“Tempo de Guerra” (no original “Warfare”) é um longa de 1h 35min que reconstrói, com intensidade quase documental, o cerco vivido por um pelotão de Navy SEALs na cidade de Ramadi em 2006, durante a Guerra do Iraque. Dirigido por Alex Garland (“Guerra Civil” e “28 Years Later”) e pelo ex-fuzileiro Ray Mendoza — cujas memórias inspiraram o roteiro — o filme acompanha um grupo de soldados (D’Pharaoh Woon-A-Tai, Charles Melton, Joseph Quinn e Cosmo Jarvis) que ocupa a casa de uma família local para vigiar movimentações insurgentes. Ao serem descobertos, eles enfrentam um ataque coordenado com granadas e tiros, e precisam sobreviver até a chegada de reforços, lidando com ferimentos, baixas e o caos absoluto do combate.
“Tempo de Guerra” é uma das grandes apostas da A24 para 2025, esperando repetir o sucesso de “Guerra Civil”, a grande produção dos estúdios em 2024, com Wagner Moura no elenco. A grande questão que me fiz ao final do filme foi: essa obra posiciona-se politicamente? Essa pergunta, penso, é fundamental em qualquer filme sobre guerra.
“Tempo de Guerra”: existe um tempo da política?
Eu não acredito que filmes de guerra possam ser apolíticos. Logo, minha questão deslizou para: qual o efeito político de “Tempo de Guerra”? A cena inicial do filme, com os soldados em coros quase símios diante da TV com imagens sensuais de mulheres fazendo ginástica, somada à família que se torna refém e à casa completamente destruída depois da missão de resgate, bem como a do sargento impossibilitado de comandar após um ataque devastador e traumático, são indícios, para mim, de que o filme se posiciona politicamente contra a guerra.
A violência assume um papel quase sexual em alguns momentos-chave, e se o filme parece apolítico, é porque os soldados são ensinados a ver a guerra como emprego, um job, uma incursão que na noite furtiva quebra a casa das pessoas como se fosse parte de uma missão qualquer, desprovida de qualquer consequência.
A grande questão é que essa leitura do filme não é nem um pouco evidente. Para um público global acostumado a grandes blockbusters, “Tempo de Guerra” corre um grande risco de soar como um filme apolítico, uma narrativa neutra que busca apenas documentar o que aconteceu naquela casa durante a Guerra do Iraque. Se contexto, sem explicações.
As fotos do final do filme sustentariam bem essa análise. Na verdade, eu iria até além: talvez, para a maioria das pessoas, os soldados aparecerão como heróis. São eles, afinal, que têm fala, são eles que lutam, são eles que são os protagonistas, enquanto os demais são sombras mudas.
Esse é o principal problema de “Tempo de Guerra”. Ele parece indeciso quanto ao que deseja mostrar, e nisso a balança pende para a ideia de uma narrativa sem posição política, que rende tributo aos heróis.
Isso aconteceu com “Guerra Civil”. O filme não tem uma posição política evidente, embora seja possível ver o trumpismo na figura do presidente ditador. Mas isso é dosado tão pouco, que o filme pode simplesmente passar por uma narrativa puramente de ação, onde o que importa não são os lados envolvidos, e sim a liberdade de imprensa.

Por que “Tempo de Guerra” e “Guerra Civil” têm isso em comum? Talvez seja uma preocupação com a audiência: se tais filmes forem um manifesto contra a guerra e contra a extrema-direita, comercialmente os projetos seriam um fracasso, desagradando uma parcela significativa do público, isso é, os republicanos. Mas isso é apenas uma hipótese. O fato, contudo, me parece claro: “Tempo de Guerra” é tecnicamente ótimo, com a nata da jovem geração de atores, mas fracassa na sua mensagem política.
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