“Naza”: o “documentário-denúncia” aplaudido no Festival de Veneza

"A crítica a Israel é necessária. O país não está imune e, apesar da coragem dos diretores, o filme falha ao não demonstrar que ela (a crítica) existe na própria sociedade israelense."
30 de outubro de 2026
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“Naza”, dos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor (produzido pelo The Guardian), aclamado pela crítica.

No ano de 1144, William de Norwich, um jovem inglês, artesão do couro, desapareceu na região de Norfolk. Seu corpo foi encontrado na floresta de Thorpe Wood com sinais de violência que chocaram a população. Anos mais tarde, o monge beneditino, Thomas Monmouth, acusou (mesmo sem provas) a comunidade judaica local de ter sequestrado e assassinado o menino em rituais religiosos. Este foi o primeiro caso de libelo de sangue contra judeus na Europa Ocidental.

Falsas acusações deste tipo passaram a ser comumente praticadas — desde a Inglaterra, França e Espanha até a Rússia Czarista. Toda vez que um rapaz desaparecia, a comunidade judaica desesperava-se (antevendo novas acusações, ataques e humilhações). No século XX, os libelos de sangue tornaram-se menos frequentes, mas, ainda assim, contribuíram para o forte antissemitismo europeu que culminou no Holocausto.

Após a Segunda Guerra e com a revelação dos horrores dos campos de concentração, o antissemitismo, que era normalizado à luz do dia, retornou para a escuridão e ali se resguardou, até encontrar um novo alvo. As alegações eram as mesmas: assassinatos de crianças, roubo de terras, domínio das riquezas e controle global, porém, agora camufladas de “crítica a governo”. O foco é o Estado de Israel e, desde sua criação, a ele são imputadas as tragédias da vez. A principal acusação do momento é o genocídio contra o povo palestino.

Neste contexto, surge o filme documentário, “Naza”, dos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor (produzido pelo The Guardian), aclamado pela crítica. O filme teve estreia no Festival de Veneza, onde venceu o prêmio especial do júri e recebeu vinte e três minutos de aplausos, contados no relógio pelo próprio diretor do festival. Trata-se de um “documentário-denúncia” dos crimes de guerra que Israel teria cometido e que, segundo os diretores, segue cometendo em sua represália aos ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023.

São entrevistas duras com ex-membros de uma divisão da inteligência da IDF (Exercito de Defesa de Israel) que relatam como é possível calcular, com o uso de IA, os danos colaterais antes de um ataque, e como o número de vítimas é ignorado por quem toma a decisão final de atacar, resultando, assim, na morte de civis inocentes entre membros do Hamas.

A primeira metade do filme é um esforço na tentativa de introduzir e mastigar para o espectador os termos da guerra. Israel é mostrada de forma escura – através de uma sequência interminável de prédios e janelas em Tel Aviv, à noite, pontuadas com frases deslocadas de discursos de Netanyahu. Aborda-se, fragilmente, as justificativas do país, incluindo imagens borradas (com efeito blur) dos reféns sequestrados pelo Hamas, um foguete esporádico lançado de Gaza a Tel Aviv e sirenes quebrando o ritmo das entrevistas.

No entanto, a partir da segunda metade, fica clara a construção de narrativa dos diretores: conduzindo o público de mãos dadas, como se leva uma criança ao parque, à conclusão de que o que ocorre em Gaza é um genocídio. Neste caminho guiado, entendemos o verdadeiro propósito do filme. Se buscamos reflexão, não encontramos; compreensão dos fatos, não há; entendimento do conflito, ignorado. O que há é uma narrativa voltada a justificar o argumento de genocídio perpetrado por Israel. A começar pelo título, “Naza”. O termo é um acrônimo em hebraico para Nezek Agavi, que, em grossa tradução, significa Dano Colateral. Mas “Naza” é muito mais sugestivo para quem deseja equiparar israelenses a nazistas.

A maneira como manipula as referências a Claude Lanzmann e seu aclamado filme “Shoa”, à comemoração do Dia do Holocausto em Israel em meio à guerra, é óbvia e até infantil. As cenas do cotidiano nos fazem crer que a vida continua normal, apesar dos bombardeios a poucos quilômetros de distância, simulando “Zona de Interesse”, filme de Jonathan Glazer. Até mesmo o final faz alusão ao filme “Valsa com Bashir”, de Ari Folman, com imagens impactantes dos destroços em Gaza.

Algumas falas dos entrevistados parecem escolhidas, estrategicamente, para soar como os oficiais nazistas que justificavam sua participação no Holocausto com frases como: “eu estava apenas cumprindo uma missão” ou “eu sou apenas uma peça na engrenagem”. Em determinado momento, um entrevistado se autocompara aos poloneses durante a Segunda Guerra. Tudo isso, conduzido de maneira didática por Yuval Abraham, com perguntas diretas e indutivas como: “Então, isso é um genocídio?” “Então, crianças foram mortas?” A pretensão de evidenciar similaridades entre o Holocausto e o conflito em Gaza descredibiliza o filme. São acusações graves, que devem ser investigadas. Mas a forma como o filme as aborda deixa lacunas abertas.

A crítica a Israel é necessária. O país não está imune e, apesar da coragem dos diretores, o filme falha ao não demonstrar que ela (a crítica) existe na própria sociedade israelense. Por outro lado, a impressão é de que Israel aloja-se eternamente sob uma lupa. Existe uma razão para isso. No filme “Notre Musique” (2004), de Jean-Luc Godard, o poeta palestino Mahmoud Darwish coloca a seguinte questão paradoxal a uma jornalista israelense: “Temos o infortúnio de ter Israel como inimigo, ao ter muitos aliados no mundo. No entanto, temos a sorte de ter Israel como inimigo, porque os judeus estão no centro das atenções do mundo. Vocês nos trouxeram derrota, mas nos tornaram famosos”.

Alex Levy-Heller

Alex Levy-Heller

Alex Levy-Heller é cineasta, sócio-diretor da Pipa Pictures, BFA em Artes Dramáticas pela University of Nebraska, USA, membro da Academia Brasileira de Cinema, DBCA (Diretores Brasileiros de Cinema e do Audiovisual) e da Associação Brasileira de Cineastas. Dirigiu os filmes: "O Relógio do Meu Avô", "Macaco Tião - O Candidato do Povo", "Christabel" e "Jovens Polacas".

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