Especialistas comentam a celebração do golpe de 1964

Na data em que o golpe civil-militar de 1964 completa 57 anos, o Café História conversa com seis especialistas no passado autoritário brasileiro. Escute o que eles disseram.

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Como tem sido comum na gestão do presidente Jair Bolsonaro, o dia 31 de março é marcado por discursos e atos que celebram o golpe civil-militar de 1964, especialmente por parte do presidente e de setores militares que integram o governo federal. Este ano, apesar da grande crise sanitária vivida pelo país e das diversas recomendações do Ministério Público Federal para que comandos militares se abstenham de comemorações ao golpe, a agenda de atividades celebrativas de 1964 continua, aparentemente, inalterada.  

Em nota publicada nesta terça-feira, 30 de março, em site oficial do governo federal, o novo ministro da Defesa, General Walter Braga Netto, afirmou que “o movimento de 1964 é parte da trajetória histórica do Brasil. Assim devem ser compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março”. O ministro também justificou o golpe civil-militar de 1964 evocando a retórica da ordem: “as Forças Armadas acabaram assumindo a responsabilidade de pacificar o País, enfrentando os desgastes para reorganizá-lo e garantir as liberdades democráticas que hoje desfrutamos”.

No Congresso Nacional, parlamentares da oposição manifestaram-se contra a declaração. A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) anunciou em sua conta no Twitter que a bancada de seu partido apresentou requerimento para convocar o novo ministro da defesa à Comissão de Direitos Humanas. Já o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), também em sua conta no Twitter, classificou a nota de Braga Netto de “criminosa”.

A fim de entender esses atos comemorativos do golpe de estado, o Café História conversou com seis especialistas em História do Brasil. Respeitando suas respectivas áreas de pesquisa, fizemos uma pergunta a cada um(a). As respostas você confere abaixo, na íntegra, em seis faixas de áudio exclusivas.

Perguntamos ao historiador Carlos Fico, professor titular de História do Brasil da UFRJ, por que setores das forças armadas ainda comemoram o golpe de 1964. Esse tipo de ato celebrativo lhes traz algum capital político? Fico explicou que a celebração nunca deixou de acontecer nos quertéis. Para ele, o ato celebrativo é político e ideológico, além de ser geracional, podendo ser visto como um reflexo de nosso processo de redemocratização.

Ao historiador Marcos Napolitano, professor da Universidade de São Paulo e autor de “1964 – História do Regime Militar” (Contexto, 2013), perguntamos o que ele acha sobre a possibilidade de se proibir a comemoração do Golpe de 1964 por governos e instituições ligadas ao Estado. Para ele, essas comemorações deveriam ser proibidas.

Janaína Cordeiro, professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense e autora do livro “A ditadura em tempos de milagre: comemorações, orgulho e consentimento”, respondeu à pergunta: “em que medida as celebrações dos grupos militares durante a Ditadura diferem das celebrações na Nova República? Ela explicou que durante a ditadura, diferente do que acontece hoje, as celebrações do golpe foram sempre muito discretas.

Ao historiador Jorge Ferreira, professor aposentado do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, autor de mais de uma dezena de livros sobre a história republicana brasileira, dentre os quais a biografia “João Goulart” (Civilização Brasileira, 2011), perguntamos por que o golpe de 1964 costuma ser tão lembrado e celebrado, enquanto que o golpe de 1937 não tem a mesma visibilidade e uso.

À historiadora Caroline Bauer, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e uma das coordenadoras do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA/UFRGS), perguntamos o que são “usos políticos do passado” e o que isso tem a ver com a celebração do golpe de 1964.

Por fim, à Maria Celeste Simões Marques, docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas em Direitos Humanos (PPDH/NEPP-DH/CFCH/UFRJ), pedimos que ela explicasse as implicações da celebração do golpe de 1964, que deu origem a uma violenta ditadura militar, para o campo dos Direitos Humanos no Brasil. Ela enfatiza uma palavra que também apareceu na fala de Jorge Ferreira: descomemoração.

Imagens usadas nos áudios de Jorge Ferreira, Caroline Bauer e Marcos Napolitano: História da Ditadura (YouTube).

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

7 Comments

  1. Essa ideia de querer proibir a comemoração de um fato histórico é querer ignorar a própria história. Comemoração ou crítica cada se manifesta como melhor entender, só não podemos enterrar a história.

  2. De acordo com a constituição Federal de 1988 não se comemora golpe de estado, o erro no Brasil foi da comissão da verdade não punir os torturadores da época diferente de outros países da América Latina

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