“Homem com H”: o estrondoso filme de Esmir Filho que saúda a todos os homossexuais do mundo

Cinebiografia de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, Ney Matogrosso, “Homem com H” traduz a experiência de muitos homossexuais ao redor do mundo: a escolha de se vingar a partir da vitória, do triunfo de suas vontades e maneiras de ser e estar em sociedade.
9 de maio de 2025
Homem com H - cena da autobiografia de Ney Matogrosso
"Homem com H" está nos cinemas. Foto: reprodução.

A cinebiografia “Homem com H” acompanha Ney Matogrosso como um sobrevivente das circunstâncias. Em um primeiro momento, da relação violenta imposta por seu pai militar (interpretado pelo grande ator Rômulo Braga), preconceituoso e abusivo na retórica e na força física. Entendendo que não há meios para contornar a situação de homofobia diária, Ney abandona a casa dos pais e parte para o Rio de Janeiro, onde serve às Forças Armadas, no período que antecede a ditadura militar. Depois, vemos um Ney que desvia da homofobia da imprensa, de parte da sociedade e dos censores da ditadura, mas sem perder de vista a sua originalidade e irreverência.

Após romper com os Secos & Molhados (um grupo brilhante que durou entre 1973 e 1974), Ney lança, em 1975, Homem de Neanderthal, seu movimento de libertação e reivindicação de espaço próprio na arte musical. Sozinho, ele continua a conquistar uma audiência progressivamente alucinada e seduzida por sua persona transgressora, andrógina e incomparável. Carregando uma voz de agudo potente, Ney constrói uma carreira autêntica.

Há muitas coisas que chamam a atenção neste filme, mas gostaria de ressaltar a representação da mãe. A excelente Hermila Guedes dá vida a uma mulher sempre dócil e em uma postura de conciliação e de intermediária das tensões familiares. Enquanto Braga é essa figura de um descontrolado por razões sexuais, Guedes é o consolo e o auxílio em momentos intempestivos. E, ainda assim, o diretor enquadra uma caminhada familiar de transformação.

Quando Ney está no seu auge, cantando e dançando nos anos 1970, reconhecido como artista único e imparável, seu pai entra em catarse. É o momento de uma ponte que se cria entre eles, mostrando a viabilidade do amor e do perdão em uma cena lindamente montada entre um diálogo e uma performance de O mundo é um moinho.

“Homem com H”: retrato do Brasil

O filme também é um retrato do Brasil daquela época. Ele mostra a contracultura, o desbunde, o uso de drogas e o sexo desregrado, não somente como forma de busca identitária, mas como meio de contestação da política vigente no período. Ainda que a ditadura produzisse mecanismos de vigilância e repressão, Ney Matogrosso não se deixou abater, driblou os censores e manteve um caráter artístico irretocável em um período em que a liberalização e emancipação dos corpos, dos gêneros e das expressões sexuais eram perigosas – o que assustadoramente não parece tão distante da nossa realidade atual.

Entre os anos 1980 e 1990, a AIDS tornou a vida dos homossexuais ainda mais difícil. Nesse ponto, o filme decai um pouco o seu ritmo, mas, pouco depois, encerra a sua história de maneira apoteótica, interligando o Ney do passado com o do futuro na beira de um rio e no palco de um estádio lotado.

Jesuíta Barbosa, o ator escolhido para ser Ney Matogrosso, impressiona por sua caracterização e seu trabalho de fisicalidade. Assim como Ney, que vibra e encanta com seu jeito de olhar e de mexer os quadris, Jesuíta hipnotiza e convence. Este é um filme de força sentimental aguda, genuína e orgânica, que faz a audiência perceber o relevo e a complexidade de seu personagem principal.

Delicado, o filme dosa as questões sensíveis pelo teor cômico – o que é muito difícil de realizar. É um drama clássico: comove, faz chorar, provoca reflexões, evoca memórias, assim como também proporciona gargalhadas. Talvez sua maior qualidade seja a estruturação tão bem executada, que, ao entregar uma história de vida repleta de tristezas, a torna palatável.

O Ney de Jesuíta é como um cometa, ilumina tudo e transborda a tela – principalmente quando rompe com a fantasia e olha diretamente para o público. É um convite à sociedade brasileira para conhecer a trajetória de um dos maiores patrimônios vivos da música nacional, mas, além disso, para conscientizar e debater publicamente as questões homossexuais. Uma obra que enuncia uma estética homossexual própria, uma dimensão da afirmação identitária e uma forma de letrar os outros sobre a presença homossexual no mundo.

A classificação indicativa é de 16 anos, mas é preciso dizer: este não é um filme para pudicos, conservadores e moralistas. A nudez e o sexo fazem parte constante da exibição – o que também me faz pensar sobre a escolha política do diretor-roteirista em destacar o sexo homossexual e a nudez masculina, arquitetando resistências aos retrocessos do presente. Uma ode aos homossexuais, para lembrá-los de que também movimentam a História e possuem o direito à liberdade, à felicidade e ao amor.


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Mateus Henrique Siqueira Gonçalves

Mateus Henrique Siqueira Gonçalves

Graduado (licenciado e bacharel) pela Universidade de Brasília (UnB). Na mesma instituição, obteve o título de mestre e é doutorando em História (PPGHIS-UnB). Tem experiência na área de História Social, com ênfase em História LGBTI+, atuando principalmente no tema da história da homossexualidade masculina na Europa contemporânea. Membro Grupo de Pesquisa do CNPQ "1914 - Núcleo de Estudos sobre Primeira Guerra Mundial", com sede na Universidade de Brasília.

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