Edith Cavell: a enfermeira britânica que se tornou mártir na Primeira Guerra Mundial

Enfermeira britânica de 49 anos foi executada pelos alemães em Bruxelas em 1915 acusada de traição e espionagem. Sua morte repercutiu no mundo todo e ajudou a denunciar os crimes de guerra da Alemanha.

Por Bruno Leal Pastor de Carvalho

“Miss Edith Cavell, condenada e fuzilada pelos alemães em Bruxelas. Miss Cavell, conforme apuraram as autoridades alemãs, chefiava um bando de conspiradores, cujo fim era facilitar a fuga dos prisioneiros aliados. A condenação de miss Cavell levantou grande celeuma, não só na imprensa inglesa como na dos países aliados da Inglaterra, que negavam fosse Miss Cavell chefe de conspiradores”.

Essa notícia foi publicada na primeira página do jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, no dia 19 de novembro de 1915, sete dias depois da execução de Edith Cavell, uma enfermeira britânica presa e condenada pelas forças alemãs acusada de colaborar com o inimigo durante a Primeira Guerra Mundial. A morte de Cavell não só reverberou no mundo inteiro, como se tornou um dos maiores símbolos das alardeadas “atrocidades alemãs” no conflito. O objetivo deste artigo é explicar quem foi Edith Cavell e como ela se tornou uma mártir de guerra.

A enfermeira 

Edith Cavell (1865-1915) nasceu no dia 4 de dezembro de 1865 na ainda hoje minúscula vila de Swardeston, na região de Norfolk, Inglaterra. Ela era a mais velha dos quatro filhos do reverendo Frederick Cavell (1824–1910) e sua esposa Louisa Sophia Warming (1835–1918). Educada em um internato tradicional para garotas, a Norwich High School for Girls, Cavell começou a trabalhar cedo como governanta para uma família em Bruxelas, na Bélgica, entre 1890 e 1895. Com o pai doente, contudo, ela retornou para casa para assumir tarefas de cuidadora. A experiência foi fundamental para que ela se tornasse enfermeira.

A enfermeira Edith Cavell foi morta aos 49 anos, em 1915. Foto: Wikipédia.
A enfermeira Edith Cavell foi morta aos 49 anos, em 1915. Foto: Wikipédia.

Em 1896, aos 30 anos, Cavell se candidatou a uma vaga de enfermeira no Royal Londres Hospital. Foi o seu primeiro trabalho formal na área da enfermagem. Depois disso, a carreira decolou. Ela passou por grandes hospitais do país, entre eles o São Leonard, em Londres, fundado em 1777, onde ela serviu como matrona assistente entre 1903 e 1906. Trabalhou em enfermarias em Horeditch, Kings Cross e Manchester. Foi também nessa época que ela atuou como enfermeira particular, acompanhando pacientes em viagem. Atendia os doentes em casa, tratando de diversas doenças, como câncer, gota, pneumonia, apendicite e até mesmo doenças oftamológicas. Recebeu prêmios e condecorações no final do século XIX, como a Medalha Maidstone.

Em 1907, Cavell retornou à Bélgica, agora convidada pelo prestigiado médico Dr. Antoine Depage para ser matrona da  L’École Belge d’Infirmières Diplômées, em Bruxelas. Tratava-se do primeiro hospital-escola para enfermeiras naquele país. Uma vez que a enfermagem não era então uma profissão estabelecida na Bélgica, seu trabalho pioneiro a levou a ser considerada a fundadora da educação moderna em enfermagem no país. Em território belga, onde logo se tornou respeitada na área, Cavell lançou ainda uma revista sobre enfermagem e passou a treinar enfermeiras para atuarão em hospitais, escolas e jardins de infância. Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, em julho de 1914, ela visitava sua mãe, agora viúva, em Norfolk. Imediatamente, voltou para a Bélgica, onde a sua clínica e escola de enfermagem foram assumidas pela Cruz Vermelha.

Atuação na Primeira Guerra Mundial

No início de agosto de 1914, a Bélgica foi invadida pelos alemães, que esperavam cruzar esse país sem grandes dificuldades e surpreender as forças francesas na fronteira. A batalha pelo controle do país, contudo, não foi fácil. Os belgas resistiram, não só no momento da invasão, mas também depois da derrota graças ao trabalho da resistência, que fazia diversos atos de sabotagem. Espantados e irritados com a reação belga, os alemães saquearam cidades, incendiaram vilas, violentaram mulheres e mataram dezenas de civis. Ingleses, belgas e franceses denunciaram as “atrocidades alemãs” aos quatro cantos do mundo. As denúncias, como se soube depois, não eram infundadas, mas foram infladas e exploradas ao máximo pelas forças aliadas. Cartazes, postais, matérias na imprensa e discursos públicos procuraram informar o que estava acontecendo em solo belga. Parte dos historiadores tratam do episódio não só como um marco no estudo dos crimes de guerra e dos crimes contra a humanidade, como ainda um divisor de águas na propaganda de guerra. Os aliados (Reuno Unido, França e Rússia) se apegaram com força a essas histórias de crueldade para tentar mobilizar a opinião pública internacional a seu favor.

Com a Bélgica ocupada em 20 de agosto pelos alemães, a escola de enfermagem de Cavell foi transformada em hospital da Cruz Vermelha, entidade filantrópica internacional, neutra e humanitária, encarregada de proteger e cuidar da vida e da dignidade de vítimas de conflitos armados. Cavell trabalhou intensamente, ajudando soldados de ambos os lados, além de civis afetados pelos combates. Em setembro de 1914, Cavell foi convidada a ajudar dois soldados britânicos que estavam presos atrás das linhas alemães após a Batalha de Mons, o primeiro grande combate da Força Expedicionária Britânica na Primeira Guerra Mundial. Ambos foram tratados e transportados da Bélgica ocupada para a Holanda, que mantinha uma posição neutra no conflito. Muitos outros soldados britânicos e homens belgas elegíveis para o serviço militar foram ajudados a realizar fugas deste tipo na época a cruzar a fronteira, o que irritou profundamente as forças alemãs.

Em 5 de agosto de 1915, Edith Cavell, então com 49 anos de idade, foi presa pelos alemães acusada de fazer parte de uma rede internacional. Esta rede, de acordo com os alemães, ajudava de forma ilegal franceses, britânicos e belgas, primeiro abrigando-os no hospital da enfermeira britânica e, depois, levando-os até a fronteira. Cavell foi colocada em confinamento solitário na prisão de St. Gilles, em Bruxelas. Os alemães suspeitavam ainda que enfermeira atuasse como espiã britânica no país, ajudando não só soldados a cruzarem a fronteira, mas também repassando informações sigilosas com esses soldados.

Sua prisão encontrava respaldo na lei militar alemã, mais especificamente no parágrafo 58 do Código Militar Alemão, que estabelecia que “em tempos de guerra, qualquer pessoa que com a intenção de auxiliar um poder hostil ou de causar danos às tropas alemãs ou aliadas” seria punida com a “morte por traição à guerra”. Especificamente, Cavell teria infringido o parágrafo 90: “transportar tropas para o inimigo”, um crime punível com prisão perpétua em tempo de paz, mas visto com mais rigor em tempos de guerra, principalmente quando envolvendo estrangeiros. 

Cavell e outras 34 pessoas foram julgadas no dia 7 de outubro de 1915. Ela foi considerada culpada e sentenciada à morte. As autoridades britânicas e francesas protestaram, tentaram interceder por sua vida, afirmando que ela deveria ser perdoada devido à natureza de seu trabalho. E, no mais, ela nada teria feito a não ser salvado a vida de centenas de pessoas. Os pedidos de clemência, contudo, não surtiram o efeito desejado. Na época, os Estados Unidos ainda não haviam entrado na guerra, tendo acompanhado o caso à distância. Cavell foi baleada por um esquadrão de tiro no Tir National, o campo de tiro de Bruxelas, em 12 de outubro de 1915.

Repercussão

A execução ecoou. A sua morte foi narrada na imprensa, como na notícia do Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em livros, panfletos, cartazes, músicas e até mesmo em selos especiais no Reino Unido. A produção imagética é riquíssima. A maioria contém ilustrações que representam Cavell como uma mulher pura, uma heroína, quase santa ou angelical, cuidadora dos enfermos; por outro lado,os alemães são representados como bárbaros, cruéis, selvagens e injustos. Muitos materiais clamavam para que as pessoas não se esquecessem do crime, acusando os alemães de crimes de guerra e pressionando os aliados por justiça. Na época, muitos famosos também se mobilizaram. O escritor Arthur Conan Doyle escreveu: “Todo mundo deve sentir nojo das ações bárbaras do soldado alemão ao assassinar esse grande e glorioso espécime de feminilidade”.

Cartão-postal retrata a morte de Edith Cavell de forma bastante cruel. Fonte: reprodução da internet.
Cartão-postal retrata a morte de Edith Cavell de forma bastante cruel. Fonte: reprodução da internet.

Até o Kaiser alemão, Guilherme II, sentiu os efeitos da morte de Cavell, sendo apontado pela imprensa como o principal responsável pelos crimes cometidos pela Alemanha na guerra. A partir de 1915, uma campanha passou a ser conhecida internacionalmente: Hang the Kaiser, em português. “enforque o Kaiser”. Era algo um tanto inédito em contextos de guerras, já que até ali, via de regra, eram os oficiais, principalmente generais, que respondiam por violações das leis internacionais de guerra, e não os governantes. A imagem de Cavell estava ainda presente em pôsteres e mensagens de recrutamento da Grã-Bretanha. Cavell se tornara uma mártir e sua história se converteu, ao fim, em um grande símbolo da propagada covardia além, ajudando a Grã-Bretanha a angariar apoio para esforço de guerra e motivar seus soldados no campo de batalha.

Pós-guerra

Quando a guerra terminou, o culto à imagem e à memória de Cavell continuaram. Seu corpo foi exumado na Bélgica e transladado para a Grã-Bretanha. Um serviço memorial foi realizado na Abadia de Westminster, sendo seu corpo entediado novamente, agora, na Catedral de Norwich. O serviço fúnebre que ela recebeu em Londres era só comparável ao de grandes monarcas ou políticos de grande renome que serviram ao país. Milhões de pessoas ocuparam as ruas de Londres para acompanhar o seu funeral. Parte da cerimônia foi filmada, como pode ser visto abaixo.

"Nunca nos esqueceremos". Fascículo associa o Kaiser alemão à morte de Edith Cavell. Foto: reprodução da internet.
“Nunca nos esqueceremos”. Fascículo associa o Kaiser alemão à morte de Edith Cavell. Foto: reprodução da internet.

Vários lugares de memória foram construídos em sua homenagem nos anos seguintes à sua morte. Do lado de fora da Catedral de Norwich há um suntuoso busto seu; o memorial de guerra na Rue Coronel Bourg, em Schaerbeek, na Bélgica, traz o seu nome; tanto na Bélgica quanto na Grã-Bretanha há incontáveis monumentos, o mais famoso de todos, talvez, seja o Edith Cavell Memorial, na St. Martin’s Place, em Londres, bem próxima da famosa Trafalgar Square, onde até hoje pessoas depositam flores e velas durante a noite. Em 1919, foi feito um filme, nos Estados Unidos, contando a sua história, The Cavell Case, e a Igreja da Inglaterra estabeleceu o dia 12 de outubro em sua homenagem, dentro de seu calendário dos santos. Cavell foi destaque em peças de teatro, programa de televisão, sobretudo documentários, e até mesmo em uma moeda comemorativa de £ 5, emitida em 2015 para marcar o centenário de sua morte.

Revelações polêmicas

O governo britânico sempre negou veementemente que Cavell tivesse sido uma espião ou informante durante a guerra. Em 2015, contudo, em meio aos 100 anos da Primeira Guerra Mundial, a imprensa britânica publicou diversas reportagens dizendo que “novas evidências” revelavam justamente o contrário, isto é, que Cavell era realmente uma espiã, membro de uma rede de resistência e que estava enviando informações secretas aos britânicos. Essas matérias tinham como fonte o relato de Dame Stella Rimington, ex-diretora geral do MI5, o serviço britânico de informações de segurança interna e contra-espionagem.

Rimington pesquisou os arquivos militares na Bélgica e encontrou relatos de pessoas que estiveram envolvidas com o caso. Esses relatos provariam que Cavell de fato trabalhou para o governo britânico, sendo a espionagem parte de sua missão clandestina. Os soldados ajudados por Cavell e sua rede levavam, segundo explicou Rimington, informações sensíveis escritas em tiras de tecido e costurados em roupas, às vezes também escondidos em sapatos e botas.

Monumento de Edith Cavell no centro de Londres. Foto: Bruno Leal
Monumento de Edith Cavell no centro de Londres. Foto: Bruno Leal

Em entrevista ao jornal inglês The Telegraph, Rimington disse: “Talvez nunca saibamos o quanto Edith Cavell sabia da espionagem realizada por sua rede. Ela era conhecida por usar mensagens secretas, e sabemos que os principais membros de sua rede estavam em contato com agências de inteligência aliadas”. E completou: “Seu principal objetivo era levar soldados aliados ocultos de volta à Grã-Bretanha, mas, ao contrário da percepção comum dela, descobrimos evidências claras de que sua organização estava envolvida no envio de informações secretas aos aliados”.

Imagem inabalada

Independente da real natureza do trabalho desenvolvido por Cavell durante a Primeira Guerra Mundial, sua memória parece inabalável. Seu nome continua sendo venerado na Grã-Bretanha e na Bélgica, sinônimo de heroismo e bravura. Essa narrativa é fundamental porque a manter a ideia tão perseguida no pós-guerra de que os países aliados foram os justos e os corretos, ao passo que as potências centrais, principalmente a Alemanha, estava do lado “errado”,  sendo cruel e a causadora do conflito. A Segunda Guerra Mundial é vista muito facilmente como uma guerra justa, com um lado do bem (aliados) e o lado lado mal (eixo) muito identificáveis. Mas a Primeira Guerra Mundial não, tendo a história da execuções de Cavell aí um papel legitimador valioso.

Referências Bibliográficas

BUTCHER, Catherine. Edith Cavell: Faith Before the Firing Squad. Monarch Books, 2015.

HUGHES, Anne-Marie Claire. War, Gender and National Mourning: The Significance of the Death and Commemoration of Edith Cavell in Britain. European Review of History: Revue européenne d’histoire, v. 12, n. 3, p. 425-444, 2005.

PICKLES, Katie. Transnational outrage: the death and commemoration of Edith Cavell. Springer, 2016.

SOUHAMI, Diana. Edith Cavell: Nurse, Martyr, Heroine. RiverRun, 2011.

SPECK, Catherine. Edith Cavell: martyr or patriot. Australian and New Zealand Journal of Art, v. 2, n. 1, p. 83-98, 2001.

Bruno Leal Pastor de Carvalho é fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social (UFRJ, 2015). Mestre em Memória Social (UNIRIO, 2009), Especialista em História Contemporânea (PUCRS, 2010), Graduado em História (UERJ, 2006) e Comunicação Social (UFRJ, 2006). Foi professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas. Foi cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ entre 2011 e 2018. É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.

Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Edith Cavell: a enfermeira britânica que se tornou mártir na Primeira Guerra Mundial (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/edith-cavell-primeira-guerra-mundial/. Publicado em: 13 jan. 2020. ISSN: 2674-5917.

1 Comentário

  1. Devo confessar meu completo desconhecimento sobre Edith Cavell. O artigo me instou a estudar mais sobre a I Guerra, menos conhecida, não obstante uma das principais causas do conflito mundial seguinte.

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