Sensacionalismo e métricas de impacto: como a academia tem sido hackeada

Uma reflexão sobre os riscos das atuais métricas utilizadas no mundo acadêmico para avaliar o sucesso ou o fracasso de um artigo.

Por Portia Roelofs and Max Gallien (LSE Impact Blog)

Tradução de Ana Paula Tavares

Em setembro deste ano, o periódico Third World Quarterly (TWQ) publicou um artigo que, levando-se em conta diversas métricas usadas hoje em dia na academia, poderia ser classificado como o mais bem sucedido em seus 38 anos de história. Em poucos dias, o texto alcançou uma pontuação no Altmetric Attention Score maior do que qualquer outro documento publicado no TWQ. Pelas regras atuais da academia, isso é visto como um triunfo. O problema, no entanto, é que o trabalho em si não é um triunfo.

O artigo, “O caso do colonialismo” (saiba mais aqui), é uma fraude, o equivalente acadêmico de um tuíte do Trump, uma “isca” sensacionalista para atrair cliques (clickbait) com notas de rodapé. Seu autor, Bruce Gilley, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Portland, questiona a “ortodoxia” dos últimos 100 anos que, na sua opinião, deu ao colonialismo uma má reputação. Ele argumenta que o colonialismo ocidental foi “como regra geral, tanto objetivamente benéfico quanto subjetivamente legítimo”, e continua dizendo no artigo que, ao invés de adotarmos uma visão crítica da história do colonialismo e do imperialismo, devemos “recolonizar algumas áreas” e “criar novas colônias ocidentais a partir do zero “.

Cultura-Academica
Cultura acadêmica precisa ser repensada. Foto: Pixabay.

Argumentos em favor do colonialismo já apareceram em produções acadêmicas antes. No entanto, o artigo de Gilley não fornece novas evidências ou conjuntos de dados sobre o assunto, e discutir suas falhas empíricas e sua cegueira para tantos aspectos da história colonial está além do alcance desta publicação. Felizmente, a análise de suas falhas tem sido feita por alguns dos muitos pesquisadores do tema, que, aliás, já produziram excelentes trabalhos sobre o colonialismo nas últimas décadas. Então, como este artigo conseguiu tamanho destaque e aparentemente se tornou um sucesso? A questão é: ao discutir as falhas do artigo, esses trabalhos acabam por aumentar ainda mais a contagem de citações e as métricas de impacto da publicação original. Na verdade, uma petição pedindo a retirada do artigo obteve mais de 10.000 assinaturas, e alguns dos membros do Conselho Editorial da revista se demitiram.

Claro, nada disso aconteceu por acaso. Trata-se de uma provocação bem planejada: um argumento que já sabe a crítica que vai receber e que, por isso mesmo, faz questão de alimentá-la, para depois usar essa mesma reação crítica como evidência de uma “ortodoxia” predominante. Isso parece familiar, certo? É porque é exatamente a mesma estratégia com a qual o movimento alt-right (alternative right, grupos identificados com ideias de extrema direita) conseguiu se infiltrar nos debates públicos. O artigo replica até mesmo a marca registrada desses discursos: a vitimização e a reescrita descarada da história alegando que o colonialismo ganhou uma “má reputação” nos últimos 100 anos. Dessa forma, o autor propõe sair do que considera uma obsessão pelo politicamente correto e voltar ao tempo em que o colonialismo ainda era política governamental oficial em muitos estados.

Certamente, esses pontos de vista não são inteiramente novos. E a existência deles não são chocantes. Estamos lentamente nos acostumando com o alt-right. Entretanto, essas ideias e estratégias, destiladas na escrita acadêmica, não estão sendo somente publicadas, mas também estão saltando ao topo de algumas das principais métricas que usamos para identificar sucesso, influência e “impacto” na academia – trata-se de algo arrepiante. Isso significa não só que a academia pode ser hackeada, mas que ela já foi.

O artigo de Gilley representa o culminar de tendências mais amplas na academia: indo desde uma marketização para obter impacto até a promoção de um debate artificial com adversários inventados. A partir do final da década de 1990, as universidades foram pressionadas a operar mais como empresas. Ao invés de existir em sua própria bolha confortável, os políticos exigiam que as universidades enfrentassem os ventos fortes do mercado e ganhassem seu sustento. Os estudantes tornaram-se consumidores, cada vez mais as grandes empresas estabeleceram a agenda de pesquisas financiadas publicamente, e os acadêmicos deveriam estar sujeitos às mesmas responsabilidades e incentivos de uma equipe de vendas. Os acadêmicos devem publicar. A fim de estabelecer um ranking, uma classificação dos artigos, a academia teve que criar uma maneira universal de quantificar o quão bom é um trabalho: daí o índice de citação. As plataformas de indexação como Scopus, Web of Science e Google Scholar gravam quantos outros artigos ou livros citam seu artigo. A ideia é que se um artigo é bom, vale a pena mencioná-lo, portanto ele será mais citado. O problema é que os rankings de citação contam igualmente as referências positivas e negativas.

O artigo, “O caso do colonialismo”, é uma fraude, o equivalente acadêmico de um tuíte do Trump, uma “isca” sensacionalista para atrair cliques (clickbait) com notas de rodapé.

Essa forma de quantificar a excelência de um artigo, no entanto, parece menos grave quando temos em vista o que se tem feito em nome de uma “agenda de impacto”. Inicialmente estimulado pelo desejo de os professores alcançarem a sociedade em geral e se envolverem com o mundo fora das universidades, o impacto passou a ser medido por blogs, visualizações de páginas, estatísticas de download de artigos e tuítes. A academia está replicando a estrutura dos meios de comunicação de massa. Os artigos acadêmicos agora são avaliados de acordo com as mesmas métricas que as postagens do Buzzfeed e as selfies de Instagram. Na verdade, o fator de impacto é um exemplo especialmente interessante das métricas online: Reddit, Youtube e Imgur, pelo menos, permitem que os usuários façam votações positivas ou negativas das postagens.

O resultado acaba sendo diluir a ideia de impacto para simplesmente publicidade. E, como se diz, toda publicidade é válida, seja positiva ou negativa. (Vale a pena notar que Gilley enumera suas “métricas de impacto acadêmico” em seu CV acima de qualquer uma de suas publicações). E isso é muito grave: a perspectiva da quantidade de comentários que o seu artigo recebeu não é simplesmente uma questão de vaidade, mas é algo que está se enraizando no sistema acadêmico como sinônimo de recompensas e respeito, interferindo na obtenção de progressão de carreira, empregos ou financiamento de pesquisa. Se as suas perspectivas de emprego dependem de cliques, seria estúpido não escrever seu próprio clickbait, sua própria isca sensacionalista para gerar polêmica e burburinho.

Mas não é apenas uma obsessão com os rankings e sucessos que leva alguns acadêmicos a escrever artigos extremos e redutores – e periódicos acadêmicos a publicá-los. O artigo de Gilley reflete outra tendência igualmente perniciosa na academia: cada vez mais os debates acadêmicos estão se reduzindo a dois grupos adversários, “os que são contra X” e “os que são a favor de X”. Isso também reflete movimentos nos meios de comunicação. Em busca de uma ideia míope de um “debate equilibrado”, a forma como são apresentados os confrontos de ideias e opinião nos programas jornalísticos transmitem a ideia de que a verdade está sempre “em algum lugar no meio” de duas visões extremas opostas. Isso torna impossível um progresso real nos debates. Isso cria falsas dissidências em questões que são esmagadoramente consideradas um consenso, como a mudança climática, por exemplo, e impede que os debates se desenvolvam para além da premissa.

Quando a academia é enquadrada assim, isto é, como um confronto, isso favorece pessoas de confronto. E isso tem efeitos racializados e de gênero. Vivemos em um mundo onde os meninos são condicionados a se expressarem e se posicionarem mais que as meninas; onde “ameaça de estereótipo” faz com que pessoas negras sintam que sempre têm que tomar cuidado com seu comportamento para não confirmarem estereótipos de que seriam agressivos. Nas universidades do Reino Unido, por exemplo, isso se traduz em departamentos que podem até ser equilibrados em termos de gênero, mas nos quais o trabalho dos homens é sistematicamente mais bem recompensado, e os acadêmicos negros ou de minorias étnicas são quase invisíveis. O tipo de artigos sensacionalistas que recebem muitos acessos – como os de Gilley – são aqueles que quando os homens brancos escrevem, eles são louvados, e que quando qualquer outra pessoa escreve, recebe a resposta de deixar isso para lá e fazer um trabalho mais adequado.

Às vezes, um sistema atinge um ponto em que suas consequências são tão surpreendentes, tão preocupantes, tão contrários à sua função e missão, que se torna imperativo repensar o próprio sistema, que precisamos dizer “OK, vamos parar tudo e descobrir onde nós erramos”. A academia serve melhor ao que é verdadeiro e à justiça social quando atua como contrapeso à histeria do ciclo de notícias 24 horas por dia. O sucesso de artigos como o de Gilley mostra que, a menos que algo mude, uma boa pesquisa pode seguir o caminho do bom jornalismo: tudo o que é sólido se dissolve em chamarizes sensacionalistas (clickbaits).


Portia Roelofs é membro do Departamento de Desenvolvimento Internacional da London School of Economics and Political Science, onde obteve seu doutorado. Ela também possui formação pela Universidade de Oxford e SOAS, pela Universidade de Londres e realizou pesquisas nas universidades de Maiduguri e Ibadan, na Nigéria. Ela trabalha com política de desenvolvimento com foco no sudoeste da Nigéria. Seu site é http://www.portiaroelofs.com/.

Max Gallien é doutorando no Departamento de Desenvolvimento Internacional da London School of Economics and Political Science. Ele possui um mestrado em Estudos modernos do Oriente Médio e é bacharel em Política, Filosofia e Economia pela Universidade de Oxford. Ele trabalha com economia política do norte da África com foco nas economias informais.


Como citar esse artigo

GALLIEN, Max; ROELOFS, Portia. Sensacionalismo e métricas de impacto: como a academia tem sido hackeada (Artigo). Tradução de Ana Paula Tavares Teixeira. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/a-academia-hackeada. Publicado em: 30 out. 2017. Acesso: [informar data].


Este artigo foi traduzido a partir da liberdade de edição conferida pelo Creative Commons do LSE Impact Blog, onde este artigo foi originalmente publicado, em inglês.

5 Comentário

  1. En passant, se, por ossos do ofício ou mera curiosidade, qualquer um usar como base, exemplarmente, a ‘Revista Ciência da Informação’ publicada, creio, no Rio de Janeiro, que poderia e deveria ser um marco de enquadramento da crítica do saber do tema em pauta, encontrará desde os anos de 1980, talvez mesmo antes, um tremendo de um cipoal, um ratatouille de dados, conhecimentos e saber comum, muitas vezes completamente anormal e sem referência àquilo que se predispõe entender, de antemão à abertura de uma só revista sequer no ramo, supostamente à procura da verdade e da compreensão desse e de outros temas-base da disciplina da Comunicação. Alguns desses artigos de fato são explanações íntimas do non-sense elevado à categoria de matéria acadêmica publicável, num meio que se acredite importante no ramo. Deveriam ser, com certeza, retirados das Bibliotecas por representar uma C&T que, apesar de ser-nos familiar, nada tem a ver com o real e o verdadeiro. E se existem artigos — de uma só pessoa sequer, que sejam equivocados ou mesmo ridículos, certamente, haverá de outras também. Vejam vs mesmos, se de fato ainda possuem um mínimo de curiosidade do porque andamos pra trás em quarenta e cinco anos, ou mais um pouco, em relação à Coréia, por exemplo, no entender e no discutir de nossa cultura acadêmica de C&T, ao menos nesse seu pequeno mas importante departamento, especificamente.

  2. Mauro, transportaram pro meio acadêmico as peixadas do meio militar então famosas. Consertar o que esteja errado ou esquecer que existiram, esse é o dilema maior. Quem quer que seja que faça uma devassa nessa ‘Revista da Ciência da Informação’ encontrará equívocos crassos que são atribuídos exatamente às pessoas que a dirigiam. E dane-se o futuro do conhecimento sobre o assunto, e lixem-se os futuros pesquisadores que não saberão por onde começar a sua faina. É na sociedade em geral que esses erros ocorrem e não no âmbito acadêmico que deveria dela se distanciar por mera questão de escrúpulos.

  3. Talvez o mal da ciência desse século seja priorizar quantidade ou invés de qualidade em suas publicações. Os acadêmicos, mesmo não querendo, acabam sendo “forçados” a publicar muito para se fazer lido e reconhecido, geralmente repetindo o mesmo assunto, mas com títulos e palavras-chaves diferentes, como vejo em artigos de muitos historiadores famosos por aí, só a título de exemplo. A pergunta que fica é como podemos mudar isso e direcionar o foco para trabalhos que tenham relevância não só dentro como fora da academia, que fomentem novas pesquisas, interesses, visões?

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