Modernização arriscada: doenças, epidemias e ciência em meio ao avanço do homem sobre a floresta

História mostra que abertura de ferrovias, estradas e outras formas de exploração econômica de áreas florestais no Brasil têm fomentado a proliferação de doenças. Empresas tentaram combater o problema contratando grandes cientistas e realizando ações profiláticas. O caminho para a “modernidade”, contudo, não foi nada fácil.

Por Cristiane d’Avila

O avanço do homem sobre a Amazônia e as doenças decorrentes dessa intervenção sempre mereceram o olhar dos cientistas. Dada a crescente conscientização sobre a importância da floresta para o equilíbrio climático global e, mais recentemente, sobre o risco de sua elevada devastação abrir portas para o contato dos seres humanos com vírus desconhecidos, como o Sars-CoV-2, o assunto saltou das revistas científicas para ganhar as páginas da grande imprensa nacional e internacional.

Território cobiçado por sua rica biodiversidade e recursos minerais, a floresta tem protagonizado, ao longo das últimas décadas, projetos “modernizadores” de integração do norte do Brasil ao centro-oeste, sudeste e sul do país. São muitos os exemplos emblemáticos da engenharia humana sobre a mata em nome do desenvolvimento e da soberania nacionais, a despeito das possíveis e nefastas consequências da interação entre populações locais, migrantes e meio ambiente.

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No meio da floresta, os trilhos. Pode o ímpeto moderno ser compatível com os diversos sistemas ambientais? Fonte: Antoine Beauvillain, Unplash

Um dos muitos exemplos, talvez o mais emblemático, é o da Transamazônica, obra faraônica do regime militar. Inaugurada em 1972, a rodovia é considerada o estopim do desmatamento e da derrubada da floresta no século XX. Com mais de quatro mil quilômetros de extensão, até hoje tem trechos inacabados ou intransitáveis nos períodos de chuva.

Outro símbolo da derrocada da engenharia perante a exuberante floresta tropical é a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, construída de 1907 a 1912. Vencida pela malária, o obra ceifou a vida de um operário a cada dormente assentado, conforme se propagou na época. Ao longo dos anos, a ferrovia foi sucateada até sua final desativação, em 1972. 

Caso mais recente de projetos ambiciosos do estado brasileiro na Amazônia é a Ferrogrão, como vulgarmente é chamada a ferrovia com 933 quilômetros de extensão que deverá ligar o município de Sinop, no Mato Grosso, a Itaituba, no Pará. Organizações da Rede Xingu+ [1] e procuradores do Ministério Público Federal em Mato Grosso e Pará encaminharam representação ao Tribunal de Contas da União (TCU) solicitando a suspensão do processo de concessão da obra à iniciativa privada, com início previsto para 2021. Empresas multinacionais de grãos como Cargil, Bunge e um fundo de investimento norte-americano têm interesse no projeto, cujo custo maior deverá ser arcado pelo Brasil.

A ferrovia é parte do projeto “Arco Norte – Um desafio logístico”, que prevê a instalação ou revitalização de ferrovias, rodovias, hidrovias e portos (de Porto Velho, Rondônia, passando pelos estados do Amazonas, Amapá e Pará, até o sistema portuário de São Luís, no Maranhão), para escoar a produção de grãos do centro-oeste para o mundo, cruzando a floresta amazônica. O alto custo atual com o transporte rodoviário para levar os grãos das fazendas do centro-oeste para os portos no sul e sudeste justificam, segundo o relatório do projeto, as obras de infraestrutura previstas.

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Cemitério em plena floresta amazônica. Acervo da Casa de Oswaldo Cruz

“Há muito existem evidências de que alterações ambientais e distúrbios ecológicos, sejam eles de causa natural, sejam de causa antropogênica, exercem uma influência marcante na emergência e proliferação de certas doenças”, afirmam pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

No estudo, intitulado “Impacto do desmatamento sobre a incidência de doenças na Amazônia”, foram relacionados dados do desmatamento e estatísticas de doenças em 773 municípios da Amazônia Legal, entre 2004 e 2012. Constatou-se que para cada 1% de floresta derrubada por ano há um acréscimo de 23% nos casos de malária. A incidência de leishmaniose também cresceu com o avanço do desmatamento, com um aumento entre 8% e 9% de casos.

O que mostra a história da saúde no início do século XX

Em 1910, a profilaxia da malária para a expansão ferroviária na Amazônia levou à contratação de Oswaldo Cruz (1872-1917), em 1909, pela empresa Madeira–Mamoré Railway Company, do empresário norte-americano Percival Farquhar.

Alvo de críticas pela tentativa de realização da obra, Farquhar decidiu contratar o médico com o propósito de neutralizar a resistência de que era objeto a construção da ferrovia de 356 quilômetros de extensão. Cruz não era apenas diretor do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), mas também um médico respeitado pela comunidade científica nacional e internacional, principalmente depois da bem-sucedida campanha contra a febre amarela na capital federal.

Inaugurada em 1912, a ferrovia ligava Porto Velho a Guajará-Mirim, cortando a floresta amazônica no estado de Rondônia. Após cinco anos de obras, foram tantas as mortes por malária, beribéri e outras doenças tropicais durante sua construção, que a obra acabou não justificando o investimento, visto que a borracha brasileira já perdia mercado para os seringais da Ásia.

Segundo os pesquisadores Jaime Benchimol e André Felipe Cândido da Silva, “os seringais de Ceilão, Malásia, Sumatra, Java e Bornéus, organizados de maneira mais produtiva e racional pelos ingleses e holandeses, logo alcançaram o patamar brasileiro de produção. A ferrovia foi inaugurada no último ano em que a exportação brasileira de borracha superou a do Oriente. No mesmo ano, a Madeira Mamoré Railway apresentou ao governo os custos finais da construção da ferrovia, em dinheiro e vidas. Dos 21.817 trabalhadores contratados, estima-se o total de mortos em 6.208 pessoas.

Com o insucesso, a ferrovia acabou desativada pelo governo militar, em 1972, e hoje é patrimônio tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). As fotos sobre as obras de construção da ferrovia estão sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz e digitalizadas.

Após essa viagem de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas (1878-1934) liderou, entre outubro de 1912 e abril de 1913, outra expedição do IOC. Dessa vez, os cientistas avaliaram, a pedido da Superintendência da Defesa da Borracha, as condições sanitárias dos principais centros de produção daquela matéria-prima.

Conforme estudo de Nísia Trindade Lima e Júlio César Schweickardt, naquele período, as ações profiláticas, isto é, de prevenção de doenças, corriam em paralelo às relacionadas à atividade exportadora, base da economia do país: construção de ferrovias; saneamento de portos; estudos voltados ao desenvolvimento da extração da borracha na Amazônia. O projeto de expansão ferroviária, principalmente em função dos seringais, foi acompanhado por intenso trabalho científico para o estudo das formas de transmissão de importantes doenças e da presença e comportamento de seus vetores.

Oswaldo Cruz publicou dois relatórios científicos sobre as expedições do IOC de 1910 e 1913. Em “Considerações gerais sobre as condições sanitárias do Rio Madeira”, descreve o quadro de doenças e as condições de abandono dos operários recrutados para a construção da Madeira-Mamoré, entre norte-americanos, bolivianos e cearenses, estes últimos expulsos pela seca e atraídos pela extração da borracha.

No segundo, “Condições Médico-Sanitárias do Vale do Amazonas”, revela a preocupação dos cientistas com a malária, em razão do alto índice da doença na região e de suas consequências para a vida social e econômica das pessoas. “As dificuldades apontadas pelo relatório em combater a malária não são em nada desprezíveis para a época, assim como para a atualidade, pelo alto investimento em infraestrutura e recursos humanos”, descrevem os pesquisadores, que analisaram detalhadamente os relatórios científicos.

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Construção da ferrovia Madeira-Mamoré em 1910, quando Oswaldo Cruz esteve lá para elaborar o plano de combate às principais doenças que grassavam na região, principalmente a malária. Acervo Casa de Oswaldo Cruz.

Em ambas as expedições, os cientistas observaram casos clínicos de doenças comuns ou completamente desconhecidas, anotaram práticas medicinais e modos de habitar das populações daquelas regiões. Também coletaram insetos suspeitos de transmitir doenças e recolheram plantas de valor medicinal, entre outras ações de investigação científica, com o objetivo de propor medidas de saneamento da região amazônica.  

As viagens de Cruz (1910) e Chagas (1912-1913) iniciaram um movimento de denúncia sobre as graves condições sanitárias dos trabalhadores nos seringais, e o desafio de conhecer e controlar a malária. A análise dos relatórios médicos em missão de apoio à construção das ferrovias indica que esses constituem fonte imprescindível para o estudo dos “bastidores” dos projetos: as condições de trabalho, a disciplina imposta, a relação com as medidas de profilaxia, as possibilidades de arregimentação dos trabalhadores, as contraposições entre educação sanitária e medidas compulsórias.

Como um dos resultados, as coleções científicas do IOC foram enriquecidas com exemplares de mosquitos, barbeiros e moluscos, fundamentais para as linhas de pesquisa que então se desenvolviam. Com as expedições, os cientistas tiveram a oportunidade de estudar patologias pouco ou nada conhecidas e de recolher materiais biológicos que dariam grande amplitude à medicina tropical no Brasil, assinalam Benchimol e Silva.

A partir de documentos das expedições do IOC no período, pesquisadores da COC produziram os documentários Chagas na Amazônia (1991), Chagas nos rios Negro e Branco (1994), Chagas no Acre e Purus (1997) e Oswaldo Cruz na Amazônia (2002), refazendo as mencionadas viagens e reexaminando questões relativas às condições sanitárias da região amazônica.

Notas

[1] Constituem a Rede Xingu+ o Instituto Socioambiental, Instituto Kabu, Instituto Raoni, Associação Iakiô e Associação do Território Indígena do Xingu (ATIX).

Referências Bibliográficas

BENCHIMOL, Jaime Larry; SILVA, André Felipe Cândido da. Ferrovias, doenças e medicina tropical no Brasil da Primeira República. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro ,  v. 15, n. 3, p. 719-762,  Sept.  2008 . 

FERREIRA, Manoel Rodrigues. A Ferrovia do Diabo. São Paulo: Melhoramentos. 2005.

LIMA, Nísia Trindade; BOTELHO, André. Malária como doença e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mário de Andrade à Amazônia. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  Rio de Janeiro ,  v. 20, n. 3, p. 745-763,  Sept.  2013 . 

SCHWEICKARDT, Júlio César; LIMA, Nísia Trindade. Os cientistas brasileiros visitam a Amazônia: as viagens científicas de Oswaldo Cruz e Carlos Chagas (1910-1913). Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro ,  v. 14, supl. p. 15-50,  Dec.2007 . 

Cristiane d’Avila é jornalista, doutora em Letras pela PUC-Rio, Tecnologista em Saúde Pública da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), onde atua no Departamento de Arquivo e Documentação. Mestre em Comunicação Social e Especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio. É organizadora do livro “Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias”, publicado pela Funarte em 2013, e autora do livro “João do Rio a caminho da Atlântida”, publicado em 2015 com apoio da Faperj. Colabora mensalmente com o Café História com textos sobre História das Ciências e da Saúde.

Como citar este artigo

D’AVILA, Cristiane Modernização arriscada: doenças, epidemias e ciência em meio ao avanço do homem sobre a floresta (Artigo). In: Café História. Publicado em 10 nov de 2020. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/modernizacao-arriscada-doencas-florestas-ferrovias/. ISSN: 2674-59.


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