O que é ser professor – e por que muita gente erra ao responder

As imagens mais comuns sobre o trabalho docente estão longe de refletir a realidade vivida por professores e professoras no Brasil. É hora de mudar essa percepção.
13 de outubro de 2025
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Professor orienta estudantes em sala de aula. Foto: holisticcare (Nappy)

Ingressar na escola ainda na infância faz parte da rotina de milhões de pessoas. Quase como um rito de passagem, os primeiros anos da escola marcam o momento em que a criança amplia seu contato social e passa a conviver com pessoas fora do seu círculo familiar. Com isso, a escola, as professoras e os professores compõem parte importante da identidade e da memória dos adultos. Assim, quase que inevitavelmente, há diversas imagens sobre a escola e o trabalho docente circulando na sociedade.

Há quatro grandes representações muito comuns – e nada lisonjeiras ou verdadeiras – do que é ser professor no Brasil. Uma delas é o professor como figura sacerdotal: aquele que adotou a profissão a partir de uma “vocação”. Nessa imagem, o professor, em razão de sua vocação, é capaz de se sacrificar e suportar todas as dificuldades da profissão. O sofrimento, normalizado e esperado, espera pela sua recompensa por meio da salvação ou do sucesso dos estudantes. Essa perspectiva, com tonalidades religiosas, dificulta a compreensão da docência como uma profissão. Como aqueles dispostos a se sacrificar, os “professores sofredores” trabalham pelo amor à sua vocação e, por isso, suas reivindicações de melhores condições de trabalho não são seriamente consideradas, afinal, “foi ele escolheu ser professor, e as coisas são assim mesmo, infelizmente”. 

Próxima a essa imagem, também circula a figura do professor, sobretudo de história, como responsável por realizar importantes transformações sociais. Nessa representação, o professor engajado deve mobilizar seus saberes e conhecimentos para a construção de uma outra sociedade. Evidentemente, não se trata de negar a capacidade transformadora da educação e dos professores, mas de demonstrar como essa concepção pode fazer com que a docência se torne também um fardo. É o professor quem deve ser o agente da mudança, e se não houver a mudança, a falha é dele, Diante das dificuldades em produzir as esperadas mudanças sociais, há desencanto ou até mesmo desânimo com a profissão.

Mais recentemente, passou a circular uma terceira representação: O professor doutrinador. Segundo discursos de extrema-direita, os professores, particularmente os de história e ciências humanas, são todos de esquerda e desejam doutrinar os estudantes para que se tornem militantes e afrontem os valores tradicionais, religiosos e os das famílias brasileiras. Essa representação, certamente a mais violenta, deslegitima a educação e o trabalho docente e justifica perseguições e ataques aos docentes.

Por fim, há também a representação tecnicista, que reduz o trabalho dos professores a uma simples reprodução de conteúdo. Nessa representação, para ser professor, basta conhecer e expor o conteúdo da disciplina. Ele deixa, portanto, de ser educador para ser um reprodutor de comportamentos e saberes. Com isso, mesmo sem se graduar ou conhecer as dimensões pedagógicas, outros profissionais, como engenheiros ou advogados, estariam autorizados a assumir turmas em escolas públicas e particulares, já que, para ser professor, é preciso apenas performar uma única coisa: transmitir saberes técnicos.

O que fazem realmente as professoras e professores

Professores são antes de tudo trabalhadores. Pessoas que possuem rotinas, direitos, contas a pagar, seres que sonham em conquistar reconhecimento, respeito e, claro, transformar o mundo, mas sem esperar que isso seja um fardo ou um sonho heroico de cinema. O professor se torna um agente transformador quando reconhece seus limites e os dos outros – é aí que ele opera grandes transformações, por vezes silenciosas e de longa duração.

O professor é educador, isso é, ele trabalha, ao mesmo tempo, para preparar outros trabalhadores, mas também para formar cidadãos, pessoas capazes de distinguir o certo do errado, o bem do mal, a serem éticas, gentis e respeitosas. Faz isso com conteúdos, claro, mas faz isso com suas habilidades de empatia e de escuta ativa. Mesmo nos dias ruins, naquele em que não acorda bem – e isso acontece muito – ele se posiciona diante de 40 alunos, de manhã até o final da tarde (ou da noite) e dá o seu melhor.

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O trabalho dos professores é, ao mesmo tempo, acadêmico e pedagógico. Durante toda sua trajetória, professoras e professores constroem suas aulas por meio de leituras de livros e artigos escritos por pesquisadores de diferentes campos da história. Quanto maior o repertório de leituras, maiores as possibilidades para a preparação das aulas. Isso nos lembra que todo professor é professor-pesquisador, e não apenas o professor universitário.

A aula não é uma reprodução ou mesmo uma simplificação do conhecimento acadêmico. O saber na sala de aula é um conhecimento autônomo formulado pelos docentes, tendo as pesquisas acadêmicas como base. Na historiografia, por exemplo, o ensino de história é um campo de estudos e pesquisa fundamental para a formação do professor de história. Trata-se de um campo que investiga as diferentes possibilidades para o ensino da história e também as diferentes formas pelas quais os estudantes aprendem história. Nesse sentido, ser professora ou professor de história significa recriar tais pesquisas a partir de determinados objetivos pedagógicos.

Na escola, a história (ou a sociologia, a física e a química) não serve para formar um futuro historiador, mas para oferecer orientações para que os estudantes possam traçar seus próprios caminhos de forma ética, respeitosa e responsável. Por isso, o saber especializado na sala de aula, apesar de sempre político, não assume compromissos com ideologias partidárias. Não se deseja um estudante de esquerda ou direita, mas um indivíduo capaz de se comprometer com valores democráticos.

Além das pesquisas acadêmicas, as aulas, assim como das demais disciplinas, também são regulamentadas por legislações e documentos governamentais. Atualmente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), publicada em sua última versão em 2018, cria parâmetros para que os sistemas de ensino de todos os estados brasileiros elaborem seus próprios currículos.

Os currículos, por sua vez, não são apenas uma lista de conteúdos a serem ensinados nas escolas. Tais documentos selecionam os conteúdos e suas abordagens a partir dos valores e identidades que se pretende formar para que os estudantes possam se orientar na realidade em que vivem. Assim, nenhum professor ou professora prepara suas aulas a partir de diretrizes partidárias ou trabalha em razão de uma vocação ou dom. Lecionar história significa a pesquisa constante de trabalhos historiográficos e fontes para desenvolver os objetivos a serem desenvolvidos em cada aula.

Sala de aula
Autonomia do professor em ameaça. Foto: Pixabay.

Professores são, por vezes, orientadores, diretores, coordenadores, fazem reuniões de equipe, encontram e conversam com pais, elaboram planejamentos anuais, acompanham estudantes individualmente, procuram cursos de formação continuada, corrigem provas, acompanham estudantes em passeios pedagogicamente orientados, atuam como mediadores de conflitos e envolvem-se com a comunidade e com as autoridades públicas, já que a atividade docente é sempre relacional com a macro e a micropolítica. Tudo isso faz parte da rotina do professor, o que pode surpreender muita gente, sobretudo as pessoas que ainda imaginam o professor apenas dando aula. Há muito mais que isso.

Essas atividades, embora presentes no trabalho de todos os professores, são vividas diferentemente de acordo com a realidade encontrada pelo docente. Os problemas, os desafios e os prazeres variam com as condições sociais e regionais das escolas brasileiras. Há diferenças expressivas entre os alunos das capitais e do interior, das diferentes regiões do Brasil, dos bairros nobres e das periferias, das escolas públicas e privadas. Perceber essas diferenças não significa dizer que há melhores ou piores alunos, mas que cada contexto, privilegiado ou precário, exige diferentes ações dos professores. Nunca se ensina para folhas em branco. Cada estudante carrega consigo uma história com potenciais e dificuldades e é também responsabilidade do professor trabalhar a partir de todas essas diferenças.

Esse conjunto imenso de funções compõe a rotina dos professores. No entanto, com os baixos salários, os professores precisam enfrentar jornadas com muitas aulas e turmas lotadas. Com isso, o tempo dedicado a todas essas atividades feitas fora da escola é reduzido e, em vários casos, inexistente. Valorizar os professores e a educação significa, além de melhores condições materiais e estruturais, rever como o trabalho docente é organizado. A própria organização escolar, pública e privada, reforça a ideia do professor como aquele que apenas dá aula. A remuneração, ainda que conte com um percentual irrisório para as atividades fora da escola, é ainda pensada a partir da quantidade de horas em que o professor está em sala de aula. Qualquer reforma educacional precisa necessariamente considerar esse problema. Dificilmente qualquer transformação profunda na educação brasileira ocorrerá sem a revisão dessa forma de organização do trabalho

Portanto, de certa forma, a maior parte do trabalho dos professores é invisível para a maioria da sociedade. As imagens dos professores como sofredores, salvadores, doutrinadores e reprodutores partem do desconhecimento do que fazem efetivamente as professoras e professores de história. Para além dos 50 minutos de aula, há um amplo processo e estudo e preparação feito longe das escolas. Conhecer as diferentes dimensões do trabalho docente é imprescindível para desconstruir essas imagens e, consequentemente, valorizar a docência no Brasil.

Nas vésperas do 15 de outubro, professoras e professores, não somente de história, desejam ser vistos para além dessas imagens. Fora das representações românticas, agressivas ou desdenhosas, a docência é uma profissão baseada em critérios acadêmicos e em legislações estabelecidas nacionalmente. Nem heróis, nem inimigos ou salvadores, professoras e professores querem ser reconhecidos e valorizados por sua atuação profissional no desenvolvimento das crianças e adolescentes brasileiros.

Como citar esse artigo

OLIVEIRA, Marcus Vinícius Furtado da Silva. O que é ser professor – e por que muita gente erra ao responder (artigo). Editor e revisor: Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/professor-profissao/. Publicado em: 13 de outubro de 2025. ISSN: 2674-5917.

Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira

Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira

Professor de História do colégio de aplicação da Universidade Federal de Uberlândia e pós-doutorando em História pela Universidade de Brasília. É autor do livro A arquitetura fractal de Antonio Gramsci: história e política nos Cadernos do Cárcere e produtor de conteúdo no Instagram @marcusfsoliveira e no @pahistoria

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