O que um historiador da saúde tem a dizer sobre a pandemia do novo coronavírus?

“As repostas insuficientes a esta pandemia são o resultado de anos de respostas insuficientes aos problemas de saúde como um todo. Como no passado, hoje, a ausência de liderança de governantes, assim como a xenofobia, a desinformação, o pânico, a desordem e o caos também agravam a calamidade sanitária”.

Bruno Leal entrevista Marcos Cueto

Ha cerca de quatro meses, pela primeira vez, uma pessoa na China contraiu a Covid-19, não se sabe ainda muito bem como ou em quais circunstâncias. Desde então, entretanto, o vírus, popularmente conhecido como “novo Coronavírus”, se espalhou pelo mundo, a ponto da Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar estado de pandemia.

No momento em que este texto é escrito são mais de 302 mil pessoas infectadas, distribuídas por mais de 150 países. No Brasil, o número de mortos já está na casa das dezenas. A Itália, epicentro agora do contágio, conta os seus mortos na casa dos milhares. Na Espanha, a pandemia também avança, assim como nos Estados Unidos. As autoridades públicas preveem uma catástrofe global que pode durar meses.

Embora pandemias sejam quase sempre discutidas e examinadas por sanitaristas, microbiologistas e infectologistas, entre outros profissionais da área médica, os historiadores da saúde e da ciência também têm o que dizer sobre esse tipo de fenômeno. Em entrevista exclusiva ao Café História, o historiador peruano Marcos Cueto, editor científico da Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, da Casa Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e professor desta mesma instituição, explica que as respostas insuficientes de diversos sistemas de saúde a atual pandemia se deve, entre outros motivos, a anos de desinvestimento neoliberal. 

Coronavirus, Marcos Cueto
Marcos Cueto, Historiador da Saúde. Fonte: COC/Fiocruz

“As políticas neoliberais que se extenderam pelo mundo desde os anos 1980 enfatizaram a redução do Estado a uma estrutura mínima, promoveram a privatização de serviços e empresas públicas, exaltavam o lucro das empresas privadas no setor da saúde, criaram tarifas sobre os serviços sociais estatais; tudo com o falso pretexto de que assim criariam bem-estar para todos. Com as mudanças neoliberais, muitos sistemas de saúde adotaram um mal entendido “gerencialismo” e passaram a empregar termos que até então eram desconhecidos na área da saúde, por exemplo, referindo-se a pacientes como ‘clientes’ a quem tinham de satisfazer com ‘eficiência’, ‘qualidade’ e ‘produtividade’.”

Confira, na íntegra, como foi essa conversa com Marcos Cueto, realizada a distância.

Eu não quero reivindicar nenhum tipo de “história mestra da vida”, ou seja, nenhuma ideia de história que “explica” ou que “ilumina” os nossos passos no presente. Mas o que a história da ciência e da saúde, especialmente a história das grandes epidemias, pode nos ensinar a fim de enfrentar a crise que estamos vivendo hoje?

Esse episódio revela os grandes problemas da história e da sociedade contemporânea: saúde e enfermidade não são somente assunto de cientistas e sanitaristas e que há sempre uma dimensão política envolvida. Em termos históricos, esta pandemia revela como, nos últimos anos, governos autoritários populistas de direita atacaram com torpeza a ciência e a saúde pública, além de diminuírem os recursos da pesquisa cientifica e do sistema público de saúde. As repostas insuficientes a esta pandemia são o resultado de anos de respostas insuficientes aos problemas de saúde como um todo. Como no passado, hoje, a ausência de liderança de governantes, assim como a xenofobia, a desinformação, o pânico, a desordem e o caos também agravam a calamidade sanitária.  

Parece-me que uma diferença importante entre esta pandemia e outras, no passado, é a enorme circulação social de dados e informações. Todos os dias aparecem em nossas telas de celular dados sobre a doença, possíveis tratamentos e remédios miraculosos, artigos científicos e especialistas de todo tipo falando o que fazer e o que não fazer. Você concorda? Se sim, em que medida esse novo cenário nos faz entender a ciência e a saúde de uma forma também diferente?

Sim, concordo. Nos últimos anos, epidemias como Aids, H1N1, Ebola e Zika foram também discutidas pela internet, mas, sem dúvida, com o Covid-19 a intensidade deste debate é muito maior. Alem disso, o conhecimento e o aprendizado do público leigo são maiores. Experiências similares têm colocado em discussão o conceito “Ciência cidadã”, definida como os esforços de cidadãos informados não adscritos em comunidades médicas profissionais por comprender e mudar as politicas sanitárias. Líderes comunitarios, agentes de saúde, ativistas, jornalistas e público leigo intervem e tem que intervir no conteúdo e no uso da ciência médica e da saúde. O ideal é criar mecanismos para melhorar não somente a governança ambiental e sanitária, mas também para assegurar a participação das comunidades na tomada de decisões e participação nos programas sociais.  

Fomos negativamente surpreendidos pela velocidade de propagação do Covid-19. Porém, estamos sendo surpreendidos também por algo positivo no meio disso tudo: uma enorme solidariedade entre cientistas e institutos de pesquisa. Há uma grande troca de informações sobre a doença, o que talvez nos ajude mais rapidamente a encontrar uma cura ou um tratamento. Será que o paradigma da “ciência aberta” sai fortalecido desta crise global?

Sem dúvida, a ciência aberta facilitará a rápida disseminação de resultados de novas pesquisas e experiências sanitárias. Mas os periódicos científicos no mundo que oferecem acesso aberto aos artigos são mais ou menos 30 % dos periódicos mundiais; uma quantidade insuficiente. Outro problema: infelizmente, acho que a colaboração entre cientistas e sanitaristas não está sendo totalmente valorizada e estão sendo criados novos obstáculos políticos para que isso ocorra. Por exemplo: a xenofobia contra a China – de um congressista brasileiro filho do Presidente da República e pelo Presidente dos EUA – pode impedir uma maior colaboração com um país que têm pesquisas fundamentais. Além disso, no caso Brasileiro não há um esforço a fim de formar uma coalisão nacional e nem de recrutar o apoio de sanitaristas que desempenharam um trabalho de destaque nos governos de Lula e de Dilma, bem como o de organizações de prestígio internacional, caso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), uma organização que vinha criticando os efeitos perversos do congelamento de recursos, os cortes de gastos e o desfinanciamento do Sistema Único de Saúde (SUS).  

Aqui é importante recordar ainda as palavras do editor da revista Science, o pesquisador H. Holden Thorp, que criticou recentemente Donald Trump depois que o presidente norte-americano pediu rapidez dos cientistas no desenvolvimento de uma vacina contra o Covid-19: “Você atacou a ciência nos últimos 4 anos, cortou verbas, chamou os cientistas de mentirosos e agora quer velocidade? Ciência não se faz da noite para o dia.”

Em artigo recente publicado em História, Ciências, Saúde – Manguinhos (HCSM), você sublinha que a pandemia de Convid-19 é produto, dentre outras coisas, de forças econômicas que desencadearam o neoliberalismo. Como o avanço do neoliberalismo pode nos ajudar a compreender o desencadeamento desta crise e suas consequências?

As políticas neoliberais que se extenderam pelo mundo desde os anos 1980 enfatizaram a redução do Estado a uma estrutura mínima, promoveram a privatização de serviços e empresas públicas, exaltavam o lucro das empresas privadas no setor da saúde, criaram tarifas sobre os serviços sociais estatais; tudo com o falso pretexto de que assim criariam bem-estar para todos. Com as mudanças neoliberais, muitos sistemas de saúde adotaram um mal entendido “gerencialismo” e passaram a empregar termos que até então eram desconhecidos na área da saúde, por exemplo, referindo-se a pacientes como “clientes” a quem tinham de satisfazer com “eficiência”, “qualidade” e “produtividade”.

Mais graves ainda foram as ideias de que as intervenções na área da saúde tinham que ser “custo-efetivos” e uma clara uma contribuição ao crescimento econômico o que questionava o conceito da saúde como um direito cidadão e uma obrigação do Estado. Isso induziu ao abandono de programas abrangentes nos sistemas de saúde. A prevenção, a equidade, a cobertura e a vigilância epidemiológica ja não foram prioridades nos sistemas de saúde.

Em que medida essa pandemia pode impactar a forma como historiadores da saúde fazem suas pesquisas? Como a história global pode contribuir para a análise do Covid-19?

A história global sem dúvida permite não somente comparações entre a evolução dos sistemas de saúde do Brasil e a Europa, como também a observação dos contrastes e das similitudes com os países vizinhos ao Brasil. Nas respostas ao Covid-19, o governo brasileiro esta muito mais atrás que lideranças na Argentina e no Peru, que têm uma postura muito mais responsável.

Coronavirus
Pesquisadores no mundo inteiro estão pesquisando o Covid-19. Foto: Unplash

Na história da saúde das últimas décadas, enfatizou-se bastante a história cultural e procurou-se iluminar aspectos fundamentais do passado; mas depois de esta epidemia, poderíamos dar maior importância a história das politicas sanitárias, aos eventos sanitários que mobilizam a sociedade contemporânea ou abordagens na área da saúde que envolvam o meio ambiente, as mulheres e doenças negligenciadas. Além disso, os historiadores da saúde tem que entrar com maior empenho no debate da História Pública e da Divulgação Científica e interagir com públicos mais amplos que o da própria academia.

Marcos Cueto é historiador, editor científico da Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, e professor da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, autor de trabalhos sobre epidemias no Perú e na América Latina e coautor, com Theodore M. Brown e Elizabeth Fee, de um livro sobre a história da Organização Mundial da Saúde intitulado The World Health Organization, a History (New York: Cambridge University Press, 2019).

Bruno Leal Pastor de Carvalho é fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social (UFRJ, 2015). Foi professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas. Foi cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ entre 2011 e 2018. É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.

Como citar esta entrevista

CUETO, Marcos. O que um historiador da saúde tem a dizer sobre a pandemia do novo coronavírus (Covid-19)? Entrevista de Marcos Cueto a Bruno Leal. In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/um-historiador-da-saude-fala-sobre-novo-coronavirus/. Publicado em: 30 mar. 2020. Acesso: [informar data].

3 Comentário

  1. É sempre muito problemático termos que esperar as instituições e os modelos sociais colapsarem para que tomemos consciência de que os mesmos não se sustentam nos moldes estabelecidos pelas elítes. Mesmo com anos e anos de estudos e estudiosos de várias áreas sempre defendendo um molde diferente. Torcer para aprendermos e melhorarmos com isso tudo, todavia não sou otimista. O dinheiro sempre se sobrepõe à tudo e todos. Excelente entrevista.

  2. Essa série de trazer intelectuais de várias área é bastante interessante e acrescenta muito ao debate. Espero que continuem trazendo análises de pesquisadores de outras áreas, como filosofia, psicologia social, ciência política etc. Grande abraço!

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