Uma historiadora no audiovisual: o que aprendi pesquisando para o documentário “Cazuza: boas novas”

Em 2022, fui chamada para realizar uma pesquisa histórica para o documentário “Cazuza: Boas Novas”, dirigido por Nilo Romero e Roberto Moret e lançado dia 17 de julho de 2025. Aqui está um pouco do que aprendi sobre este caso de História Pública.
4 de agosto de 2025
Uma historiadora no audiovisual: o que aprendi pesquisando para o documentário “Cazuza: boas novas” 1
"Cazuza: boas novas". Foto: divulgação.

Há três anos, em 2022, recebi o convite para fazer uma pesquisa histórica para o longa documentário “Cazuza: boas notas”, dirigido pelos brasileiros Nilo Romero e Roberto Moret – uma oportunidade muito interessante de fazer aquilo que os historiadores chamam hoje de “História Pública”. Como briefing, me foi explicado que o interesse dos diretores era fazer um documentário sobre os últimos anos de vida de Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, começando em 1987 e terminando com a sua morte, em 7 de julho de 1990. E, certamente, as primeiras perguntas que apareceram na minha cabeça foram: “legal, mas, por que contar essa história”? e “como fazer esse recorte”?

Sobre o porquê, para além do aniversário da morte de Cazuza, que esse ano completou 35 anos, havia um desejo pessoal do compositor e produtor musical Nilo Romero em contar a história de um jovem, que, no auge de sua carreira como cantor e compositor, descobriu que estava com o HIV, o vírus da AIDS, doença para a qual até então não havia tratamento eficaz, sendo o seu diagnóstico uma espécie de “sentença de morte”. 

Cazuza e Romero tiveram uma parceria musical intensa, principalmente a partir do momento em que Nilo conheceu Cazuza, após este já estar com a banda de rock Barão Vermelho. Nilo também foi      diretor musical de Cazuza, além de ter sido coprodutor do álbum “Ideologia” e baixista na turnê “O Tempo Não Para”, cuja direção de palco coube a Ney Matogrosso, parceria marcada por profunda amizade e sensibilidade artística. Nesse período, 1987-89, Cazuza fez mais de 40 shows, deu muitas entrevistas para emissoras de TV e programas de rádio e compôs e gravou canções que marcaram a história do rock nacional enquanto travava sua dura luta contra a doença.

Para realizar uma pesquisa histórica

Para realizar uma pesquisa histórica, é necessário conhecer o seu objeto para depois poder realizar um recorte mais preciso do que se quer falar. E p ara fazer isso a serviço do audiovisual é necessário encarar que, para além de conhecer o objeto é fundamental poder mostrar o que se quer falar, por documentos de arquivo ou de depoimentos, levando em consideração que não cabe ao historiador fazer a seleção do que vai ser revelado ao final, e sim permitir, por meio de uma boa pesquisa com documentos escritos,      de imagem e sonoros, além de lista de perguntas e sugestões – caso seja solicitado – que essa narrativa possa ser contada de diversas formas possíveis.

A pesquisa histórica não acadêmica deve ser fácil de ser compreendida, organizada e escrita de maneira que tudo o que for exposto nela possa ser rapidamente visualizado por qualquer profissional da área do audiovisual que a leia, pois ela serve como guia para a elaboração do roteiro audiovisual. Mais importante do que listar um número enorme de fontes que corrobore com uma determinada ideia que se quer discutir, é ser capaz de selecionar aquelas que irão contribuir para o desenrolar de uma determinada história, que, muitas vezes, nem se sabe como será até a leitura da própria pesquisa.

Assim, percebi que para falar daquele período específico que me foi solicitado, a pesquisa deveria contemplar não só o Cazuza do recorte, mas Cazuza da infância até a morte, abordando aspectos fundamentais como, por exemplo, como era a juventude dos anos 60, 70 e 80, qual era o cenário econômico, qual era o cenário político, que músicas eram ouvidas, quando surge a pandemia da AIDS, como ela chega ao Brasil, o que significava ter aids naquele momento e como a sociedade encarava a doença.

Através desse cenário maior, pode ser entendido porque foi importante para Cazuza cantar o amor, como em “Codinome Beija-flor”, cantar a política como em “Brasil” ou cantar sobre a morte e a liberdade de poder falar sobre ela, como na canção “Boas Novas”. Nesse tipo de trabalho, os arquivos de mídia, (TV e áudio) são extremamente importantes e saber técnicas de história oral permite ao historiador – o primeiro a conhecer de fato o material- identificar nele o que falta e sugerir, através das técnicas de entrevistas e de perguntas, como suprir essas lacunas.

O que vi no filme

Ao ver o filme, fiquei surpresa de ver uma obra leve, afetiva, feita com depoimentos de amigos próximos, que consegue retratar de forma muito delicada a juventude de Cazuza e, mais do que isso, dar a ele humanidade. A fragilidade de Cazuza naquele momento não aparece só nas imagens de arquivo de Cazuza, mas nos depoimentos dessa geração dos anos 60 que, ao olhar para trás, revive aquele instante através de seus relatos. Aliás, esse, para mim, é o grande mérito do filme: conseguir, através dos depoimentos, ver essa geração repensar aquele momento por um Cazuza muito próximo, que era filho e amigo, para além de cantor e compositor.

Cazuza: Boas Novas está em cartaz em mais de 60 salas de cinema em todo o Brasil, possui imagens inéditas de arquivo de amigos, como a festa de casamento de Jorge Israel – compositor e saxofonista brasileiro mais conhecido pelo grande público pela sua participação na banda Kid Abelha, depoimentos marcantes como os de Leo Jaime e Ney Matogrosso, além de um ótimo trabalho de som e seleção musical.

Houve também a delicadeza de selecionar um material de arquivo que desse conta de mostrar o que Cazuza estava enfrentando, mas também como enfrentava a doença – com bom humor, personalidade e sem a colocar na frente da sua vontade de se expressar como artista. O filme agora faz parte de um conjunto de documentários que nos permite conhecer melhor um momento da história da música e da juventude no Brasil, principalmente a carioca, e é uma boa forma de apresentar Cazuza, usando as próprias palavras do artista e de seus pares, para as gerações mais jovens e para aquelas que desejam revisitar esse momento.  

  

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Como historiadora, ver o filme me mostrou como existem inúmeras possibilidades de interpretação do material que colhemos através da montagem. Tal como um livro, que, ao ser lido, pode suscitar inúmeras interpretações, a utilização de uma pesquisa também possibilita uma série de narrativas. Cabe ao historiador, através do respeito às fontes, tentar realizar o melhor trabalho possível, sempre sendo claro em relação às referências (onde consultou, quando consultou) no tempo solicitado, sem que isso prejudique a obra e o objeto de estudo. Além disso, é importante salientar que o trabalho com memória em documentários é sempre delicado, porque mexe com dimensões íntimas do nosso objeto – o que ele representa ou representou em um determinado momento – e com as memórias dos entrevistados.

Reconhecer a minha pesquisa na tela, me deu uma dimensão muito palpável da importância do trabalho do historiador – ver, de forma concreta, a história de Cazuza virar um documento que pode nos levar a diversas discussões, dentro ou fora da academia, seja de forma afetiva, de entretenimento ou de análise de um momento que muitas vezes pode revelar mais do nosso momento atual do que do momento passado. Afinal, por que a história é importante? Sem ela, somos algo?

Como citar este artigo

DUARTE, Aline. Uma historiadora no audiovisual: o que aprendi pesquisando para o documentário “Cazuza: boas novas” (artigo). In: Café História. Publicado em 25 de agosto de 2025. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/uma-historiadora-audovisual-cazuza. ISSN: 2674-5917.

Aline Duarte

Aline Duarte

Mestre em História Social da Cultura e Bacharel com Licenciatura em HIstória pela PUC Rio . Trabalhou como pesquisadora para o Arquivo Nacional, Museu da República e TV Globo. É roteirista e formada em Direção Cinematográfica pela AIC-RJ (2021). Tem como áreas de interesse: História da cidade do Rio de Janeiro e reformas urbanas, História da Educação, Formação da Identidade Política Nacional (de 1889 a 1945), Cinema, Cinema e História, roteiro e montagem, o papel e representação dos filmes e séries nos nossos dias.

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