Psicanalista Eliane Schermann fala sobre a pandemia do novo coronavírus
Entrevista

O que uma psicanalista tem a dizer sobre a pandemia do novo coronavírus?

“Eu também me indago se a humanidade consegue estruturar-se de uma nova forma. Freud escreve uma bela carta em resposta a Einstein ao ser por ele indagado “Por que a guerra?”. Nesta carta de 1932, ele se pergunta sobre os problemas da civilização e se existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra. Freud fala então sobre os progressos da ciência que vinham adquirindo suma importância e discussão sobre os assuntos relativos à vida e à morte, ao além do principio do prazer. Discorre sobre diversas questões como a busca do homem por segurança e por coletividade, muito embora fosse subjugado por preceitos e preconceitos até chegar a questionar se seria possível controlar a evolução da mente humana de modo a torná-la à prova do ódio e da destrutividade. Então ele afirma que há no psiquismo o predomínio da pulsão de morte sobre a qual já vinha discutindo em suas obras desde os anos 20. Lá se vão 100 anos! Para então Freud concluir que a civilização se desenvolve através do fortalecimento da reflexão sobre a ambiguidade entre pulsões de vida e de morte e, predominantemente, ao refletir sobre o domínio da pulsão de morte que luta contra Eros.

No entanto, resta-nos a esperança ao nos basearmos nos ditos dos psicanalistas e pensadores da atualidade. Há um discurso que questiona constantemente os saberes estabelecidos. Lacan o chama de discurso da histérica. A impotência de saber que seu discurso provoca, animando-se do desejo de criar novos saberes, revela que há uma impossibilidade de governar assim como é impossível educar. Freud já o dizia: existem três saberes que são da ordem do impossível – educar, governar e psicanalisar. Isto porque são da ordem do registro real que sempre surpreende. E que provocam a criação de algo novo!”

Oswaldo Cruz examina microscópio em laboratório de Manguinhos, observado por seu filho Bento Oswaldo Cruz e por Burle de Figueiredo
Artigo

Oswaldo Cruz contra as epidemias: saúde pública e questão social no início da República

“Grande parte das demolições ocorridas na cidade foi uma exigência da Prefeitura do Rio de Janeiro, outra importante força de transformação sanitária da cidade. Na época, estava em curso um grande processo de urbanização da capital conduzido pelo então prefeito Pereira Passos. As “picaretas regeneradoras” de Passos, expressão cunhada pelo escritor Olavo Bilac, deveriam expurgar, principalmente das áreas centrais, o que restava das construções coloniais. Centenas de famílias foram afetadas por esse projeto de remodelação urbana. Foi neste momento, por exemplo, que vários candomblés estabelecidos no centro da cidade foram obrigados a se transferir para os subúrbios.Mais de duas mil habitações e prédios comerciais vieram abaixo, sendo os seus habitantes mais pobres despejados sem destino e endereço pré-estabelecidos. O propósito não foi apenas estético e nem simplesmente em prol das condições de higiene; foi também econômico, pois era preciso facilitar o tráfego de mercadorias no entorno do porto, na Praça Mauá. De acordo com o historiador Nicolau Sevcenko,’“O antigo cais não permitia que atracassem os navios de maior calado que predominavam então, obrigando a um sistema lento e dispendioso de transbordo. As ruelas estreitas, recurvas e em declive, típicas de uma cidade colonial, dificultavam a conexão entre o terminal portuário, os troncos ferroviários e a rede de armazéns e estabelecimentos do comércio de atacado e varejo da cidade. As áreas pantanosas faziam da febre tifoide, impaludismo, varíola e febre amarela, endemias inextirpáveis'”.

A influenza na Bahia é política, diz jornal em 1918
Artigo

Quando o flagelo bate à porta: a epidemia de “gripe espanhola” na Bahia

“A epidemia de gripe espanhola na Bahia obedece ao padrão desenvolvido por Rosenberg, ainda que guarde as especificidades próprias do lugar e da época. Não se sabe ao certo quando a gripe chegou a Salvador, cidade portuária com conexões transcontinentais. Os primeiros registros surgiram depois o paquete inglês Demerara atracou na cidade, no dia 11 de setembro de 1918. Dias depois, passageiros que desembarcaram em Salvador, morreram com diagnóstico de gripe. Extremamente contagiosa, a doença se espalhou rapidamente. O número significativo de adoecimentos chamou a atenção dos jornais, que já repercutiam as notícias sobre a epidemia em curso no cenário da guerra. Pressionados pela imprensa, médicos, autoridades públicas e sanitárias apressaram-se a negar o fato ou a minimizar os seus efeitos. A gripe figurava nas estatísticas da Diretoria Geral da Saúde Pública da Bahia (DGSPB), mas os óbitos decorrentes dessa doença eram considerados insignificantes se comparados com as taxas de mortalidade provocadas por males como a disenteria, a malária, a peste, a varíola, a febre amarela e, sobretudo, a tuberculose. Contribuía, também, para que as autoridades ignorassem a existência de uma epidemia, o fato de a gripe não ser doença de notificação compulsória, o que dispensava a obrigatoriedade de os casos serem reportados às autoridades sanitárias, invisibilizando-os.”