Leonardo da Vinci: a livraria que existe e resiste

Em entrevista exclusiva ao Café História, Daniel Louzada falou sobre o ofício de livreiro e o desafio de gerenciar uma das mais importantes e icônicas livrarias independentes do Brasil.

Bruno Leal entrevista Daniel Louzada

Uma grande comoção tomou conta dos círculos intelectuais e culturais do Rio de Janeiro quando, em maio de 2015, Milena Duchiade anunciou que a livraria Leonardo da Vinci encerraria as suas atividades depois de 63 anos de serviços prestados. Duchiade é filha do romeno Andrei Duchiade e da italiana Vanna Piraccini, casal que fundou em 1952 aquela que pode ser considerada uma das mais tradicionais e importantes livrarias brasileiras. O desfecho trágico da Da Vinci, contudo, não se concretizou. Em 2016, a icônica livraria carioca, a preferida de Carlos Drummond de Andrade e frequentada por tantos intelectuais, escritores e professores, além de um público leitor cativo, foi vendida para o empresário e livreiro Daniel Louzada.

Daniel Louzada (de preto) e o filósofo italiano Antonio Negri, autor da livro. “Império”. Foto: Daniel Louzada.

Depois de 17 anos na Saraiva, onde foi gerente comercial da rede, Louzada comprou, sozinho, 100% das cotas da livraria, localizada no subsolo do Edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, Centro do Rio de Janeiro. Nos últimos três anos, ele vem implementando uma série de medidas que visam modernizar a gestão comercial Leonardo da Vinci, mas sem perder o legado humanista da livraria, especialmente no campo das artes e das ciências humanas. O esforço tem rendido bons frutos. Além de promover uma ampla reformulação do espaço físico da loja deixando-a mais convidativa para a clientela, a livraria hoje é mais do que nunca ponto de encontro de intelectuais, escritores, editores, pesquisadores e artistas, que oferecem palestras, debates, cursos e lançamentos de livros, quase tudo acessível ao grande público.

Sabendo da importância da Leonardo da Vinci e de tantas outras livrarias independentes para a saúde da cultura e das letras no país, o Café História entrevistou Daniel Louzada, o livreiro por trás da Da Vinci. Louzada falou sobre a livraria como um negócio, sobre o papel dos livros de história e humanidades nas estantes da Da Vinci, sobre o papel social das livrarias e sobre o ofício de livreiro. Se você, assim como nós do Café História, também é apaixonado por livros, não deixe de conferir esse papo.

Bruno Leal: Daniel, você é dono daquela que talvez seja a mais tradicional livraria do Rio de Janeiro, quiçá do Brasil. A Leonardo da Vinci marcou diversas gerações de leitores. Nos últimos anos, no entanto, as chamadas “novas mídias digitais” mudaram o mundo que conhecíamos. Toda a cadeia do mercado editorial foi bastante sacudida pelo computador, pela internet, pela Amazon, pelos tablets, pelo e-book, etc. Como liderar uma livraria tão importante quanto tradicional nesses “tempos digitais”?

Para mim, cada dia é uma vitória, ver cada sacola da Da Vinci com um livro levado pelo cliente me alegra demais.

Daniel Louzada: Liderar qualquer livraria hoje é um grande desafio porque, sem dúvida, vivemos um período de transição. Isso diz respeito muito mais a como consumimos o livro e a como se realiza (ou é possível se realizar) esse consumo em lugares físicos ou na internet do que a seus suportes. Os profetas do fim do livro – essa invenção perfeita como a colher, segundo disse Umberto Eco – sumiram todos. Os suportes são complementares e a questão fundamental não estava aí. Temos, então, um cenário que tem a ver com a viabilidade financeira de pontos de venda físicos em cidades em que o custo de ocupação é cada vez mais alto e também com a característica do negócio possível: pequeno, em escala humana, que possibilite experiências pessoais e seja, ao mesmo tempo, conveniente. O preço não é determinante para isso. Ora, não há nada de novo. É um nicho ampliado, claro. Contrafluxo, efeito do cansaço digital, é a retomada da rua e da sociabilidade que possibilitarão a permanência e o surgimento de novas livrarias.

A Da Vinci tem também, há alguns anos, seus desafios particulares. O primeiro deles foi alterar o foco em livros importados, uma operação que economicamente não fazia mais sentido. Nessa reinvenção você perde clientes, mas ganha outros. É preciso também compensar o que não é recuperável em outras frentes. Para mim, uma delas foi construir uma extensa agenda de eventos, debates, cursos, palestras; fiz mais de 200, cheguei a fazer 28 em um mês. Considero um feito para uma livraria pequena, que recebe poucos eventos das editoras espontaneamente. O segundo grande desafio tem relação com o ponto de venda da nossa loja, localizado em um subsolo do centro degradado de uma cidade em crise. Para mim, cada dia é uma vitória, ver cada sacola da Da Vinci com um livro levado pelo cliente me alegra demais.

Bruno Leal: Que lugar ocupam, hoje, no mercado editorial, os livros acadêmicos, sobretudo aqueles de história e ciências humanas de uma forma geral?

Daniel Louzada: Ocupam um espaço importante, sobretudo para livrarias como a Da Vinci, com um acervo com maior profundidade. Essa relevância se dá mais pela influência do que pelas vendas – há poucos livros entre os mais vendidos no segmento, mas há muitos de cauda longa que vendem ano após ano quantidades expressivas. Ao passo que temos a disseminação de conteúdos online e mesmo em livro superficiais ou de qualidade duvidosa, há também a demanda por reflexão, pensamento crítico. Há uma boa oferta de editoras que trabalham não apenas com livros para fins acadêmicos, mas para um público maior. Isso é essencial para fugir do hermetismo e alcançar mais leitores. Profundidade não deve ser sinônimo de ilegibilidade.

Bruno Leal: As livrarias no Brasil tradicionalmente foram importantes espaços de sociabilidade dos intelectuais de diversas gerações e áreas de atuação. Angela de Castro Gomes e Patricia Hansen organizaram o livro “Intelectuais Mediadores” (2016) em que falam do papel de alguns grupos intelectuais na mediação e difusão de ideias. Você se considera um intelectual? E como você vê a relação das livrarias com grupos intelectuais atualmente?

Daniel Louzada: Evidentemente, não sou um intelectual. Sou um vendedor de livros, com bastante orgulho, um leitor pouco acima da média e, eventualmente, um agitador – a propósito, não sei porque, lembro sempre de um conto do André Sant’Anna, O vendedor com vida interior, acho que era esse o título.

Eu acredito no papel público da livraria, a enxergo como espaço de relação e ideias, uma modesta ágora. Pessoalmente, como livreiro e leitor, é isso que faz sentido para mim. Mas claro que entendo o papel do livreiro como promotor disso. Não sou ingênuo para não admitir que uma livraria tem o melhor e o pior do seu livreiro, embora o transcenda, porque é um horizonte mais largo, não sua biblioteca particular.

Interior da Livraria Leonardo da Vinci. Foto: Daniel Louzada.

A centralidade que a livraria teve no passado não se recupera porque uma parte transitou não apenas para outros espaços, mas sobretudo para a internet. O livro perdeu a centralidade que tinha, não temos mais a figura do intelectual público, assim como não temos a do livreiro público, se posso dizer assim. Tudo se diluiu um pouco. Dito isto, acredito no futuro da livraria física como um espaço liderado por livreiros que constroem em baixa escala uma sociabilidade local, e que de certa forma ajudam a organizar ideias, seja com sua seleção de acervo, seja com sua agenda de eventos. Caso contrário, uma livraria física seria o que senão o depósito de objetos que podem ser comprados por menor preço na internet? Nos Estados Unidos, na Europa e em outros lugares, com diferentes legislações em relação a preço, são livrarias com essas características que sobrevivem. De alguma forma, é uma volta, uma parte do mercado que volta ao que o negócio do livro sempre foi, um negócio de baixa escala, familiar ou individual.

Bruno Leal: A pesquisadora Laura J. Miller fez um interessante estudo sobre livrarias independentes. Esse estudo virou livro: Reluctant Capitalists: bookselling and the culture consumption, publicado em 2006 pela University of Chicago Press. Neste estudo, ela se refere a esses livreiros como comerciantes que, como quaisquer outros, buscam lucros. Porém, diferente da maioria, relutam a pensarem em si mesmos como capitalistas. Ela usa o termo “capitalista relutante”. Você concorda com o conceito? Como você concilia cultura com  busca pelo lucro?

Daniel Louzada: Há um livro que foi publicado no Brasil no início dos anos 2000 chamado O negócio do livro, do editor Jason Epstein. Ele descreve a chegada das grandes corporações e de seus CEOs no negócio do livro. O resultado de uma lógica mercantil alheia às características desse pequeno ramo da indústria do entretenimento, se podemos dizer assim, em resumo, foi diminuir a bibliodiversidade, perder relevância no mercado e ter prejuízo. Os maiores perdedores são sempre a sociedade e a competição justa porque os executivos que operam o desastre são premiados com bônus milionários. A fórmula mágica que desconsidera que o livro é um produto de longa duração esbarra na realidade. Sempre surge alguém que diz que tem que se trabalhar com apenas os 1000, 2000 títulos mais vendidos em uma loja onde cabem 30, 50 mil livros. Ora, isso é evidentemente inviável e sempre deu muito errado. É o tipo de tragédia anunciada, que não só faz, para citar um exemplo, você entrar nas mega lojas brasileiras, percorrer centenas de metros de corredores e não ter como leitor uma única surpresa (aí entra a perda de relevância), mas gera prejuízos no curto ou médio prazo porque são justamente esses os títulos mais visados pelas grandes corporações que comercializam livros, como a Amazon, que os vende até abaixo do preço de custo para dominar o mercado. Preço pressionado, se corta estrutura, funcionários, bons livreiros dispensados por conta do salário mais alto, e se tem a fórmula perfeita de um negócio que não consegue competir onde conseguiria: um gato brigando com um tigre.

Dezenas de eventos já foram realizados no interior da livraria desde que Louzada assumiu o negócio. Foto: Daniel Louzada.

Livraria é um negócio, uma empresa com obrigações e expectativa de lucro, claro. É um empreendimento privado. Não sou capaz de afirmar se há relutância, já que o dono de uma livraria quer ter resultado. O que penso é que livraria é um negócio com características particulares. Quando se quer aplicar a ela regras de outras áreas do varejo de forma impensada, sempre dá errado porque a expectativa de lucro não se confirma. Assim, se você pensa em ser livreiro e rico ao mesmo tempo, você está no negócio errado. Isso é exceção.

Bruno Leal: No segundo turno das eleições deste ano, na disputa entre Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), você e muitos outros livreiros, editores e membros do mercado editorial do Brasil e do exterior, divulgaram um manifesto de apoio ao Haddad, que também marcou um posicionamento “contra a defesa da censura de livros e das restrições à liberdade de pensamento”. Que impacto pode ter o mercado editorial brasileiro com a vitória do candidato adversário?

Daniel Louzada: Não acredito que exista nenhuma medida favorável ao setor. As forças eleitas manifestamente desprezam a cultura e se orgulham do seu antiintelectualismo, hostilizando tudo o que seja diferente de suas ideias. O maior risco que vejo é o aprofundamento do que vem acontecendo nos últimos anos, o ataque sistemático, embora difuso, à liberdade de expressão, sobretudo nas escolas. Esse clima chega à edição, à exposição dos livros nas livrarias, à agenda de eventos dos espaços culturais. Muitos intolerantes saíram do armário e se acham no direito de questionar o que é publicado, veiculado ou vendido. Apesar disso, vejo bastante gente mobilizada e unida para defender a liberdade de expressão. A ficha caiu antes do fim da eleição.


Daniel Louzada – Livreiro e proprietário da livraria Leonardo da Vinci, fundada em 1952, no Rio de Janeiro, pelo casal Andrei Duchiade e Vanna Piraccini. Antes de assumir a Da Vinci, em fevereiro de 2016, Louzada foi Gerente de Produtos da rede de livrarias Saraiva por 17 anos, entre setembro de 1998 e agosto de 2015. A Leonardo da Vinci está localizada na Avenida Rio Branco, 185, Centro do Rio de Janeiro, subsolo (2533-2237), próximo às estações de metrô da Carioca e da Cinelândia.

Bruno Leal Pastor de Carvalho – Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Mestre em Memória Social, Especialista em História Contemporânea, Graduado em História  e Comunicação Social. Foi professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas.  Foi  cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ, entre 2011 e 2018. É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.


Como citar essa entrevista

LOUZADA, Daniel. Leonardo da Vinci: a livraria que existe e resiste (Entrevista). Entrevista concedida a Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/entrevista-com-daniel-louzada/. Publicado em: 21 nov. 2018. Acesso: [informar data].

2 Comentário

  1. PARABÉNS, GENTE!!! EM FRENTE! O BRASIL PRECISA DE VCS!! NOSSA INFÂNCIA E NOSSOS JOVENS PRECISAM DEMAIS DE SEU VALOROSO AMOR PELA LEITURA!! GRANDE ABRAÇO DE ITAJAI/SC!! E VIVA TODAS AS LIBERDADES!! VIVA TODAS AS LIVRARIAS E SEUS CORAJOSOS LIVREIROS, PROPRIETÁRIOS!! SAÚDE E MUITAS ALEGRIAS!!

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