Antes de morrer, Charles Darwin dedicou seus últimos anos a um tema improvável, mas que lhe pareceu essencial: as minhocas. Publicado em 1881, A formação da terra vegetal pela ação das minhocas, com observações sobre seus hábitos acaba de ganhar sua primeira tradução para o português brasileiro, pelas mãos da escritora e pesquisadora Sofia Nestrovski e publicado pela editora Fósforo. O volume chega às livrarias com posfácio do jornalista Reinaldo José Lopes e orelha assinada pela engenheira ambiental e porta-voz da ONU, Aline Matulja, no dia 10 de julho.
Escrito após quatro décadas de observações contínuas, o tratado é o trabalho final do naturalista britânico que revolucionou a ciência com A origem das espécies. Aqui, Darwin descreve o papel das minhocas na formação do solo fértil, baseando-se em experimentos meticulosos e registros diários sobre o comportamento dos anelídeos. O livro oferece um verdadeiro mergulho no mundo subterrâneo, revelando como esses animais silenciosos moldam a terra, reciclam matéria orgânica e até contribuem para a preservação de estruturas arqueológicas.
Ecologia antes da ecologia
Muito antes de se falar em compostagem doméstica ou crise climática, Darwin já alertava sobre a importância de escutar a “vida miúda e resiliente sob nossos pés”. O impacto da obra é tal que ela é considerada o ponto de partida da “biologia do solo”. A nova edição brasileira atualiza esse debate ao trazer uma perspectiva contemporânea, como observa Matulja na orelha: “Darwin nos ensina, com rigor científico e clareza poética, que feitos pequenos — supostamente modestos — podem produzir imensos efeitos”.
Minucioso e encantador, o livro tem valor para leitores das áreas de ecologia, jardinagem, agricultura, história da ciência e também aos que se preocupam com o futuro do planeta. Se hoje a compostagem faz parte do cotidiano de muitas casas, isso se deve, em parte, a este tratado de Darwin — que via nas minhocas uma espécie de motor invisível da vida terrestre.

“Meu coração e minha alma se importam somente com as minhocas e nada mais”, escreveu Darwin em uma carta de 1880. Poucos meses depois, o cientista morreria. Mas seu último suspiro intelectual, agora acessível em português do Brasil, continua fértil como o solo que ele estudou.