O mais novo “choque” do diretor Yorgos Lanthimos no público se chama Bugonia, que já chega carregado de referências do estilo cinematográfico conhecido do diretor, além da narrativa bastante bizarra do clássico sul-coreano de Jang Joon-hwan, Save the Green Planet! (2003). Yorgos assume a obra original como uma espinha dorsal, mas apenas para reinventá-la com seu rigor gélido e humor perverso. O resultado é um filme que se instala num território, a meu ver, indefinido — nos situamos em um limbo onde a comédia ácida se abraça ao horror psicológico, e onde a sátira social surge menos como crítica e mais como um aviso tardio de que, como humanidade, já passamos do ponto de retorno.
A história segue Teddy, interpretado por Jesse Plemons, um homem que parece possuir uma docilidade quase irritante, mas que no fundo se revela fé delirante, e seu primo Don, vivido com fragilidade e ingenuidade pelo ator Aidan Delbis. Os dois têm um plano: sequestrar Michelle Fuller — uma CEO da indústria farmacêutica que a musa de Yorgos, Emma Stone, encarna com uma mistura hipnotizante de frieza, cinismo e dureza. Ao melhor estilo “chapeuzinho de alumínio”, a dupla de primos está convencida de que Michelle é uma aristocrata alienígena e a responsável pela destruição ecológica e moral do planeta Terra. Lanthimos, como já vimos em outros dos seus longas, transforma esse arco absurdo em lógica interna: a insanidade vira coerência, e o riso se mistura ao desconforto – às vezes tudo junto em uma mesma cena.
Do caos coreano ao ritual pseudo-racional
Embora o filme mantenha quase que intocado o esqueleto narrativo de Save the Green Planet! a alma de sua refilmagem é outra. O original coreano vibra num frenesi de dor, ação, humor e fúria. Já Lanthimos, ao contrário, troca a histeria pela aparente contenção — e cada cena nos parece mesmo esculpida com a precisão de quem entalha emoções em pedras. O que antes era explosão vira um ritual meticuloso e o que era desespero se transforma em silêncio e frieza. É como se ele tivesse retirado o ar – e alguns excessos – do filme para que o espectador sentisse, na pele, o peso da realidade distorcida, da teoria conspiratória que está sendo vendida ali.
Stone, Plemons e o diretor que os desafia o abismo
Fica claro desde o começo que grande parte da força de Bugonia nasce do triângulo criativo entre o diretor e seus dois atores favoritos. Emma Stone — parceira de Lanthimos desde A Favorita (2018) e cúmplice em Pobres Criaturas (2023) agora se entrega a um papel ainda mais cru — Emma, claramente, traduz como poucos o ritmo estranho e as visões do diretor. Sua Michelle é simultaneamente predadora e presa, máquina e carne, poder e vulnerabilidade. Stone parece saber que, com Lanthimos, a neutralidade e o silêncio podem ser mais devastadores do que o grito.
Jesse Plemons, a outra ponta desse triângulo criativo, retorna após Tipos de Gentileza (2024), e incorpora a energia certa do personagem: silencioso, interno e ao mesmo tempo um vulcão à beira da erupção. Teddy é um homem devastado pela necessidade de encontrar sentido — e Plemons o interpreta como quem segura o mundo com as duas mãos, mesmo sabendo que ele está desmoronando. Ao lado de Stone, cria-se um campo magnético estranho, onde a violência e a devoção se confundem e se misturam.
A relação dos três é construída sobre uma base de confiança absoluta. Lanthimos é um diretor muito exigente ao representar o silêncio que pesa com pausas milimétricas e gestos quase ritualísticos. Stone e Plemons parecem aceitar o desafio — e o diretor, em troca, molda cenas que dependem exatamente dessa entrega total do elenco. O que temos aqui é um exemplo do mais puro pacto artístico: ninguém sai ileso, mas todos saem maiores.
A máquina estética que sufoca e encanta
Guiada pelo roteiro adaptado por Will Tracy (O Menu /2022), a “engrenagem” técnica de Bugonia é tão cruel quanto bela. A fotografia de Robbie Ryan – parceiro de Yorgos em trabalhos anteriores do diretor – se organiza em quadros quase estáticos, que se apresentam para nós como se fossem vitrines de um mundo que perdeu totalmente o brilho. Os ambientes corporativos são fluorescentes, metálicos, cinzas e assépticos; os porões são mal iluminados, úmidos, densos e claustrofóbicos. Ryan traz uma cinematografia que constantemente aprisiona seus personagens em retângulos de desconforto.
Já a trilha de Jerskin Fendrix – outro nome recorrente nos créditos dos filmes de Lanthimos – pulsa como um nervo exposto — ela é eletrônica, ansiosa, às vezes tão silenciosa que se torna ameaçadora e emoldura a montagem de Yorgos Mavropsaridis que parece manipular o tempo como se dobrasse um papel: planos longos que se estendem ao limite, seguidos de cortes secos que perfuram o ar. Dessa forma, o filme nos parece respirar irregularmente, e essa irregularidade pulsa dentro do espectador e estimula ansiedade.
Conspiração, trauma e a busca por sentido
No fundo, Bugonia é menos sobre conspirações sobre aliens ou invasores e mais sobre a condição humana de vivermos cercados por sistemas que parecem inalcançáveis, predadores e indiferentes ao sofrimento humano e o meio ambiente. Lanthimos examina como instituições frias geram monstros, e como esses monstros, por sua vez, reinventam a realidade para que ela se torne aparentemente (ou legalmente) suportável. A teoria conspiratória que vemos aqui não parece ser vítima nem vilã: é um tipo de prece distorcida, de ato desesperado. Um grito por significado num planeta que já não enxerga mais como indivíduos de carne e osso a maioria de seus habitantes.

Não há respostas fáceis, mas isso já sabemos ser uma constante do trabalho de Lanthimos. Também não teremos uma perigosa moralidade didática – e tendenciosa. Há apenas pessoas tentando não se afogar dentro de seus próprios devaneios e desejos — e fracassando de maneiras dolorosamente humanas e patéticas. O filme também dialoga com várias fases do diretor: o sacrifício ritualizado de O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), o jogo de poder amoral de A Favorita ou a carne propositalmente grotesca e poética de Pobres Criaturas. Mas preciso salientar que Bugonia é ainda mais sufocante e seco do que todos eles e ainda menos exuberante. A obra se sustenta como um espelho sem ornamentos, onde vemos os contornos do nosso próprio colapso como humanidade.
Por fim, Bugonia não é um filme feito para confortar os espectadores. É feito para incomodar, para ressoar, para ridicularizar e para maximizar as falhas de uma época que corre em alta velocidade rumo ao abismo enquanto tenta desesperadamente criar narrativas que expliquem tudo além da mera e pura depredação e ganância humana. Stone e Plemons entregam performances muito poderosas – beirando o litúrgico – e guiadas pela mão firme de um diretor que se afirmou na cena dos diretores contemporâneos ao transformar silêncio em linguagem e desconforto em arte.
Bugonia estreia nos cinemas brasileiros em 27 de novembro.