“A verdade está lá fora” – e também, em certo sentido, nos documentos 1
Formato clássico de disco voador, em formato de pires, muito comum em testemunhos dos anos 1940 e 1950. foto meramente ilustrativa, produzida com inteligência artificial.

“A verdade está lá fora” – e também, em certo sentido, nos documentos

Registros no Arquivo Nacional relatam quase mil casos de avistamento de objetos voadores não-identificados (OVNIS) no Brasil, de 1952 aos dias atuais - para muitos, "discos voadores". Alguns avistamentos são facilmente desmascarados, mas outros ainda são inexplicados.
25 de agosto de 2025

Quando se fala sobre OVNIs automaticamente as pessoas pensam em discos voadores. Porém, é preciso deixar claro: a sigla significa “Objetos Voadores Não Identificados”. Ou seja, quando você vê algo no céu e não consegue definir exatamente o que é, pode considerar que viu um OVNI. Não necessariamente é um disco voador ou tem relação com visitantes de outros planetas.

Ao avistá-los entre as nuvens, por ser algo aparentemente inexplicado, é comum a busca por explicações mágicas ou fantasiosas. Há diversas teorias sobre diferentes raças de seres extraterrestres, assim como lendas como a da existência da área 51 nos Estados Unidos, uma suposta base que ficaria debaixo da terra, onde cientistas e militares teriam guardado naves espaciais vindas de outros planetas e até mesmo autópsias em visitantes alienígenas. Se você viu a série Arquivo-X, muito famosa nos anos 1990, sabe muito do que estou falando.

O desconhecido sempre encantou o ser humano. E também gerou temor. Um caso exemplar é a da novela dirigida pelo famoso diretor Orson Welles, em 1938, baseada no romance “Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells. Durante o feriado de Halloween, nos Estados Unidos, Welles narrou uma suposta invasão alienígena em um programa de rádio. O problema é que ouvintes, que começaram a ouvir após iniciada a locução, realmente acharam que se tratava de algo real, o que causou histeria entre algumas pessoas.

Como sabemos, a curiosidade humana sobre o assunto criou diversas séries, filmes e até desenhos animados. A vida fora da Terra e a existência de possíveis visitantes espaciais no nosso planeta alimentam os sonhos e a imaginação de todos nós. Mesmo os mais céticos param para assistir e ler sobre o assunto, nem que seja para desmascarar falsos indícios.

O assunto passou, com o tempo, a ser ridicularizado por alguns, enquanto outros levam muito a sério, às vezes até excessivamente. Logo, criou-se essa polarização entre os que julgam ser uma bobagem e os que navegam profundamente nas teorias de conspiração chegando a crer que os alienígenas já estão entre nós e que dominam o planeta, estando na pele de políticos e milionários e tendo deixado marcas na história – quem nunca ouviu dizer que as pirâmides do Egito teriam sido construídas por extraterrestres?

A ufologia e a ciência

O campo de estudo sobre os supostos fenômenos extraterrestres é chamado de Ufologia, nome que vem do termo UFO, abreviação em inglês para Unidentified Flying Objects, ou seja, Objetos Voadores Não Identificados. Os estudiosos, consequentemente, são conhecidos como ufólogos. Como dissemos, nesse ramo há correntes distintas, com diferentes hipóteses, as quais resumiremos a seguir.

A hipótese extraterrestre é a defendida por parcela grande dos estudiosos, sugerindo que parte significativa dos OVNIS avistados tem origem fora da Terra. Porém, há também a hipótese criptoterrestre que defende que grupos não-humanos estariam vivendo na superfície do nosso planeta, embaixo da crosta terrestre ou, no fundo dos oceanos. Nesse entendimento, os objetos voadores vistos seriam indícios da tecnologia altamente desenvolvida desses seres, que vez ou outra conseguimos observar.

Há ainda outra hipótese popular no ramo de estudos sobre o tema, que é a ideia interdimensional, ou seja, que tais objetos voadores teriam origem em outras dimensões ou realidades paralelas. Nesse sentido, talvez tais objetos sejam de seres humanos do futuro ou do passado, por exemplo, e não necessariamente de alienígenas. O que não faltam são teorias ufológicas criativas e mirabolantes, mas boa parte delas sem fundamentação científica.

Por fim, a hipótese psicossocial, dentro dos parâmetros científicos, refuta todas as teorias anteriores e defende que tais fenômenos são meramente fruto da imaginação humana. Portanto, as pessoas que teriam avistado supostos discos voadores, passado por experiências de abdução – quando o ser humano é capturado por uma nave de forma amistosa ou não – ou entrado em contato direto com alienígenas não estariam necessariamente mentindo, mas seriam influenciadas por fatores culturais, psicológicos ou sociológicos. A vontade de se sentir especial, de ter passado por um momento em que poucos passaram ou mesmo o interesse em despertar a atenção da mídia, todos esses seriam fatores a serem levados em conta.

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Para a ciência, principalmente pela palavra dos físicos, sabemos que ainda não há prova contundente de vida fora da Terra. Porém, os pesquisadores seguem na busca. Como disse Carl Sagan, cientista que foi um dos grandes responsáveis por popularizar o interesse pela ciência, “se não existe vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço”. Porém, a visão otimista de Sagan era uma suposição, e não ainda uma conclusão irrefutável baseada em dados científicos. Até então, não há dados que comprovem vida inteligente extraterrestre.

No Arquivo Nacional

A documentação relacionada aos objetos voadores não identificados está entre as mais pesquisadas por quem vai ao Arquivo Nacional procurar registros da história do Brasil, ficando atrás somente da procura pelo acervo relativo ao período da ditadura militar. Graças à pressão dos estudiosos pelo tema, que chegaram inclusive chegando a entrar com ações na Justiça para ter acesso a tais documentos, a Força Aérea Brasileira passou a remeter os registros do que chama de “Fenômenos Aéreos Não Identificados” para o Arquivo Nacional com regularidade desde o final da primeira década do século XXI.

É interessante o fato de a Força Aérea Brasileira ter o interesse de mapear tais informações, seja com os registros recebidos diretamente de seus pilotos, de voos comerciais ou mesmo em pesquisas na imprensa – alguns registros são recortes de jornais. Isso demonstra uma preocupação real com os OVNIs por parte do governo. E não apenas no Brasil, uma vez que há também no acervo, documentos relevando contatos entre Brasil, Estados Unidos e outros países a fim de apurarem possíveis casos de contato com supostas naves ou seres extraterrestres.

Os documentos possuem tipologias das mais diversas: fotografias, relatórios, depoimentos, notícias, áudios e vídeos, oferecendo um imenso manancial de informações para qualquer pessoa que queira se debruçar sobre o assunto e tirar suas próprias conclusões. A pesquisa pode ser realizada presencialmente, visitando a documentação do órgão no Rio de Janeiro ou em Brasília, ou ainda de forma online acessando o Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN) – há uma barra “Favoritos” em que você clica diretamente no fundo – conjunto de documentos de mesma proveniência – chamado “Objetos Voadores Não Identificados”. Cabe lembrar que o Arquivo Nacional apenas cuida da documentação, não fazendo nenhum estudo crítico sobre ela, cabendo isso a quem visita o órgão para ver e analisar esse interessante acervo.

Ouça e veja alguns exemplos

Alguns documentos estimulam ainda mais o interesse dos amantes desse tema que pretendem conhecer mais sobre o assunto a partir dos documentos oficiais, que por um bom tempo eram sigilosos, mas que agora estão digitalizados e disponíveis para o livre acesso. É de 1952 o primeiro caso de avistamento registrado no Brasil. Trata-se do “Caso Barra da Tijuca”. A imagem traz uma fotografia de um OVNI, à época supostamente relacionada a um disco voador. O caso ganhou repercussão internacional, pois havia testemunhas e o registro foi feito por um repórter da revista “O Cruzeiro”, a mais lida do país à época. Porém, décadas depois, descobriu-se que se tratava de uma fraude, a partir de laudos técnicos mais modernos e de depoimentos colhidos de jornalistas que trabalharam na redação da revista.

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Ovni supostamente fotografado sobrevoando uma montanha no bairro da Barra da Tijuca, cidade do Rio de Janeiro.
undo Objetos Voadores Não Identificados. Cógido: BR_DFANBSB_ARX_0_0_0001_d0001de0001

Em 1954, outro caso relevante: em um voo da Varig do Pará ao Rio de Janeiro, o comandante e sua tripulação avistaram um objeto luminoso em grande velocidade, variando de altura e se movendo inclusive para trás em determinado momento, o que teoricamente descarta a hipótese de ser tratar de outro avião ou um balão meteorológico.

No relato, os envolvidos afirmam que a visão do OVNI “nos impressionou sobremaneira”, razão pela qual o comandante da aeronave optou por interromper o voo e fazer um pouso de emergência em São Paulo. Cabe aqui uma informação relevante: os relatos de pilotos de voo comerciais observando OVNIS se repetem com frequência na documentação, inclusive citando fatos muito parecidos, sempre com o objeto voando próximo à aeronave, piscando com várias cores e fazendo movimentos que não condizem com os aviões produzidos pelo homem. Abaixo, você lê na íntegra o depoimento do comandante, do copiloto e do telegrafista.

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Relato dos três membros da tripulação que observaram o objeto voador não identificado no voo da Varig em 6 de agosto de 1954. Fundo Objetos Voadores Não Identificados. Cógido: BR_DFANBSB_ARX_0_0_0001_d0001de0001

Há ainda no Arquivo Nacional relatos de abduções, inclusive feitas por pessoas que tinham posições sociais relevantes, como o professor da Faculdade de Direito de Santos, João de Freitas Guimarães. Ele contou que em 16 de junho de 1956, na cidade de São Sebastião (SP), ao sair para um passeio na praia após o jantar acabou por se deparar com um objeto enorme saindo do mar. João teria entrado no objeto e feito um passeio de trinta a quarenta minutos ao lado de seres que se comunicavam com ele telepaticamente. Parte do relato vemos no documento abaixo.

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Trecho do relato do professor João de Freitas Guimarães em que fala sobre a suposta experiência que passou na nave extraterrestre. Fundo Objetos Voadores Não Identificados. Cógido: BR_DFANBSB_ARX_0_0_0001_d0001de0001

Há dezenas de gravações de conversas entre pilotos de aeronaves militares e de voos comerciais com controladores de voo. Nesse trecho, um controlador de voo em Brasília pergunta a um piloto de voo comercial se ele está vendo um objeto luminoso brilhando e piscando, mudando de cor. O piloto confirma e o controlador diz que tal objeto não foi captado pelo radar e orienta o piloto a seguir viagem, confirmando que já recebeu diversos relatos de outros voos que também avistam tais objetos, mas que eles aparentemente não ofereceriam risco à segurança do avião e dos passageiros. Ouça o trecho de pouco mais de um minuto aqui – atenção para a minutagem 3:52 a 5:06.

No SIAN há atualmente 924 registros relacionados aos objetos voadores não identificados. Todos que você pode acessar online sem nenhuma restrição. Além disso, para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o fundo “OVNIS” do Arquivo Nacional, o site Que República é essa?, da instituição, explica um pouco sobre esse conjunto documental nesse artigo.

Este artigo é fruto da parceria entre o setor de pesquisa do Arquivo Nacional e o Café História. Para saber mais histórias como essas, conheça o projeto de divulgação histórica do Arquivo Nacional, Que República é Essa, coordenado por Viviane Gouvêa.

Como citar este artigo

MOURELLE, Thiago. “A verdade está lá fora” – e também, em certo sentido, nos documentos. (artigo). In: Café História. Publicado em 25 de agosto de 2025. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/ovnis-arquivo-nacional/. ISSN: 2674-5917.

Thiago Cavaliere Mourelle

Thiago Cavaliere Mourelle

Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalha como Historiador no Arquivo Nacional desde 2006, tendo trabalhado na mesma instituição, como estagiário, desde 2002. Professor da organização não governamental Educafro, na qual faz trabalho voluntário desde 2003, coordenando a equipe de História do Pré-vestibular Comunitário João Cândido. Foi Professor Substituto na área de Brasil Republicano no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2015-2016. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Republicano.

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