Um lançamento tem passado – injustamente – quase despercebido no mundo dos games em 2026: Aphelion. Desenvolvido pela DON’T NOD, estúdio francês conhecido por títulos como Life Is Strange e Jusant, o jogo se passa no ano de 2060. Em meio a uma crise ambiental extrema na Terra, a humanidade descobre Persephone, um planeta potencialmente habitável localizado nos confins do Sistema Solar.
O jogador acompanha a astronauta Ariane Montclair, integrante da missão Hope 01, enviada para explorar o planeta e preparar uma possível colonização humana. Mas, durante a aproximação, algo dá errado: a nave sofre um acidente e a tripulação se separa.
Isolada em um ambiente hostil e congelado, Ariane precisa sobreviver enquanto procura Thomas Cross, seu parceiro de missão – e afetivo. Ao longo da jornada, ela enfrenta fenômenos misteriosos, perigos naturais e descobre que Persephone talvez esconda algo muito mais estranho do que simples condições climáticas extremas.
Misturando exploração, sobrevivência e narrativa cinematográfica, Aphelion aposta no forte apelo emocional das relações humanas, uma marca registrada da DON’T NOD.
Belas texturas
O jogo é dividido em 11 episódios. Em oito deles, controlamos Ariane; nos outros três, Thomas. As duas jogabilidades são distintas. Com Ariane, a experiência é mais fluida e dinâmica. Jovem, atlética e muito inteligente, a personagem corre, escala montanhas, salta obstáculos e transforma boa parte do jogo em uma espécie de parkour espacial.
Com Thomas, a proposta muda. Ferido após o acidente, ele anda curvado, lentamente, e não consegue escalar como a companheira. Britânico e dono de um humor sarcástico que persiste mesmo diante do desastre, Thomas vive momentos mais introspectivos. Enquanto Ariane atravessa vastidões de gelo e montanhas congeladas, ele percorre regiões mais áridas e desertas de Persephone.
Os dois cientistas estão em busca um do outro, mas também seguem comprometidos com a missão principal: compreender a misteriosa “Fonte”, rapidamente apresentada como um dos grandes enigmas da narrativa. Embora o jogo mantenha segredo sobre sua verdadeira natureza, tudo indica que ela está ligada às anomalias físicas e magnéticas do planeta.
Magnetismo
Persephone apresenta vários comportamentos eletromagnéticos incomuns: interferências em equipamentos, alterações gravitacionais e fenômenos que desafiam as leis da física conhecidas. Isso afeta diretamente a navegação, a comunicação e até a percepção dos personagens. O magnetismo funciona tanto como elemento científico quanto psicológico.
Há ainda uma camada simbólica importante. Em Aphelion, o magnetismo não parece apenas técnico: os personagens são constantemente “puxados” uns aos outros, às próprias memórias e ao próprio planeta. A Fonte funciona como um polo de atração, algo desconhecido, mas irresistível.
Esse tipo de abordagem aproxima o jogo da tradição da ficção científica existencial, em que fenômenos cósmicos servem para discutir trauma, conexão humana e transformação. A ambientação, inclusive, contou com apoio científico da European Space Agency, ajudando a dar maior credibilidade à exploração espacial apresentada pelo jogo.
Lançado para PlayStation 5, Xbox Series X, Xbox Series S e PC, Aphelion impressiona sobretudo pelo visual. Persephone, nome, a propósito, inspirado na Perséfone da mitologia grega, deusa da primavera, do renascimento e rainha do submundo, é um planeta gelado, perigoso e, ao mesmo tempo, fascinante. Muito semelhante à Terra, mas regido por fenômenos próprios, o mundo criado pela DON’T NOD exibe rios congelados, montanhas monumentais, placas de gelo flutuantes e paisagens iluminadas por raios de sol melancólicos de fim de tarde.
As texturas, especialmente no modo Ultra, são deslumbrantes. Mesmo em configurações médias ou altas, o jogo mantém excelente qualidade visual. As dobras das roupas, os efeitos de iluminação e as cutscenes revelam um cuidado impressionante com os detalhes.
Trilha sonora
Outro destaque é a trilha sonora. O áudio de Aphelion conduz a experiência emocional do jogador, alternando tensão, medo, solidão e esperança com enorme competência. É aquele tipo de trilha que acompanha a narrativa e, ao mesmo tempo, ajuda a construir seu significado. A campanha principal pode ser concluída em cerca de 12 horas.



Aphelion, porém, não é perfeito. As sequências em que Ariane tenta sobreviver ao chamado “monstro magnético” podem se tornar repetitivas, e o jogo apresenta alguns problemas de colisão — quando animações e objetos não se alinham corretamente. Em certos momentos, personagens parecem flutuar levemente acima do chão, atravessar partes do cenário ou apoiar as mãos “no vazio”. São falhas perceptíveis, mas que felizmente não comprometem a experiência geral.
No fim, Aphelion é um jogo emocionante e profundamente humano. Combina o melhor da ficção científica com aventura, suspense e drama psicológico. O capítulo do reencontro entre os dois astronautas é genuinamente cinematográfico e talvez represente um dos momentos mais tocantes dos games em 2026.
De quebra, o jogo ainda coloca no centro da narrativa uma protagonista mulher, negra, careca e brilhantemente inteligente – algo ainda raro em grandes produções do gênero.
Por tudo isso, Aphelion merece muito mais atenção do que vem recebendo.
NOTA