Terror, prazer e história: uma conversa com Daniel Gomes de Carvalho

Sinto que o terror real não está nas ameaças de tubarões ou monstros marinhos ancestrais, mas em uma imaginação que vincula a sobrevivência à capacidade de superação individual.
8 de setembro de 2026
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Cena de "A Hora do Mal" (2025). Foto: reprodução.

Após a leitura do artigo Por que gostamos tanto de filmes de terror e séries de true crime, conversei com Daniel Gomes de Carvalho, que é meu amigo. Nessa conversa, além de parabenizá-lo pelo belíssimo texto, apresentei minhas inquietações diante desse fascínio que tantos de nós temos pelas histórias de terror, sejam elas reais ou ficcionais. Como um dos grandes especialistas em história moderna, Dani pensou o tema a partir das reflexões do filósofo irlandês Edmund Burke sobre o sublime.

Como historiador vinculado à teoria da história e à história política, pretendo apresentar outras perspectivas sobre como nos relacionamos com histórias de terror. Não se trata de afirmar quem está certo ou errado. Minha ideia é adicionar, incorporar e produzir reflexões que ampliem esse debate. Dialogar significa construir um contraponto no qual duas vozes podem cantar melodias diferentes dentro de uma mesma canção.

Minha relação com histórias de terror é profundamente marcada por uma experiência de temor em relação ao futuro próximo. No século XXI, o Antropoceno, época na qual a humanidade se tornou uma força geológica capaz de alterar o funcionamento do planeta Terra, associa o terror à possibilidade real de uma catástrofe climática. Nessa modalidade de histórias aterrorizantes, representada em diversas obras de ficção recentes, acompanhar a morte e a luta pela sobrevivência pode produzir, como na reflexão de Burke, uma experiência do sublime. Como escreve Dani, “o terror, desde que não ameace diretamente nossa existência, pode transformar-se em deleite.”

A sensação de deleite, portanto, está associada à possibilidade de autopreservação diante da possibilidade de uma experiência aterrorizante. Para Burke, porém, esse desejo de manter o terror distante não significa abandonar a empatia. “Por meio dela, somos capazes de nos colocar no lugar de outras pessoas e de compartilhar, pela imaginação, suas emoções.” No entanto, considerando histórias de terror narradas em filmes recentes de catástrofe natural ou produzida pelos humanos, o desejo individual de sobrevivência se sobrepõe à empatia pelo sofrimento.

A crítica literária alemã Eva Horn, ao analisar diversas narrativas ficcionais, aponta para a existência de uma biopolítica do desastre. Retomando o conceito de biopolítica formulado pelo filósofo francês Michel Foucault, Horn demonstra que, durante o terror das catástrofes, há um poder que seleciona aqueles que podem sobreviver.

No filme O dia depois de amanhã, lançado em 2004 pelo diretor Roland Emmerich, esse poder aparece na cena em que um cientista traça uma linha divisória no mapa dos Estados Unidos entre as regiões que serão salvas pelas ações governamentais. Partindo das reflexões de Horn, pretendo demonstrar como essa biopolítica permanece presente em filmes de terror com catástrofes naturais. Para tanto, falarei de dois filmes: A boca do diabo, do diretor Jeff Wadlow, e A última casa, de Louis Leterrier, ambos lançados em 2026 e disponíveis nos streamings Prime Video e Netflix.

A boca do diabo narra uma viagem de um grupo de amigos para a exploração de cavernas aquáticas na Tailândia. Em meio à exploração, o grupo é ameaçado pela presença de um imenso tubarão capaz de sobreviver em água doce. Cercados por água e pedras, os amigos precisam encontrar um caminho seguro para retornar. Desculpem o spoiler, mas, ao final, há apenas uma sobrevivente. Na cena final, ao encontrar a saída da caverna, a personagem celebra sua própria sobrevivência.

A cena se inicia em um close no rosto da personagem e, aos poucos, se distancia para revelar a diferença de tamanho da personagem e da caverna. Essa desproporção demonstra que a personagem celebra, mais que sua própria sobrevivência, a vitória diante de um desafio imenso. Ao contrário dos amigos mortos, ela conseguiu superar as adversidades e, por isso, mereceu permanecer viva.

Em A última casa, a humanidade enfrenta a ação de seres marinhos ancestrais que invadem o ambiente terrestre e impedem que as pessoas saiam de suas próprias casas. Para evitar a invasão dos seres marinhos, a família protagonista, composta por marido, esposa e um casal de filhos, mantém as cortinas fechadas para não serem vistos. Trancafiados em casa e com pouca visão do mundo exterior, a família cria inúmeras estratégias para sobreviver.

Ao final, mais um spoiler, a família reconhece que a mera sobrevivência é insuficiente. É preciso enfrentar os seres marinhos para conseguir escapar da casa. Durante o enfrentamento, o pai de família, encenado por Wagner Moura, poupa a vida de um dos monstros e, por isso, em um ato de compaixão e empatia, os monstros retornam para o mar e poupam a vida dos últimos seres humanos.

Apesar da empatia entre espécies diferentes, necessária para a vida no Antropoceno, o filme demonstra a sobrevivência como um ato de uma família singular capaz de superar as adversidades, enquanto os demais humanos sucumbem diante da tragédia. Na cena final, como navegantes de uma nova arca de Noé, a família torna-se responsável por buscar outros possíveis sobreviventes e reconstruir a vida em um planeta inundado pelo oceano.

Em ambos os filmes, o terror causado pela natureza ou por monstros demonstra um deleite afastado da possibilidade de uma empatia coletiva. O prazer do terror diz respeito à capacidade individual ou familiar de autopreservação. Na biopolítica do desastre, o sofrimento e a morte do outro parecem importar pouco frente à superação individual. Nesse deleite individual, há ainda uma separação entre presente e passado. Para aqueles que conseguiram escapar, o terror pertence unicamente ao passado e a sobrevivência é garantia da possibilidade de uma vida fora do horror.

Nesse sentido, a relação entre prazer, dor e empatia apontada por Dani na obra de Edmund Burke permanece válida na contemporaneidade. No entanto, observando narrativas de terror associadas a catástrofes naturais ou ambientais, a empatia parece estar centrada na salvação individual. Com isso, sinto que o terror real não está nas ameaças de tubarões ou monstros marinhos ancestrais, mas em uma imaginação que vincula a sobrevivência à capacidade de superação individual. Escapar desse terror certamente será um deleite compartilhado.

Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira

Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira

Professor de História do colégio de aplicação da Universidade Federal de Uberlândia e pós-doutorando em História pela Universidade de Brasília. É autor do livro A arquitetura fractal de Antonio Gramsci: história e política nos Cadernos do Cárcere e produtor de conteúdo no Instagram @marcusfsoliveira e no @pahistoria

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