Ymaguare, ko’ang e ára: como essas concepções indígenas de tempo foram levadas para uma aula de História

O professor de História Rodrigo Companhoni produziu uma apostila voltada para a percepção de tempo dos povos kaiowá e guarani.

Crianças guarani kaiowá na Comissão de direitos humanos na câmara dos deputados. Fotografia: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um elemento principal da disciplina História é o estudo dos registros humanos no tempo. Mas, nem sempre costumamos questionar nossas referências de tempo ou como chegamos até elas. Pensando no lugar que a percepção de tempo eurocêntrica/ocidental ocupa em nosso cotidiano e, principalmente, nas ausências dos materiais didáticos de História sobre outras percepções de tempo, o professor de história Rodrigo Vareiro Companhoni produziu um material didático voltado para a perspectiva dos povos indígenas kaiowá e guarani sobre o tempo/espaço.

Em seu trabalho para o ProfHistória, intitulado “Tempo, território e história: percepções do Ára – tempo/espaço – kaiowá e guarani”, defendido em 2020, na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, Companhoni contou com a participação de estudantes indígenas e não indígenas para colaborar na produção do material didático.

Inspirado pelo debate entre as percepções ocidental e kaiowá e guarani, Companhoni elaborou um material que entrelaça essas diferentes visões de mundo e pode enriquecer bastante o debate em sala de aula.

Ára: tempo/espaço kaiowá e guarani

Companhoni propôs duas oficinas para estudantes de graduação dos cursos de Ciências Sociais e História da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul. As oficinas foram voltadas para a percepção de tempo de cada estudante, a fim de gerar um debate sobre as diferenças que surgiriam, já que as turmas eram formadas por estudantes indígenas e não indígenas.

O professor convidou o professor kaiowá guarani Geraldo Domingues para conversar com os estudantes sobre a temporalidade de seu povo. Domingues destacou as duas principais formas de tratar sobre o tempo dos kaiowá e guarani, o ymaguare, um tempo passado voltado para a ideia de ancestralidade e resgate de tudo aquilo que lhes foi retirado no contato com não indígenas, e o ko’anga, associado a um presente de lutas, pela conquista de direitos, tanto do território, quanto de sua história.

Companhoni destaca que no entrelace do ymaguare e do ko’anga está o ára, uma percepção de tempo que não está associada apenas à passagem das horas do relógio. Ela envolve também o espaço, ou seja, as narrativas kaiowá e guarani costumam sempre destacar onde cada experiência ocorreu, ou os caminhos percorridos ao longo de cada história, como a travessia de uma estrada ou de um rio. Além disso, o ára também leva em consideração o significado dos encontros narrados, que podem estar voltados para uma festividade familiar, a prática de um esporte ou uma atividade econômica, por exemplo.

O material didático

A apostila produzida por Companhoni teve como base as oficinas realizadas com os estudantes kaiowá e guarani, na UEMS. O material está organizado em 8 capítulos, que abrangem uma abordagem crítica sobre a percepção do tempo no mundo ocidental, um breve histórico sobre o povo kaiowá guarani e uma rica discussão sobre a maneira como esses povos percebem o ára. Os capítulos são seguidos de propostas de debate em sala de aula, com indicações de referências bibliográficas e audiovisuais, que podem ser incorporadas às aulas.

O material didático teve como base as oficinas realizadas por Companhoni com os estudantes kaiowá e guarani, na UEMS. Nelas, o professor de história conversou com os graduandos sobre a percepção de tempo ocidental e suas relações com o consumo, o capitalismo e o mundo do trabalho. Após essa discussão, o professor pediu aos estudantes que fizessem desenhos sobre a infância, juventude e vida adulta de cada um.

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Desenho da graduanda kaiowá guarani Martira Alemida para a oficina do professor Rodrigo Companhoni. Foto: Rodrigo Companhoni.

Essa proposta favoreceu a expressão da passagem de tempo para os estudantes indígenas, que apresentaram e debateram sobre seu cotidiano, com representações do calendário, festividades, lazer e religiosidade kaiowá e guarani. Essas ilustrações foram utilizadas por Companhoni na apostila, não apenas para ilustrar o cotidiano kaiowá e guarani, mas também como forma de compartilhar seus conhecimentos e saberes.

Um elemento apresentado por um dos estudantes foi a valorização dos mais velhos. Seu desenho remete ao “tempo antigo”, que é representado como um período onde ainda não havia a presença da colonização. O estudante, ao associar passado e presente, desenha também pessoas mais jovens que se utilizam da tradição indígena na atualidade. Essa representação ajuda no entendimento de que para os kaiowá e guarani não se caminha para a frente sem se retomar aos ensinamentos ancestrais.

Outro destaque de Companhoni em seu material didático é o tempo Ko’erõ, associado ao futuro. Esse tempo diz respeito às imprevisibilidades presentes na trajetória do povo kaiowá e guarani e aos novos elementos que surgem com o passar do tempo e as relações humanas. O futuro Ko’erõ rompe com as ideias preconceituosas de que os povos indígenas estariam “parados no tempo”, sem perspectivas de mudanças. Ao contrário, indica possibilidades de se utilizar da ancestralidade para inscrever novas possibilidades de futuro.

O trabalho elaborado por Companhoni é uma contribuição para a educação antirracista. Vale o destaque de que o professor não se restringiu à proposta didática para a educação básica e realizou atividades com professores em formação. Todo o material elaborado é gratuito e pode ser acessado clicando aqui.    

Thaís Pio Marques

Faz parte da equipe do Café História, onde realiza estágio voluntário. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação fez parte do Grupo PET Conexões de Saberes – Licenciaturas, voltado para a elaboração e desenvolvimento de Projetos pedagógicos interdisciplinares. Atualmente, organiza o perfil de Instagram “Poesia e oralidade”, onde compartilha textos breves sobre competições de poesia (slams) e seus participantes. O trabalho na rede social é
articulado aos estudos sobre História Oral e História Pública.

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