Associação norte-americana pede a historiadores que documentem a vida cotidiana durante a pandemia

Associação dos Historiadores Públicos do Estado de Nova York está incentivando seus associados a documentarem os impactos da pandemia do novo coronavírus em suas comunidades.

Bruno Leal | Agência Café História

Duas semanas após historiadores alemães anunciarem uma plataforma colaborativa para registrar o cotidiano sob a pandemia do novo coronavírus, chegou a vez de historiadores norte-americanos iniciarem um projeto semelhante. A Associação dos Historiadores Públicos do Estado de Nova York (APHNYS), entidade que promove a história do estado e representa mais de 1.600 historiadores locais, está incentivando seus membros a documentarem o dia a dia local durante a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2).

“É nosso dever documentar não apenas o passado, mas o presente. A pandemia de COVID-19 é um evento sem precedentes em todas as nossas vidas; é imperativo que registremos o impacto em nossas comunidades e como nossos cidadãos respondem a ela”, publicou a associação em seu site ao anunciar a iniciativa. 

Policial usa máscara de proteção com estampa da bandeira americana no bairro do Brooklyn, em Nova York.
Policial com máscara de proteção no bairro do Brooklyn, em Nova York. Foto de Julian Wan no Unsplash.

Timothy S. Minnick, historiador que vive na cidade de Theresa, no interior do estado, recebeu o pedido da associação por e-mail no final de março e aprovou a iniciativa.

“Eu já tive a ideia de documentar algo sobre a pandemia, porque muita coisa da história local foi perdida durante eventos como o surto de gripe espanhola de 1918, a grande depressão, a lei seca etc.”, disse Minnick. “Nós sabemos que esses eventos foram históricos, mas não ver o impacto local nos distancia deles e nos deixa imaginando muita coisa”. 

Thomas LaClair, historiador da Vila de Clayton, que no Censo de 2010 registrava 1.978 habitantes, não só atendeu ao pedido da associação, como está indo além: decidiu envolver os membros de sua comunidade na tarefa. Ele está pedindo às pessoas que tomem elas mesmas nota dos eventos, mantendo diários sobre como a pandemia as afeta pessoalmente, bem como os seus negócios, igrejas, escolas, casas de repouso, etc. Após a pandemia, o material será utilizado para projetos na área de História. 

Formulário e recomendações

Para auxiliar os historiadores e suas respectivas comunidades no projeto, a Associação dos Historiadores Públicos do Estado de Nova York desenvolveu um formulário online que pode ser usado para coletar histórias de todo o estado de Nova York. Quando a crise e o período de coleta terminarem, a associação compartilhará as respostas com os historiadores de todo o estado.

Além disso, a entidade publicou também uma série de diretrizes e recomendações para a produção dos registros. Há desde instruções quanto aos cuidados com a saúde e o respeito às regras de distanciamento social, até indicações de roteiro, que explicam como manter um diário, coletar fotografias, criar linhas do tempo, registrar declarações, indexar reportagens locais, preservar documentos e gravar entrevistas. 

“Converse com as pessoas e, quando possível, registre a história oral, entreviste os proprietários e funcionários de empresas da sua comunidade, principalmente aqueles que trabalham em supermercados, farmácias, restaurantes e outros setores que foram particularmente afetados pela crise. Os socorristas e os profissionais de saúde serão outro grupo-chave a se considerar”, diz uma das diretrizes da associação. 

Epicentro da doença e mudança do cotidiano

Desde meados de março, os Estados Unidos se tornaram o epicentro da doença no mundo, registrando hoje mais de 667 mil casos confirmados e mais de 30 mil mortes. O estado de Nova York é o mais afetado, contabilizando quase 214 mil casos e 10 mil mortos. Green-Wood, o maior cemitério de Nova York, atingiu em meados de abril o limite de sua capacidade devido ao fluxo incessante de cadáveres de vítimas do novo coronavírus. Ocorreram o dobro de cremações e cinco vezes mais enterros.

Loja vazia em Nova York durante pandemia da Covid-19
Loja vazia em Nova York. Foto de Marianela Delos no Unsplash.

Tamanha tragédia tem mudado o cotidiano da megalópole americana. Sob quarentena, as ruas estão vazias, as escolas e o comércio estão fechados e as emergências dos hospitais estão completamente lotadas. Os parques de Manhattan, agora fechados para o público, possuem apenas hospitais de campanha. Arranhas-céus receberam iluminação especial para homenagear as vítimas do Covid-19 e, em quase todo final de tarde, a cidade registra o mesmo fenômeno: os residentes aplaudem os profissionais de saúde.

O projeto da Associação dos Historiadores Públicos do Estado de Nova York visa registrar esses e outros eventos cotidianos durante a pandemia, que tem produzido uma paisagem inédita na história da cidade e do país. 

Como citar esta notícia

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Associação norte-americana pede a historiadores que documentem a vida cotidiana durante a pandemia (notícia). In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/associação-pede-a-historiadores-que documentem-a-pandemia-de-coronavirus/ ISSN: 2674-5917. Publicado em: 17 abr. 2020. Acesso: [informar a data]. 

Com informações do NY360.

11 Comentário

  1. Se esta pandemia,catastrofe nao dosse historiada,os nossos sucessores nao saberiam como agir numa outra proxima pandemia e os mortos em vez de milhares seriam aos milhoes.
    È para isso que serve a Historia,para que possamos e possam os nossos filhos e netos lerem o passado e praticarem menos erros,e possam ter mais paz e saüde e serem mais felizes.
    È para isso que servem os avös,para contarem a Historias aos netos,porque os pais nao teem tempo ou paciencia,coisa que os avös teem muito das duas coisas.

  2. O que acha sobre fazermos o mesmo aqui?
    Mesmo que sem uma associação ou entidade por trás.
    Acho que seria interessante estimular e criar, por exemplo, um google drive e disponibilizar o link para uma gama de historiadores de vários lugares (cada historiador com uma pasta própria, para que um não tenha permissão para editar o trabalho do outro) e, após toda a epidemia, essa base de dados ser fornecida para a comunidade, tanto da academia quanto fora dela.
    Poderia ser feito também, por exemplo, uma chamada no twitter ou facebook para que possamos receber relatos de moradores para, por enquanto, deixar documentado.
    Essa gama imensa de relatos e dados poderia se transformar numa base bem sólida futuramente.

    • Não sei, Claudia. Se você não encontrar nenhuma licença CC no site, entre em contato com eles. Acho que não devem se importar, mas sempre é bom pedir. Abraço!

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