Saiba quem foram os concorrentes brasileiros para concorrer ao Oscar e onde assisti-los

A Academia Brasileira de Cinema escolheu dia 15 de setembro "O Agente Secreto", filme de Kleber Mendonça Filho, como o representante do país na corrida pela vaga na premiação do Oscar 2026. Porém quem eram os outros concorrentes e onde podemos assisti-los?
24 de setembro de 2025
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Wagner Moura é o protagonista em "O Agente Secreto". Foto: divulgação.

No dia 15 de setembro, a Academia Brasileira de Cinema anunciou a escolha de “O Agente Secreto”, novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, como o representante oficial do Brasil na corrida por uma vaga no Oscar 2026, na categoria de Melhor Filme Internacional. A decisão, como ocorre todos os anos, despertou curiosidade e debates no meio cinematográfico, já que a seleção envolve produções de grande relevância lançadas recentemente no país. Mas afinal, quem eram os outros concorrentes nessa disputa e, mais importante, onde o público pode assistir a esses filmes para conhecer a diversidade da produção nacional que esteve em jogo?

O Agente Secreto (2025/ Kleber Mendonça Filho) — O Escolhido pela Academia: Paranoia, memória e responsabilidade sob a ditadura

O filme que representará o Brasil no Oscar já está definido, e é também o mais grandioso entre os concorrentes. O Agente Secreto se ergue como uma obra de vulto na safra atual de filmes brasileiros: nem tudo está ali por acaso. Dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho, o longa se passa durante a ditadura militar, em 1977, no Recife. Marcelo (Wagner Moura), professor de tecnologia, retorna à cidade para tentar reconstruir laços, mas entra numa teia de espionagem, delação e segredos do passado.

Há amor, há medo, há silêncio que pesa. É um thriller político e uma cartografia emocional de culpa, omissão e resistência. Criação e direção madura e consistente de KMF nos trazem um cinema político de alcance universal. Wagner Moura se destaca com uma atuação intensa e irretocável, se destacando como um dos mais excepcionais artistas nacionais de sua geração.  O filme também conta com um elenco internacional que reforça o peso dramático e que garante uma visibilidade maior à obra. Na estética, temos um rigor visual que mistura realismo, alegoria e uma atmosfera opressiva.

O Agente Secreto, que ainda não estreou nos cinemas brasileiros, vem percorrendo uma jornada eficiente e intensa de divulgação e promoção internacional. A estreia internacional foi premiada no festival de Cannes, assim como Wagner Moura continua se consolidando internacionalmente como ator de prestígio, e isso já coloca o filme como um candidato de peso entre os concorrentes a uma vaga no Oscar. O longa-metragem está previsto para estrear nos cinemas brasileiros em 6 de novembro.

Manas (2024/Marianna Brennand): Quando a idealização encontra a realidade na Ilha do Marajó

Manas chega a nós como um sopro de realidade periférica – tão vibrante quanto dolorosa. Dirigido por Marianna Brennand, o filme se passa na Ilha do Marajó, no Pará, onde Marcielle (Jamilli Correa), uma menina de 13 anos, vive entre o culto idealizado à irmã mais velha que “foi para longe” — símbolo de uma promessa de mudança e liberdade — e a brutalidade do cotidiano real permeado por violência, abuso, pobreza e machismo. Conforme cresce, precocemente, Marcelle rompe com ilusões, confronta as expectativas da família, os silêncios das mulheres da comunidade e o peso de sobreviver num lugar esquecido pelo poder e pelos direitos humanos e das mulheres.

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O roteiro foi escrito de forma coletiva com Brennand junto a Felipe Sholl entre outros autores. O elenco inclui também Dira Paes, que brilha como uma policial que busca fazer o correto, Fátima Macedo e Rômulo Braga. É um filme de forte drama social, com densidade visual e sensorial, que busca traduzir o Pará não como cenário exótico, mas como pulsação de vida, dor e resistência, assim como território, em boa parte, fora do domínio da lei. Manas é uma denúncia que não embeleza nem protege o espectador da dura realidade de mulheres e meninas nos rincões mais remotos do nosso Brasil.

O longa estreou em maio de 2025 em mostras/festivais, com exibições em São Paulo, Rio, entre outros. Para quem, como eu, perdeu a breve chance de vê-lo nos cinemas, ele já consta entre os filmes nacionais disponíveis em plataformas de streaming como Globoplay / Telecine para o público brasileiro.

Baby (2024/Marcelo Caetano): Amor escolhido entre concreto e sombras

Baby se ergue dos becos escuros e vielas sujas de São Paulo como relato urgente de abandono, desejo e busca por conexão. Marcelo Caetano mergulha na vida de Wellington (João Pedro Mariano) e Ronaldo (Ricardo Teodoro), dois jovens de mundos distintos que se encontram num limiar de amor, exploração, proteção e ciúme. O longa aborda temas como a “família que escolhemos”, o afeto marginal e a busca pela identidade. A cidade nos aparece como um personagem hostil, indiferente e cortante – o concreto frio como palco da violência.

 Baby é uma coprodução brasileira com participação internacional, estreou em Cannes 2024 (Semana da Crítica) e depois chegou ao circuito comercial no Brasil em 9 de janeiro de 2025. O filme conquistou prêmios: no Festival do Rio (“Troféu Redentor” de melhor longa-ficção, entre outros) e reconhecimento internacional em festivais LGBTQIA+ e queer. O elenco inclui ainda Bruna Linzmeyer, Ana Flávia Cavalcanti, entre outros.

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O que mais nos impressiona em Baby é sua capacidade de emocionar sem recorrer à pieguice. O afeto se constrói nas rachaduras da realidade: nas noites frias, nas ruas vazias, no desejo e no medo. A direção de Caetano acerta em não suavizar os conflitos — eles ferem, deixam marcas e nos são desnudados em toda a sua crueldade. Mas, mesmo tempo, há delicadeza no trato da luz, no som ambiente, em olhares e no silêncio. É cinema que busca no espectador empatia, compaixão e tolerância. Pode não agradar quem busca narrativa linear ou conforto, mas para quem quer sentir o cinema vivo, Baby entrega, emociona, indigna e encanta. Um dos meus absolutos favoritos pessoais dessa temporada.

O filme estreou na televisão via Canal Brasil e entrou no circuito de streaming em plataformas que trabalham com filmes autorais nacionais, como o Telecine.

Kasa Branca (2024/Luciano Vidigal): Periferia, Alzheimer e peso social

Kasa Branca lança seu olhar sobre a vida de Dé (Big Jaum), adolescente negro da periferia carioca, lidando com a proximidade da morte de sua amada avó Almerinda (Teca Pereira), acometida de Alzheimer, que vive seus últimos dias aos cuidados do neto. Dé, com seus amigos, tenta devolver à avó gargalhadas, dignidade, cor e afeto — mesmo quando a realidade se mostra de seu lado socialmente mais indiferente. A amizade, a perda, a memória fragmentada, tudo isso se mescla num filme que recusa melodrama barato, mas permite que o coração se abra para lágrimas e sorrisos. Dirigido por Luciano Vidigal, o elenco inclui ainda nomes como Babu Santana e Roberta Rodrigues.

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Kasa Branca nos emociona por sua simplicidade e honestidade. O filme não tenta impressionar pelo espetáculo, mas pelo cuidado – como tratar a velhice e como tratar uma memória que se desfaz ou como manter o afeto quando tudo conspira contra. Há momentos de silêncio doloroso, de rir e chorar quase ao mesmo tempo. Uma narrativa intimista, potente, que cresce em sutilezas: o mar, a periferia, o calor, o cheiro da casa da avó, tudo isso importa tanto quanto as falas dos personagens. Embora a adaptação internacional possa exigir ajustes para quem não conhece o Brasil, Kasa Branca traz uma verdade universal presente em diferentes realidades.

Kasa Branca estreou no Festival do Rio em outubro de 2024 e entrou nos cinemas brasileiros em 30 de janeiro de 2025. Hoje, o longa marca presença em plataformas de streaming como Globoplay / Telecine.

O Último Azul (2025/Gabriel Mascaro): Distopia, memória e o sonho de voar

Em O Último Azul, Gabriel Mascaro propõe uma fábula estranha e bela – num futuro próximo, idosos são convocados pelo Estado a abandonar suas casas, seus vínculos, para viver em “colônias habitacionais remotas”. Tereza (Denise Weinberg), de 77 anos, não aceita o exílio passivo e parte então numa jornada pelos rios da Amazônia atrás de um antigo sonho — voar. Pelo caminho, encontra Cadu (Rodrigo Santoro), um marinheiro misterioso, e a magia do “Baba Azul”, um caracol fantástico que permite vislumbrar o futuro quando seu brilho reflete nos olhos. O longa mistura realismo social, ambientalismo, fantasia, memória e desejo.

 O Último Azul é daqueles filmes que ficam na memória devido às imagens e ao silêncio entre os sons. É quase como uma pintura viajante: rios, céu, silêncio, canto de pássaros, água, sonho. E o contraste cruel entre o que o Estado chama de “velhice digna” e o abandono real. A fantasia do caracol dá ao filme uma dimensão mística — que amplia, não diminui, a gravidade das escolhas humanas. Por outro lado, para quem prefere narrativa clara e ação perceptível, pode parecer lento e abstrato demais. Mas essa lentidão é proposital ao representar a memória que resiste.

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Gabriel Mascaro assina a direção com coautoria de roteiro de Murilo Hauser e Tibério Azul. No Brasil, a obra estreou em 28 de agosto de 2025 e ainda se encontra nos cinemas.

Oeste Outra Vez (2024/ Érico Rassi): Sertão, silêncio e confronto interior

Pela mão de Érico Rassi, Oeste Outra Vez nos leva a um mergulho no solo ressecado do sertão de Goiás, onde homens lutam com suas frustrações, expectativas e medos. Frágeis diante de suas próprias emoções e com o orgulho ferido, esses corpos que permaneceram esperando — mulheres, redenção — se veem obrigados a olhar para dentro, para o vazio, para o eco do silêncio que ronda as suas noites.  Acompanhamos Totó (Ângelo Antônio) em sua jornada de vingança contra Durval (Babu Santana), o homem que acusa ter “roubado” sua mulher. Nessa espécie de western brasileiro, o sertão vira metáfora e personagem: latido de cão, vento seco, corpo cansado, abandono afetivo. Percorremos a geografia árida da masculinidade frágil.

Essa obra tem a coragem de ficar com o incômodo da masculinidade em crise, do isolamento como forma de tragédia silenciosa. A estética do sertão — brutal, bela, implacável — serve de espelho para os conflitos íntimos dos personagens. A força de Oeste Outra Vez está no que não se fala tanto: lacunas, omissões, humilhações internas. Mas alerto que esse tipo de cinema exige paciência; quem busca entretenimento direto ou narrativa emocionante pode ficar à margem. Os diálogos são breves e curtos, as cenas contemplativas e os sentimentos suprimidos.

O filme chegou aos cinemas brasileiros em 27 de março de 2025 e, no momento, se encontra no catálogo dos streamings Globoplay/ Telecine.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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