É um impulso quase inevitável. Como indivíduo, mesmo fora de qualquer atuação profissional ou acadêmica, minha leitura de mundo está atrelada às leituras sobre a história. Assim, em meio às partidas do Flamengo, que acompanho como uma tradição familiar, percebi como as partidas de futebol, em alguns aspectos, podem se assemelhar à escrita da história.
Não se trata aqui de fazer uma história do futebol, mas de pensar como os eventos transcorridos ao longo de uma partida adquirem diferentes significados até o apito final do árbitro. Nos 90 minutos, sobretudo em partidas decisivas, a distância entre a redenção e o inferno é mais fina que a linha central.
Dentro de campo, a partida decorre no tempo estipulado. Todavia, para além das linhas, a partida se inicia dias, por vezes semanas, antes. Treinadores elaboram seus esquemas lidando com inúmeras variáveis sobre seu próprio clube e sobre o adversário. Além disso, a imprensa e suas intermináveis e repetitivas mesas redondas contribuem para estimular o clima da partida. O peso das partidas varia de acordo com a história que a envolve. No campo, o imponderável convive com a estratégia. Cada escolha ou reação é o dilema de Hamlet, sempre assombrado pela possibilidade da tragédia. Na angústia da partida, os eventos podem assumir diferentes significados. Nas últimas finais da Libertadores da América, é possível perceber esses redimensionamentos.
Em 2024, o Botafogo, assombrado pelo fracasso do ano anterior, jogava a final do torneio carregando a melancolia e a esperança. Aos 40 segundos de jogo, um jogador é expulso. O evento inusitado, caso o Botafogo fosse derrotado, entraria em uma cadeia de significados que esses desastres surreais acontecem somente ao Botafogo. Todavia, diante da vitória contra o Atlético-MG, a expulsão é transfigurada e inserida na narrativa de uma vitória heroica obtida a despeito de todas as circunstâncias. Ano passado morreram, mas não esse ano.
Na partida disputada neste final de ano entre Palmeiras e Flamengo, também pela Libertadores, o ambiente estava carregado por múltiplos eventos passados. Por um lado, em 2019, na mesma cidade de Lima, o Flamengo vencia novamente a Libertadores após 38 anos em uma virada apoteótica. Por outro, em 2021, o Palmeiras emendou seu segundo título consecutivo derrotando o Flamengo. A falha de Andreas Pereira, que posteriormente seria jogador do Palmeiras, foi compreendida como o momento decisivo que entregou o título ao Palmeiras.
Em 2025, novamente em Lima, as duas equipes voltaram a se enfrentar. Do lado carioca, a lembrança do milagre de Lima convivia com o trauma de Montevidéu. Para os paulistas, a chance de ampliar seu domínio e quebrar o encantamento da capital peruana.
Na partida, novamente eventos polêmicos poderiam se desdobrar em diferentes narrativas. A agressão do volante chileno Erik Pulgar, não punida com cartão vermelho, poderia alterar não somente o rumo da partida, mas também os significados posteriores da própria partida. Na vitória flamenguista, a função desse evento é suplantada pela cabeçada do zagueiro Danilo que garantiu o título. Na vitória palmeirense, o lance poderia significar a vitória a despeito das interferências da arbitragem e, na derrota, uma perda motivada por fatores externos interessados no triunfo do rival.
Tá bom, mas o que isso tem a ver com a história?
A sequência desses eventos, desenrolada diante da audiência de milhões de pessoas, mostra alguns pontos importantes para a escrita da história. A ocorrência de um evento não diz respeito somente ao presente cronológico, mas também à sua conexão no futuro com outros eventos e interpretações que lhe conferem diferentes significados. Não há, portanto, um evento puro à espera de ser descoberto no passado pelos historiadores. Afirmar que é um acontecimento é evento significa criar significados para os fatos e relacioná-los posteriormente a outros eventos. Esses significados e relações são fundamentais para sustentar a escrita da história.
Nesse sentido, os 90 minutos de êxtase de uma partida de futebol, apesar da imersão e da intensidade que nos gruda à tela, demonstram que, fora de uma rede de relações e sentidos, nenhum evento possui significado em si. Além disso, esses mesmos minutos cronometrados também podem demonstrar a multiplicidade temporal, na qual, na variação dos eventos e resultados, passado, presente e futuro são alterados.