Quando o Oscar de Melhor Canção Original foi dado à enérgica música “Naatu Naatu”, do filme RRR, muitas pessoas – inclusive eu, do alto de minha ignorância – disseram que finalmente Bollywood estava invadindo Hollywood. Falado no idioma telugo, mas dublado em hindi pela Netflix, RRR foi feito no sul da Índia – portanto, pertence à Tollywood, não Bollywood. Mas esta não foi a primeira vez em que o país se adentrou na cultura mundial.
Você sabia que a intérprete de Scarlett O’Hara, do famoso filme “E o Vento Levou…” de 1939, é indiana? Vivien Leigh, muitas vezes erroneamente descrita como inglesa, nasceu na Índia em 1913, mesmo país de origem da atriz Merle Oberon, protagonista da versão de 1939 de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Mas se queremos representatividade de verdade, com alguém não de origem inglesa que por acaso nasceu na Índia, basta olharmos para um ator conhecido simplesmente como Sabu, que participou de diversos filmes de sucesso nos anos 1940. E há ainda os muitos atores de ascendência indiana que nasceram na Inglaterra, como no caso sobre o qual hoje nos debruçaremos.
Mais recentemente, marcando presença na televisão e, sobretudo, nos cinemas, temos o jovem e promissor Dev Patel. Há pouco mais de quinze anos, ele despontou para o mundo como protagonista do ganhador do Oscar de Melhor Filme “Quem Quer Ser um Milionário?”. Agora, Patel se arrisca em mais funções, estrelando, dirigindo, escrevendo e produzindo “Fúria Primitiva”.

Esta é uma história já contada milhares de vezes, de um homem em busca de vingança. É a história de um homem (Dev Patel) que mente e confabula para conseguir o que quer: um emprego numa espécie de boate. Dizendo se chamar Bobby, uma vez lá dentro, ele divide seus afazeres entre limpar a cozinha e servir bebidas e drogas para os ultrarricos que frequentam o local. Seu alvo é o delegado Rana Singh (Sikandar Kher). E, quando não está planejando e executando a vingança, luta num ringue vestindo uma máscara de macaco – ali ele sabe que nunca poderá ganhar, mas será seu plano bem-sucedido?
Algo que também não é novo é como o passado se revela: aos poucos, como lembranças terríveis que voltam paulatinamente à memória do protagonista. É a morte da mãe nas mãos de Rana Singh que ele quer vingar.
As inspirações da vida real
As cenas de ação são muito bem orquestradas e carregadas de adrenalina. Aqui podemos citar a briga no banheiro e a perseguição pelas ruas. O filme poderia ser só perseguição e vingança e já agradaria a muita gente, mas eis que surge uma subtrama ao redor do líder místico Baba Shakti (Makrand Deshpande), que na eleição que se aproxima apoia o líder do Partido Soberano e incita seus seguidores a votarem nele, apesar dos ataques do candidato contra as minorias. Isso vem da vida real: discursos de ódio contra as minorias cresceram 74% só no último ano no país, mostrando que essa é uma epidemia mundial – que, contudo, não seria mostrada num filme feito na Índia, devido à censura vigente.
O filme se inicia com uma mãe contando para seu filho a lenda de Hanuman, um deus-macaco personagem central do épico hindu Ramayana. Como inspiração para “Fúria Primitiva”, além da lenda que lhe foi apresentada na infância, Patel buscou beber de fontes como filmes de Bruce Lee, filmes coreanos e de Bollywood.
É novidade ver a Índia como um país cosmopolita cheio de arranha-céus, como qualquer outra nação dos BRICS. Essa paisagem contrasta com o contato com a natureza, que o protagonista teve junto à mãe na infância, e o templo da segunda metade do filme. A cidade é noturna, o templo é diurno. Na cidade é cada um por si, no templo há um senso de comunidade, com todos se apoiando, e novamente minorias que não apareceriam num filme made in India.
Talvez você já tenha ouvido que, nos filmes de Hollywood, é aplicado um filtro amarelado às cenas que se passam no que se costumava chamar de “países de terceiro mundo”. Neste filme, predomina o vermelho, e não apenas no sangue que é derramado e esguichado. Curiosamente, a película foi filmada na Indonésia, não na Índia, onde havia sido planejada a filmagem para 2020, plano descartado com a pandemia. Muitas foram as dificuldades devido ao orçamento apertado, mas não se refletiram no produto final.
No final das contas, “Fúria Primitiva” é um banho de sangue. É uma catarse contra quem se desvia das punições que merece por altos cargos e influências. É um filme que não ensina nada, ou melhor, quase nada: serve de prova que Dev Patel ainda terá muito sucesso, tanto em frente quanto atrás das câmeras.