

“Não olhe para cima” é a imagem crua e escarrada daqueles que não querem abdicar do status quo, nem mesmo para salvar suas próprias vidas. Do poder Estatal que ignora a quem serve. Da ambição, vaidade e da ganância que permeiam a sociedade. É um espelho da nossa realidade mundial onde muitas das sandices apresentadas na ficção refletem atitudes que reconhecemos rotineiramente, da mesma forma que é inegável o impulso de evitar a realidade como forma de autopreservação. Uma espécie de mecanismo de proteção da saúde mental que nos impede de aceitar o pior por vir. Somos únicos nesse tipo de incompetência no reino animal. Nossa consciência racional acabou por nos tornar irracionais. Apagou nossos instintos. Nos colocamos em risco. E essa obra nos esfrega isso na cara. Sem piedade. Sem final feliz. Intoxicados com seu humor macabro e cáustico saímos dela ainda menos esperançosos do que entramos. Olhando para cima.

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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