São tantas as distrações e estímulos que encontramos no nosso dia a dia que estamos desacostumados a consumir filmes longos. Alguns poderiam justificar que nem todo filme grande é um grande filme, com razão. Mas este é o caso aqui: “O Brutalista” é um filme longo sobre trauma que nos provoca e impressiona, para além de inquirir se o que importa mesmo é a jornada ou o destino.
Lázsló Tóth (Adrien Brody) escapou dos nazistas e chegou à América. A visão que promete uma nova oportunidade é a mesma tantas vezes repetida: a vista da Estátua da Liberdade a partir do navio. Mas não é a estátua que se ergue no horizonte: a câmera escolhe mostrá-la na horizontal. Esta não é uma história sobre o Sonho Americano. Ou talvez seja, para criticá-lo.
Nova York não é a última parada para László. Ele segue até a Pensilvânia, onde mora seu primo Attila (Alessandro Nivola). Lá ele faz um esforço junto ao rabino para trazer sua esposa e sobrinha da Áustria, ao mesmo tempo, em que começa a trabalhar projetando móveis para a loja do primo.
László e Attila se desentendem e László sai do quartinho que ocupava na loja do primo. Mas algum tempo depois a sorte parece voltar a sorrir para ele quando é procurado pelo milionário Harrison Van Buren (Guy Pearce), para quem havia projetado uma biblioteca. Com os amigos influentes de Harrison, László vê novamente a chance de se reencontrar com sua esposa e sobrinha. Por outro lado, ele se afunda no uso de drogas para aplacar a dor causada por um acidente dos tempos da guerra.
Harrison contrata László para construir um centro comunitário em sua imensa propriedade, em honra à memória de sua falecida mãe. E então o arquiteto se reúne com sua esposa Erzsébet (Felicity Jones), agora confinada em uma cadeira de rodas por causa da osteoporose, e a sobrinha Zsófia (Raffey Cassidy), muda devido a um trauma. Parece a oportunidade perfeita para recomeçar… mas será?
Olhando para o passado para obter inspiração
Brutalismo é um movimento arquitetônico que surgiu no Reino Unido no pós Segunda Guerra Mundial. Foi marcado pelo uso de concreto bruto, pela adoção de formas geométricas pesadas na construção e o encontro entre o funcional e o baixo custo, sendo o mais famoso arquiteto do movimento Le Corbusier. No Brasil, alguns adeptos da arquitetura brutalista foram Paulo Mendes da Rocha, João Vilanova e Lina Bo Bardi – sim, o MASP é brutalista, assim como o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Em conversa com Harrison, László diz que escolheu ser arquiteto pela durabilidade de seus projetos: mesmo com a destruição causada pela Segunda Guerra Mundial, muitos dos prédios que projetou em Budapeste permanecem de pé, como uma demonstração de criatividade e liberdade. É uma resposta poética, diz Harrison, mas verdadeira. Quem, afinal, nunca pensou em seu legado profissional?
Attila representa bem aqueles que imigraram para os Estados Unidos fugindo da ameaça nazista. Ele muda seu nome – de Mólnar, passa a se chamar Miller -, se converte ao catolicismo para se casar com uma mulher norte-americana e abre uma pequena empresa familiar só no nome, já que ainda não constituiu família. Uma americanização completa, enaltecida em filmes como “Americanização” (1912), da bem-recebida Alice Guy, e criticada no caso da nossa Carmen Miranda, que depois cantaria em tom jocoso que “Disseram que eu voltei americanizada”.
László conta que estudou na Bauhaus, prestigiosa escola de belas-artes vanguardista que foi destruída pelo nazismo. E Erzsébet também tem uma trajetória atípica para mulheres da época: estudou inglês em Oxford e depois Comunicação na Áustria, para escrever sobre relações internacionais para um grande jornal do seu país. Nos Estados Unidos, é contratada para escrever sobre assuntos femininos, ou seja, futilidades.
“O Brutalista” foi o primeiro filme gravado em Vistavision desde 1961. Para quem vê o filme pela televisão, não faz diferença, mas ela pode ser observada na tela do cinema. O Vistavision é um processo de filmagem que usa a película em 35mm horizontalmente com lentes esféricos de altíssima resolução. O que torna tudo mais impressionante é saber que o filme foi rodado em apenas um mês e com um orçamento reduzido de quase 10 milhões de dólares – por comparação, os também indicados ao Oscar de Melhor Filme “Wicked” e “Duna – Parte II” custaram respectivamente 100 e 190 milhões de dólares.

“O Brutalista” repete a estrutura de uma introdução, duas partes bem divididas da trama, um breve intervalo entre elas, e um epílogo, estrutura encontrada em clássicos épicos como “E o Vento Levou…” (1939) e “Lawrence da Arábia” (1962). Falando em clássicos, este filme ou foi amplamente inspirado em, ou foi uma imensa coincidência ter tantas semelhanças com “Vontade Indômita” (1949), dirigido pelo grande e infelizmente esquecido King Vidor, a quem o diretor Brady Corbet, ganhador do Globo de Ouro, só pode inspirar a um dia se equiparar.
Numa época de crescente xenofobia e na qual os poderosos se sentem cada vez mais no direito de fazerem o que quiserem com outros seres humanos, “O Brutalista” traz uma história ambientada no passado que soa muitíssimo atual. O cinema sempre fez perguntas difíceis e gerou reflexões poderosas. Adicione mais este ao rol dos questionamentos: os Estados Unidos são terra de oportunidades para quem?