Imagine uma máquina do tempo capaz de transportar você para qualquer momento da história. Seria possível assistir à queda do Império Romano, acompanhar a Revolução Francesa ou observar de perto os acontecimentos dramáticos que culminaram na Primeira Guerra Mundial.
Para quem estuda o passado, a possibilidade parece irresistível. Afinal, o que poderia ser melhor do que presenciar os acontecimentos que se deseja compreender?
Fizemos essa pergunta ao historiador Daniel Gomes de Carvalho, professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do pensamento histórico. Para ele, a resposta não é simples. Mesmo que viajasse no tempo, um historiador continuaria sujeito aos limites da própria percepção. Estar presente em um acontecimento não significa compreender todas as suas causas, consequências e relações com outros processos históricos.
Com a palavra, o historiador Daniel Gomes de Carvalho
Se fosse possível voltar ao passado, a experiência direta dos acontecimentos seria a melhor forma de compreendê-los?
À primeira vista, uma máquina do tempo pareceria oferecer ao historiador uma vantagem incomparável: a possibilidade de testemunhar os eventos que pretende estudar. Entretanto, a experiência direta não equivale necessariamente à compreensão histórica. Mesmo que pudesse viajar ao passado, o observador permaneceria limitado por sua posição particular, por seus sentidos e por sua capacidade de atenção. Como observou Marc Bloch, o “indivíduo é muito limitado pelos seus sentidos e poder de concentração”, de modo que ele “nunca percebe mais do que um minúsculo fragmento na vasta trama dos eventos”.
Diferentemente do viajante do tempo, o historiador pode trabalhar com diferentes escalas de observação, deslocando-se entre o individual e o coletivo, o particular e o geral, a curta e a longa duração. A compreensão histórica depende, portanto, não apenas da proximidade com os acontecimentos, mas também da possibilidade de estabelecer relações que escapam à percepção imediata de seus participantes. Nesse sentido, é sugestiva a observação de Gertrude Stein: “quando eu estava na América, pela primeira vez viajei quase todo o tempo de avião e, quando olhava a terra, via todas as linhas do cubismo traçadas numa época em que nenhum pintor voara de avião”.
Assim como os pintores cubistas puderam representar perspectivas que não haviam experimentado diretamente, o historiador pode construir interpretações do passado que ultrapassam os limites da experiência vivida. A distância temporal, longe de constituir apenas um obstáculo ao conhecimento histórico, pode também representar uma de suas condições de possibilidade. Essa é, além de tudo, uma boa lição que a historiografia pode fornecer para uma época como a nossa, a qual parece conferir uma autoridade excessiva às “experiências individuais”.
Curso on-line discute os fundamentos do pensamento histórico
A reflexão sobre o que significa pensar historicamente será um dos temas do curso on-line Fundamentos do Pensamento Histórico, que acontece nos dias 9, 10 e 11 de novembro de 2026.
No segundo encontro, em 10 de novembro, Daniel Gomes de Carvalho, professor da USP, discutirá conceitos como tempo, mudança, permanência, experiência e memória, explorando como o pensamento histórico pode contribuir para a compreensão crítica do presente.

O curso também abordará as relações entre História e imagem, com Rafael Verdasca, e as formas de circulação do conhecimento histórico para diferentes públicos, com Bruno Leal, professor da Universidade de Brasília (UnB) e criador do Café História.
As aulas serão transmitidas ao vivo pelo YouTube, das 19h30 às 21h, com espaço para perguntas dos participantes. As gravações ficarão disponíveis por 60 dias, mediante link restrito.
A formação é aberta ao público, não exige pré-requisitos e oferece certificado de 4h30.
Serviço
- Curso: Fundamentos do Pensamento Histórico
- Quando: 9, 10 e 11 de novembro de 2026
- Horário: das 19h30 às 21h
- Formato: on-line, pelo YouTube
- Certificado: 4h30
- Valor anunciado: R$ 79,90, mais eventuais taxas
- Inscrições: Acesse a página do curso na Sympla