ProfHistória: mestrado profissional em ensino de História

Entrevista com Marieta de Moraes Ferreira (FGV e UFRJ)

Neste mês de agosto, mais de 100 professores de História em todo país vão começar o primeiro mestrado profissional em Ensino de História do Brasil: o ProfHistória, que também está no Facebook. Em seu primeiro ano de atividade, os números são significativos: 12 universidades participantes, 1000 candidatos inscritos, 130 aprovados e 95 professores envolvidos. O objetivo principal? Favorecer o aprimoramento do professor de História em sala de aula. Para entender melhoro como funciona o ProfHistória, conversamos com a historiadora Marieta de Moraes Ferreira, especialista em ensino de História e coordenadora do projeto.

Marieta de Moraes Ferreira é professora do Instituto de História da UFRJ. Foto: Orestes Locatel/História Viva.

Bruno Leal: O ProfHistória se enquadra naquilo que nós chamamos de mestrado profissional. Professora, como a senhora poderia explicar aos nossos leitores o que é um mestrado profissional? Quais as diferenças e semelhanças entre esse tipo de mestrado e um mestrado acadêmico?

Marieta de Moraes Ferreira: Olha, o mestrado profissional encontrou muitas resistências antes de ser incorporado pela academia, especialmente na área de História e de Humanas em geral. Eu me lembro – e isso já faz cerca de 15 anos – quando eu me envolvi pela primeira vez com um mestrado profissional. Naquela ocasião, eu era diretora do CPDOC/FGV e nós queríamos fazer um mestrado profissional em bens culturais e projetos sociais. Era algo que envolvia a criação de centros de memória e de projetos de preservação arquivistíca. Na época, foi muito difícil. Eu entrei em contato com a CAPES e as pessoas me diziam: “Olha, isso vai ter muita resistência”. Ou: “Vocês não vão conseguir aprovar o projeto.” Mas, ainda assim, nós resolvemos levar a ideia adiante. Fizemos o projeto e o encaminhamos para a CAPES. Tivemos uma enorme sabatina e uma visita in loco. Eu me lembro muito bem da professora Stella Bresciani, da UNICAMP, e também do professor da USP, Ulpiano Bezerra, que investigaram tudo e que perguntaram como nós iríamos trabalhar com isso e aquilo. Mas, a proposta foi aprovada. Aquele foi o primeiro mestrado profissional na área de História. Depois dele, houve algumas outras iniciativas, de outras instituições, poucas, mas que também desenvolveram projetos de mestrado profissionais, muito dos quais voltados para a área de patrimônio e de memória. Mas o que mestrados profissionais na área de História trazem de diferente? Em suma, eles lidam com temas e com propostas que podem ter uma aplicação. É ainda um tipo de mestrado que se distingue de uma especialização ou de um MBA, onde os níveis de exigências são, via de regra, menores, já que você não tem processo seletivo, onde disciplinas possuem uma carga horária menor e onde não se exige uma dissertação. O ProfHistoria é um mestrado que está voltado para pessoas que acabaram de entrar no mercado de trabalho, que estão prestes a entrar num mercado de trabalho ou que já estão há muito tempo no mercado de trabalho e querem aprimorar-se, mas de uma forma que esse aprimoramento ajude na sua atuação direta no campo onde estão inseridas. Quando a gente pensa, por exemplo, nesses mestrados profissionais focados em patrimônio, em acervo, em memoria, são mestrados que envolvem pessoas que já trabalham em centros de memória, em bibliotecas ou em arquivos, e que querem atualizar, renovar ou aprofundar o seu conhecimento e a sua prática. Essas pessoas não precisam, necessariamente, fazer uma carreira acadêmica ou se envolver com a publicação de inúmeros papers teóricos. Por outro lado, o mestrado profissional tem a pretensão – e os projetos que eu estive envolvida sempre tiveram essa orientação – de fazer com que discussões teóricas e metodológicas possam ajudar aquele profissional a aplicar aqueles conceitos e noções no trabalho dele. Eu vou te dar um exemplo: pessoas que trabalham em centros de memória. Muitas vezes essa pessoa é oriunda da área de arquivologia ou de outras ciências humanas. Ela trabalha no arquivo e quer aprimorar a sua forma de organizar aquele ambiente. Então, digamos, ela vai discutir o que é memória, o que é identidade, como a construção de um arquivo está relacionado com a escrita de si, etc. No mestrado, ela poderá se atualizar e tomar conhecimento de uma série de textos teóricos e de caráter metodológico que vão ajuda-la a buscar conexões entre essas discussões com o seu ambiente. Eu tive a oportunidade de orientar o trabalho de uma pessoa que estava envolvida com o Centro Cultural Cartola, na Mangueira (RJ). Essa pessoa tinha muito interesse em entender como se produz uma biografia, como se trabalha com memória, como se constrói uma exposição, como se constrói, enfim, o acervo de um centro cultural. Todas essas noções são vistas e desenvolvidas no mestrado profissional. Os alunos desses mestrados podem usar tal conhecimento para aplicar na montagem, na construção ou na renovação de centros de memória como esses, ou ainda na preservação ou na produção de uma política pública. Eu estou falando, claro, de uma maneira geral sobre mestrados profissionais que hoje já existem na área de patrimônio, acervo, políticas culturais e de turismo.

Bruno Leal: Esse tipo de mestrado me parece muito fundamental. Por que houve resistência em um primeiro momento a implementação do projeto? Essa resistência partia da CAPES?

Marieta de Moraes Ferreira: A resistência não era exatamente da CAPES. A CAPES, eu acho, até tinha a intenção de estimular a criação dos mestrados profissionais, como é o caso, agora, com os mestrados profissionais de ensino. O que existia, sim, era uma resistência que partia da nossa própria área. A área da engenharia, por exemplo, absorvia muito mais facilmente esse tipo de ideia. Ela tinha uma relação muito mais tranquila com os mestrados profissionais. Mais do que a História. Na visão do nosso grupo, isso é, dos profissionais de História, ainda é muito forte a ideia de uma pesquisa pura, do pesquisador trabalhando com os arquivos e tendo uma visão retrospectiva e um afastamento da realidade estudada. Normalmente, esses mestrados profissionais acabam lidando muito com a História recente, a chamada hoje História do Tempo Presente (HTP). A absorção da HTP, porém, foi também difícil. Durante muito tempo, falar de História do Tempo Presente e de História Oral, entre outras áreas em que os mestrados profissionais entram pra valer, era falar de coisas menos nobres ou de pouca relevância. Havia um preconceito muito grande quanto a História Oral. As pessoas achavam que a História Oral era uma forma de promover militância, fosse para os excluídos ou para os militantes, sempre sem problematizar o tipo de informação que essa História trazia. Então, a resistência não vinha da alta administração da CAPES, mas dentro da nossa área, entre os nossos colegas. Mas isso foi há muito tempo.

Bruno Leal: Perfeito. Professora, até agora nós falamos bastante sobre esses vários mestrados profissionais em História. Mas e o caso do ProfHistória? A senhora pode contar, em linhas gerais, como ele começou? E como ele funciona, isto é, quem pode fazer, quanto tempo ele dura, como é o trabalho de final de curso, que instituições o oferecem, como é o processo seletivo…

Marieta de Moraes Ferreira: Eu acredito que isso tenha começado como um projeto da própria CAPES, quase que uma demanda, algo induzido, que começou com o ProfMat, criado para atender professores formados em Matemática, e, depois, com o ProfLetras, aberto para professores formados em Letras. Depois, na CAPES, além da área de História, tendo à frente o professor Carlos Fico, foi proposto o desafio de montar um mestrado profissional em ensino de História. O ProfHistória chegou até mim, pois eu já tinha uma experiência prévia de um mestrado profissional, além da minha vinculação com a área de ensino de História. Eu aceitei esse desafio e convoquei um grupo de colegas que eu sabia ter interesse em ensino de História. Inicialmente, colegas do Rio de Janeiro, pois a ideia inicial era fazer um mestrado profissional em ensino de História restrito ao Rio de Janeiro. Um mestrado interinstitucional, mas apenas no Rio. Então, nós entramos em contato com a UERJ de São Gonçalo, que já tinha um grupo consolidado na área de ensino de História, e com outros colegas da UFRJ, da UFF, da UNIRIO, da PUC e da Rural (UFRRJ). Enfim, fomos conversando com pessoas e trazendo aqueles que se mobilizavam pela ideia de um ensino de História e de vinculação da pesquisa histórica com a educação básica. Esse grupo, oriundo de seis universidades do Rio, se reuniu a partir de agosto de 2012, no Instituto de História da UFRJ, para discutir como seria um projeto de mestrado profissional em ensino de História. O projeto foi muito coletivo mesmo: todos puderam trazer suas contribuições, dar subsídios e trazer as suas experiências. A nossa ideia principal era fazer um curso que não privilegiasse conteúdos disciplinares. Por exemplo: nós não vamos dar aula sobre historiografia da Revolução Francesa ou História do Brasil e escravidão. A ideia não era trabalhar com conteúdos específicos de História. Mas trabalhar com teoria e metodologia. E essa teoria e metodologia seriam disciplinas que nos ajudariam a montar uma grade que permitira, por sua vez, os professores a aplicar as discussões em sua prática docente. Um dos requisitos para que o aluno possa se inscrever no ProfHistória é que ele seja professor de História atuando na educação básica. Mesmo que ele não seja licenciado em História, especificamente. Mas ele precisa ter licenciatura. Ele precisa dar aula de História. Aqui no Rio de Janeiro, quase não temos um quadro diferente desse, pois praticamente todo mundo que dá aula de História é formado em História. Mas se você pensar em termos de interior, em termos de Brasil, você encontra muitos locais onde as pessoas dão aula de História, mas não são formadas em História. São professores de outras disciplinas, como português e geografia, e que também vão poder cursar o ProfHistória. Então, a ideia desse mestrado profissional não é trazer um conteúdo curricular da disciplina. Hoje, um professor da rede pública pode se inscrever em um mestrado acadêmico. Nesse mestrado, ele pode escolher trabalhar com a política oligárquica na Primeira República, com a questão crise do trabalho escravo no século XIX, com a Inquisição ou ainda, por exemplo, com Ditadura Militar. Ele vai fazer uma ótima dissertação, um trabalho de pesquisa muito bem feito. No entanto, na maioria das vezes, esse trabalho não gera um impacto na prática docente dele na prática de aula. O mestrado profissional, como nós desenhamos, foi pensado exatamente para que esse professor possa trazer as suas demandas da sala de aula, a sua prática como professor. O que ele vai aprender, discutir, ter como diálogo, deve ter impacto na maneira como ele vai dar aula para os seus alunos, concretamente. Em termos de disciplina, são três as obrigatórias: Teoria da História, Historiografia do Ensino de História e Seminário de Pesquisa, essa última um pouco nos moldes do que acontece no mestrado acadêmico, onde um professor discute os projetos dos alunos. Além disso, há as disciplinas optativas, aquelas que chamamos de escolhas condicionadas. Uma optativa deve ser feita no primeiro semestre e, depois, mais três no segundo semestre. E ele ainda possui uma outra disciplina, que é de livre escolha completa, além dos seminários tutoriais. É uma carga horária pesada. São 510 horas no total em dois anos de mestrado. É importante também destacar que o título no mestrado profissional é equivalente ao mestrado acadêmico. E não há nenhuma interdição se, no futuro próximo, esse professor resolva seguir carreira acadêmica e fazer um doutorado. Já em termos de linhas de pesquisa, são três também. Uma contempla o trabalho na sala de aula, outra contempla o trabalho do professor na elaboração de materiais didáticos e uma terceira trata do ensino de História em instituições de patrimônio e de memória. Por fim, a dissertação que ele vai escrever deve ter relação com ensino de História. Mas ela pode ser muito variada. O nosso mestrando pode, por exemplo, fazer uma rede social ou um blog. O Café História poderia ser o objeto de uma dissertação. Mas aí, nesse caso, não basta construir apenas uma rede social ou um outro produto do tipo. Ele iria precisar explicar também as suas premissas, indicar as temáticas que escolheu, discutir bibliografia utilizada, etc.. A dissertação pode ser ainda uma exposição, um material didático, uma cartilha, enfim, pode ser “n” coisas. Mas ele sempre terá que ter uma parte descrita que dê os fundamentos teóricos e metodológicos para aquele material que ele vai produzir.

Bruno Leal: E o processo de seleção do ProfHistória? Ele é como qualquer outro processo de seleção de mestrado acadêmico?

Marieta de Moraes Ferreira: Não. Ele é diferente. Eu aí eu voltaria a questão da estruturação do mestrado profissional em rede nacional. Aquele grupo de seis universidades do Rio que eu mencionei avançou bastante no desenvolvimento do projeto: as disciplinas, as ementas, as bibliografias, enfim, nós já tínhamos uma ideia de como seria o formato desse curso. E nós pedimos uma reunião com a CAPES, para ver como ela receberia esse projeto e que tipo de apoio ela poderia dar. E então nós fomos surpreendidos com a ideia de que se nós quiséssemos o seu apoio, e isso significa bolsas para todos os professores da rede pública aprovados no exame, teríamos que ser uma rede nacional. Nós não poderíamos nos ater às universidades do Rio de Janeiro. Isso para nós foi um certo choque. Isso foi em dezembro de 2012 e nós deveríamos estar com todo o projeto pronto para inscreve-los na CAPES já no final de março 2013. Mas como contatar essas outras universidades? Como essas universidades arregimentariam grupos de professores interessados no projeto?

Bruno Leal: Isso mudou a logística do projeto completamente, não?

Marieta de Moraes Ferreira: Sim, completamente. E, além de ter que arregimentar pelo menos seis pessoas para formarem um grupo local em cada universidade – esse é o número mínimo para montar um grupo regional –, havia ainda uma outra questão: a aprovação disso tudo nas várias instâncias da universidade. Isso era uma coisa muito difícil. Como você sabe, grande parte das universidades envolvidas no projeto são federais ou estaduais. E ainda há uma universidade privada, a PUC (nada impede que as privadas possam participar do projeto. Elas apenas não podem cobrar pelo mestrado).

Bruno Leal: Fiquei ainda mais curioso: como esse nó foi desatado?

Marieta de Moraes Ferreira: Bom, nós já tínhamos avançado na elaboração do projeto, então, não dava para começar a discutir tudo de novo. As pessoas/universidades precisavam aderir a essa proposta como ela era. Mas isso nem chegou a ser um problema. As universidades entenderam. Com isso, nós chegamos a um número de mais seis universidades, além das seis do Rio de Janeiro. No caso da região sul, nós tivemos a adesão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da Universidade Federal de Santa Maria, da Faculdade de Filosofia do Rio Grande, além da federal e da estadual de Santa Catarina. Na região norte, conseguimos ter a Universidade Federal de Tocantins e, do nordeste, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mas que depois acabou não permanecendo, pois eles tiveram dificuldade para aprovar a proposta nas instâncias burocráticas da universidade. A ideia, claro, é que o ProfHistória seja muito maior do que isso. Não 12 universidades, mas 40, digamos, como tem sido ProfMat, que já envolve 50 núcleos no Brasil inteiro. Nosso projeto também é chegar lá. Mas nós ainda não tivemos possibilidade pra fazer isso. Nosso tempo foi muito curto. Nós tivemos praticamente dois meses e meio pra contatar outras universidades e para que essas universidades, por sua vez, se organizassem minimamente internamente para aprovar o projeto. A CAPES exige que a reitoria de cada universidade forneça uma declaração que apoia e que permite a adesão de tais e tais professores ao projeto ProfHistória em rede nacional.

Bruno Leal: E os alunos, como ficavam, já que estamos falando de um projeto nacional? Eles eram vinculados a qual universidade?

Marieta de Moraes Ferreira: Inicialmente, nós tivemos uma grande dúvida: como seria a administração de tudo isso? Quem daria o diploma? Isso seria feito interinstitucionalmente? Os alunos seriam interinstitucionais? Não. O projeto acadêmico é interinstitucional. Mas quando o aluno se inscreve para fazer a seleção, ele define para qual universidade ele quer ir. Então, se ele escolhe a UFRJ, ele vai ser aluno da UFRJ, será diplomada por ela e assim sucessivamente. Mas o projeto pedagógico do ProfHistória é comum a todos as universidades participantes.

Bruno Leal: Como funciona a coordenação do ProfHistória?

Marieta de Moraes Ferreira: A coordenação tem uma coordenadora nacional, que sou eu. E a universidade âncora, aquela que é a universidade articuladora do projeto, é a UFRJ. As outras universidades são parcerias que aderiram ao projeto. Agora, como é a gestão dessa projeto? Nós também lançamos mão da experiência de nossos colegas do ProfMat e do ProfLetras. Nós olhamos como eles faziam e adaptamos para a nossa realidade. O nosso Comitê Acadêmico Nacional (CAN), além de uma coordenadora nacional (eu), tem uma coordenadora adjunta, que é a professora Keila Grinberg, da UNIRIO, um coordenador de avaliação, Luis Resnick, professor da UERJ, um coordenador de bolsas, professora Regina Bustamante, docente da UFRJ, e ainda três coordenadores de cada linha de pesquisa: o professor Temístocles Cesar, da UFRGS, a professora Margarida Dias, da UFRGN, e a professora Helenice Rocha, da FFP-UERJ.

Bruno Leal: Professora, existe alguma filosofia educacional/pedagógica específica com que o ProfHistória esteja alinhado?

Marieta de Moraes Ferreira: O que embasa o nosso trabalho vai muito mais na linha da teoria da História e da historiografia: desnaturalizar o conhecimento histórico. Tanto que na prova de seleção nós não colocamos uma bibliografia. Nós colocamos temas: memória, identidade, História e temporalidade, etc. São temas básicos para se falar da construção do conhecimento histórico. As disciplinas obrigatórias também possuem uma orientação nessa direção, enquanto que as disciplinas optativas podem ser criadas pelos próprios núcleos regionais. Até porque a realidade é muito diferente. Imagine um grupo de professores da Universidade Federal de Santa Maria ou da Universidade Federal do Rio Grande ou da Universidade Federal de Tocantins. São realidades muito diferentes. Então, provavelmente, é fundamental para a Universidade Federal do Tocantins ter, por exemplo, um curso sobre cultura indígena. Enquanto isso, na região sul, é fundamental ter uma disciplina sobre imigração alemã. Essa diversidade temática das disciplinas optativas vai ficar a cargo de cada núcleo regional.

Bruno Leal: Nós falamos de várias outras experiências de mestrados profissionais voltados para professores. É o caso do ProfLetras, do ProfFisio e do ProfMat. Por que o ProfHistória demorou para ser criado?

Marieta de Moraes Ferreira: Eu não acho que ele levou mais tempo para ser criado. Ele saiu até bastante rápido. No caso do ProfMat, o projeto teve uma certa agilidade pra sair porque ele foi também uma proposição da Sociedade Brasileira de Matemática e do IMPA, que são entidades que possuem uma agilidade maior para desenvolver esse tipo de projeto. Eu acho que nós conseguimos executar o nosso dentro de um bom prazo.

Bruno Leal: Quantas pessoas se candidataram ao ProfHistória nesse primeiro ano?

Marieta de Moraes Ferreira: Foram 1.150 candidatos inscritos. 974 pessoas fizeram a prova. Destes, nós aprovamos 130, distribuídos por todo o país. Isso num primeiro momento, sem levar em conta os recursos. Isso indica que houve uma grande demanda por esse tipo de mestrado profissional. Todos os professores da rede pública aprovados entram com bolsa garantida. Os da rede privada, podem ser aprovados, podem fazer o curso, mas não possuem direito a bolsa.

Bruno Leal: E o curso, já começou?

Marieta de Moraes Ferreira: As matrículas foram efetivadas no início de junho de 2014, nos núcleos regionais. Quem fez no Rio Grande do Sul, por exemplo, vai fazer na UFRGS. Que vai fazer no Tocantins, vai fazer, então, na UFT. As aulas em todo o país começam em agosto.

Bruno Leal: Começar no segundo semestre foi uma estratégia para não coincidir ou não competir com outros mestrados?

Marieta de Moraes Ferreira: Não. Foi a nossa possibilidade. Nós inscrevemos o projeto na CAPES no final de março de 2013. O processo de avaliação e de divulgação saiu no final daquele semestre, mais ou menos em agosto. E aí nos tivemos esse período de preparação, para pensarmos em como iríamos operar e, principalmente, como seria a finalização de aprovação nas várias instancias burocráticas de cada universidade.

Bruno Leal: O ProfHistória está ligado a algum programa de pós-graduação dentro dessas universidades?

Marieta de Moraes Ferreira: Não, ele é um programa de pós-graduação em si. Essa também foi uma dúvida nossa. Quando nós começamos, a gente pensava que os mestrados profissionais seriam uma apêndice ou ainda um braço dos mestrados acadêmicos. Mas ele não é. Hoje, no Instituto de História da UFRJ, por exemplo, há três programas de mestrado em História: o ProfHistória, o História Social e o História Comparada.

Bruno Leal: A CAPES avalia todos os programas de pós-graduação. O ProfHistória também vai ser avaliado? Como um só ou cada regional?

Marieta de Moraes Ferreira: Sim, ele vai, claro. E vai ser avaliado como um único mestrado. Nós fomos aprovados muito bem, inclusive. Geralmente, programas novos são aprovados com nota 3. Nós começamos com nota 4.

Bruno Leal: Programas de formação continuada para docentes que atuam no ensino básico são importantíssimos. Eles existem antes de tudo para aprimorar o processo de ensino-aprendizagem, o que envolve não só o docente e o aluno, os dois principais sujeitos desse processo, mas também a família, a escola e a comunidade. Ultimamente, eu tenho visto que esses programas em geral possuem um grande desafio após a sua implementação: auferir os seus impactos. O ProfHistória já possui algum tipo de metodologia ou proposta para medir os seus impactos provocados entre seus docentes?

Marieta de Moraes Ferreira: Eu acredito que o principal indicador será o sucesso das dissertações. Mas, primeiramente, eu acho que para esses professores – às vezes, professores que estão afastados da sala de aula há algum tempo – existe um desafio que vem antes: continuar com o seu trabalho e fazer o mestrado. Esses professores do ensino público Eles vão ter a bolsa da CAPES, o que é um grande estímulo, tanto financeiro quanto de reconhecimento profissional mesmo, então, primeiro, deveremos ver se eles vão conseguir terminar o mestrado. E, claro, precisamos ver se vão terminar bem, isso é, se vão fazer boas dissertações e se terão boas avaliações. Acho que esse, aliás, é o grande indicador. Depois, teremos outros indicadores. Aliás, eu estava lhe falando sobre a gestão do ProfHistória. Isso é importante quando falamos de indicadores. Além do Comitê Acadêmico Nacional, nós temos um Comitê Gestor, que é um corpo coordenador nacional, formado por um representante da UFRJ, a Professora Ana Maria Monteiro, um representante da CAPES e dois representantes da comunidade científica (não envolvidas diretamente com o projeto) . Um deles é a Maria Helena Capeltato, professora titular da USP, e a outra é a professora Lucília Neves, que foi da UFMG e que agora está na UNB. Esse Comitê Gestor não é um comitê de execução, mas de homologação. E depois, nós temos o Fórum dos Coordenadores. Cada núcleo regional possui um coordenador local. É a pessoa que vai cuidar dos alunos de cada universidade. Nós vamos ter uma reunião a cada três meses com os coordenadores desses locais, onde vamos discutir, trocar experiências, compartilhar dificuldades, etc. Esse é um projeto extremamente desafiador. Nós estamos o tempo todo aprendendo, somos instados a encontrar soluções novos para problemas novos. O que eu posso dizer é que até agora os resultados tem sido muitos positivos. Positivos no que diz respeito a integração dessas 12 universidade e desses cerca de 95 professores. Isso é uma coisa muito positiva. E acredito que vamos ver isso acontecendo de forma ainda mais intensa quando o mestrado começar a funcionar, com a circulação de ideias, com professores participando de bancas em diferentes pólos e com a participação deles em seminários.

Bruno Leal: Professora, o lugar do professor-mestrando no ProfHistória é muito evidente. Afinal de contas, trata-se de um mestrado profissional voltado para professores do Ensino Básico. No entanto, nós sabemos que o aluno (o aluno dos professores que vão fazer o mestrado) é o outro sujeito super importante dentro desse projeto, Como o ProfHistória pensa esses alunos?

Marieta de Moraes Ferreira: Isso quem vai trazer para nós são os nossos professores-mestrandos. Nossa expectativa é que eles tragam a experiência que eles tem com os alunos (em sala de aula) para o debate, para os seminários e para as dissertações. Essa é a matéria-prima desses professores. Acho que essa é a cadeia. Na verdade, nós não temos um mapa pronto de como serão os alunos das escolas. Quem traz essas problematizações são os próprios mestrandos. Nós esperamos isso deles. Nós esperamos que eles nos tragam desafios, que nos ensinem. Nesse sentido, esse mestrado rompe com aquela ideia de um curso de formação continuada onde professores mais titulados vão levar o conhecimento para aqueles professores que estão desatualizados. Programas de formação continuada, em geral, acabam sendo assim. Os professores do Ensino Básico muitas vezes acabam numa posição passiva, de recepção de um conhecimento que eles não teriam. A nossa perspectiva é quebrar com isso.

Bruno Leal: Nós podemos notar o quanto, às vezes, o conhecimento produzido nas universidades demora para chegar até os materiais didáticos, até as salas de aula. Você acha, professora, que a consolidação do ProfHistória será possível diminuir essa distância entre uma coisa e outra?

Marieta de Moraes Ferreira: Bom, nós temos essa expectativa (risos). Um dos motivos de fazermos o ProfHistória é exatamente poder trazer as demandas desse professor tendo em vista a maneira como ele atua junto aos seus alunos e, ao mesmo tempo, incorporar as novas tendências da historiografia, os novos campos de trabalho que estão sendo abertos, mas sempre muito conectados com a demanda que eles trazem. Não é uma coisa trivial. Se eu dissesse que nós temos respostas para todas as questões que se colocam, isso não seria verdadeiro. Eu acho que nós temos ideias bem interessantes. Muitos de nós tem uma experiência docente já longa, uma experiência de orientação, muitos na educação básica, na formação de professores. Esperamos somar esses esforços, contando com isso com o apoio da CAPES, que está nos dando recursos para isso. Recursos financeiro e também recursos que vão ajudar na dinâmica do curso. Como você reúne esses professores? Como você faz essa troca? Como você leva professores daqui para o Sul ou para o Tocantins? Tudo isso tem um custo. Isso envolve recursos, recursos esses que a CAPES está disponibilizando.

Bruno Leal: Professora, chegamos ao final de nossa entrevista. A senhora possui uma produção historiográfica bastante vasta e importante, principalmente, na área de ensino de História. Que a diagnóstico, a senhora poderia fazer a respeito do ensino de História hoje na educação básica, no Brasil?

Marieta de Moraes Ferreira: Eu tenho percebido que a comunidade de historiadores se interessa mais pelo tema ensino de História hoje do que antigamente. Isso é muito bom, é muito positivo. Eu me lembro que há alguns anos, quando Manoel Salgado, nosso querido amigo, era o coordenador do fórum de pós-graduação da ANPUH, e nós tivemos uma reunião dos coordenadores dos programas de pós-graduação, em Brasília, nós colocamos em pauta – eu coloquei – a discussão da necessidade dos programas de pós-graduação se envolveram com educação básica. Muitas pessoas disseram: “Ah, não, a universidade não tem que se envolver com educação básica, mas sim com pesquisa”. Eu acho que isso mudou profundamente. Hoje, a quantidade de pesquisadores renomados, que lidam com o tema. Se você pegar a lista dos nossos 95 professores do ProfHistória, vai ver ali um grande número de professores com tradição de pesquisa, com uma gama de publicações muito importante e que estão envolvidos com o ensino de História. Isso é um indicativo. E nós fazemos questão no ProfHistória de retratar o ensino de História não como uma coisa menor, algo de segunda linha, mas como algo prioritário e que tem que reunir os melhores. Não vamos achar que quem vai trabalhar com ensino de História são as pessoas menos produtivas, as pessoas com menor destaque profissional. Não, vamos trabalhar com ensino de História com ótimos profissionais, com pessoas com muito boa produção, com ótima qualificação, que são muito bem formadas. Além dessa adesão ao ProfHistória, há uma outra coisa que devemos observar: a vitalidade do Grupo de Trabalho de Ensino de História da ANPUH. Por exemplo: nesse ano mesmo, o GT que acontece no encontro regional de São Paulo vai discutir o lugar do ensino de História no ensino básico, além de toda essa questão da carga horária do curso de História e da possibilidade de fusão de História em uma nova área de humanidades. A quantidade de publicação sobre o campo também aumentou muito, tal como o número de pessoas envolvidas. Os simpósios temáticos da ANPUH mostram isso. Há, então, hoje, uma sensibilização muito grande para o ensino de História, coisa que há alguns anos nós não víamos. E eu gostaria de falar outra coisa. Essa é uma informação-chave: todo mundo pergunta quando será possível novamente aderir ao ProfHistoria. O que nós estamos fazendo é o seguinte: nós vamos começar a primeira turma agora, em agosto de 2014, e nossa intenção é lançar um novo edital em agosto de 2015. A partir deste edital, cada universidade interessada vai poder se organizar internamente com seus professores, obter as autorizações internas com as várias instâncias burocráticas, para que até o final de 2015 essa nova leva de adesões esteja concluída e possa, então, ser submetida a CAPES. O nordeste e o centro-oeste, por exemplo, ainda não foram contemplados. A mensagem que eu envio para os programas e professores que querem aderir ao projeto é: o sucesso do ProfHistória depende da sua ampliação. Ele não pode ficar apenas com 12 universidades. Ele deve incorporar muitas outras. A ideia não é excluir, mas incluir. O seu sucesso depende da capacidade de atrair novas universidades e professores. E as vagas também. Não é pra ter apenas 130 vagas, mas algo como 1000 vagas, como o ProfMat já funciona. Então, todos aqueles que tiveram o interesse, comecem a se organizar internamente, conheçam nossa página no Facebook, com o regulamento e o projeto pedagógico, que mostra como funciona, o que é cada comitê e fóruns. É importante que as pessoas tomem conhecimento disso para que no momento que o edital estiver aberto, isso possa ser feito de forma eficaz.


Marieta de Moraes Ferreira possui doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (1991) e Pós-doutorado pela École des Hautes en Sciences Sociales (1997) e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (2011). É professora associada do Instituto de História da UFRJ; Coodernadora Nacional do Mestrado Profissional em Ensino de História (2013-); Coordenadora do Programa de História Oral do CPDOC (1992-1995); editora da Revista brasileira de História (2009-2013); Presidente da Associação brasileira de História Oral (1992-1994); Presidente da International oral History Association (IOHA) diretora do CPDOC (1999-2005); Pesquisadora e professora titular do CPDOC/FGV (1978/2012) e editora da Revista Estudos Históricos (1992/1998). Atualmente é coordenadora do programa de livros didáticos da Fundação Getúlio Vargas – RJ, membro do conselho editorial de diversas revistas nacionais e internacionais, Diretora executiva da Editora FGV. Autora dos livros “Aprendendo história” (FGV, 2013) e “A História como ofício” (FGV, 2013), entre outros.

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