Os passados presentes da Espanha: série especial

Monumentos, decretos de exumação, celebrações dos 40 anos da carta magna, expressões da língua e outros dispositivos de memória marcam o espaço público espanhol contemporâneo.

O Café História começa a publicar nesta segunda-feira, 3 de junho, uma série especial intitulada “Os passados presentes da Espanha”, escrita pela historiadora Caroline Silveira Bauer e pelo historiador Fernando Nicolazzi, ambos professores do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado, o LUPPA, nosso parceiro.

Os textos da série são produtos inéditos da pesquisa de pós-doutorado que tanto Bauer quanto Nicolazzi desenvolvem, atualmente, na Universidade de Barcelona (Universitat de Barcelona), na Espanha, onde atuam também como professores visitantes. As pesquisas contam com o apoio financeiro da CAPES e do CNPq.

“Os passados presentes da Espanha” será composta por seis artigos, publicados toda segunda-feira, com intervalos de duas semanas. Os textos explorarão as dinâmicas de lembrança e esquecimento que energizam, hoje, o espaço público espanhol. A organização separatista ETA, encerrada oficialmente em 2018, a escravidão, o franquismo, o estilo gótico e o consumo turístico do passado serão alguns dos temas explorados.

Memória na Espanha, passados presentes.
Detalhe do Templo Expiatório da Sagrada Família, grande templo católico da cidade de Barcelona, Catalunha, Espanha, desenhado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí, e considerado por muitos críticos como a sua obra-prima e expoente da arquitetura modernista catalã. Foto: Pixabay.

Para abrir o especial, um artigo que tem o mesmo nome do especial: “Os passados presentes da Espanha”. Nele, Bauer e Nicolazzi apresentam ao leitor(a) o lugar do passado na vida social espanhola. Os dois pesquisadores passam pelos temas do nacionalismo, dos monumentos e das leis espanholas que visam “legislar sobre a memória”. Mas nem tudo nessa topografia espanhola da memória é óbvio. “Mesmo passados que não mais são dados a se ver tão nitidamente acabam por se tornar bastante visíveis justamente em razão da sua ausência”, escrevem Bauer e Nicolazzi. Confira, abaixo, o texto na íntegra.

Por Fernando Nicolazzi e Caroline Silveira Bauer

Na Espanha contemporânea, o passado não é um país estrangeiro. Pelo contrário, é um lugar próximo e estranhamente familiar, dividindo um muro baixo com o presente que habita logo ao lado. Este muro, ainda que sirva para tentar estabelecer os limites entre um terreno e outro, deixa entrever muito do que acontece em cada um dos lados desta imprecisa fronteira, permitindo tanto ao presente vigiar seu vizinho mais velho, quanto ao passado lançar seu olhar curioso sobre o habitante recém-chegado.

O passado é uma presença frequente na vida de la ciudadanía, termo recorrentemente empregado pelos espanhóis para se referirem à dimensão política do espaço público, ou seja, do espaço onde a sociedade civil manifesta seus anseios e suas posições. E por haver variados anseios e distintas posições a respeito deste passado, ele próprio acaba por se converter em algo plural e multiforme. Em outras palavras, não é nem um país estrangeiro, muito menos um país singular. São muitos, portanto, os passados que habitam a Espanha contemporânea.  

Disputas e efemérides do período contemporâneo

Quando chegamos por aqui, em novembro de 2018, passamos a vivenciar cotidianamente as muitas presenças dos passados na vida pública espanhola. Vínhamos com a lembrança viva das notícias que os jornais brasileiros naquele momento publicavam sobre os impasses políticos e jurídicos em torno da exumação do corpo de Francisco Franco, o general golpista vitorioso na Guerra Civil, que assolou o país entre 1936 e 1939, e que comandou uma ditadura que durou quase quatro décadas até sua morte em 1975.  

O decreto para que o corpo de Franco fosse retirado do Valle de los Caídos, um monumento criado nas cercanias de Madrid para honrar as vítimas da Guerra Civil, mas que serve efetivamente para exaltar a memória franquista, foi aprovado pelo governo de Pedro Sánchez em agosto de 2018, apenas dois meses depois de sua posse sucedendo Mariano Rajoy, quando este deixou o posto de Presidente do Governo após a moção de censura aprovada pelo parlamento espanhol (medida constitucional que permite ao Congreso de los Deputados forçar a renúncia do chefe do governo). Trata-se de uma disputa no presente que ecoa décadas de história espanhola, já que Sánchez integra o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), tornado ilegal no início da ditadura franquista, enquanto Rajoy faz parte do Partido Popular (PP), agremiação que tem suas raízes plantadas no próprio franquismo. Envolto em inúmeras controvérsias políticas e disputas jurídicas, o corpo de Franco ainda permanece onde foi enterrado.

Além disso, um mês após nossa chegada presenciamos as celebrações comemorando os 40 anos da Constituição Espanhola, um marco no contexto da complexa transição política para a democracia, que não significou o retorno da república, e sim do regime monárquico.. Era também um momento de prestação de contas dos espanhóis com os seus passados, todos eles carregados de dolorosos traumas causados pelo que ocorreu nas décadas precedentes, mas também de desejosas esperanças em relação ao que se tornaria o país dali em diante.  

Catalunha e País Basco: tensões entre memória cultural e organização política

Como nos instalamos em Barcelona, vínhamos igualmente com as impressionantes imagens do referendo realizado pela Comunidade Autônoma da Catalunha, a região mais rica e próspera do país, por meio do qual seria manifestado ou não o desejo da população catalã pela sua independência da Espanha e pela criação de uma república autônoma. Convocado pelo governo autonômico, a Generalitat de Catalunya, o referendo ocorreu em primeiro de outubro de 2017, após ter sido suspenso pelo Tribunal Constitucional, que o considerou ilegal em setembro do mesmo ano. Recordávamos as imagens que chegaram ao Brasil da população sendo retirada com violência dos centros de votação pelas forças policiais que tentavam em vão impedir a consulta. Hoje, enquanto escrevemos estas linhas, ocorre o julgamento de várias pessoas envolvidas com a organização do referendo, acusadas, entre outras coisas, do crime de rebelião.

Nas sacadas de incontáveis prédios em Barcelona e cidades vizinhas, vemos as bandeiras da Catalunha estendidas, junto com faixas solicitando a soltura dos presos. Nas roupas das pessoas, broches com os dizeres em catalão Libertat Presos Politics! seguem invariavelmente acompanhados por um laço amarelo, simbolizando o anseio pela independência ou, pelo menos, o descontentamento com o que consideram um processo político injusto e inválido. Em meio a toda essa disputa no presente, emerge com intensa força a história da Catalunha, impregnada por passados de conflitos por sua autonomia e por derrotas que ainda não parecem ter sido superadas.

As delicadas questões envolvendo independência política, nacionalismo, identidade linguística e usos do passado também se fazem presentes em outra região espanhola, localizada mais ao norte do país. Em Euskadi ou Comunidade Autônoma do País Basco, também se fala outra língua distinta e, diferente do catalão, bastante distante do espanhol. Ali também uma memória cultural complexa ocupa há anos um lugar considerável na vida pública na Espanha, muitas vezes cedendo espaço para a radicalização política tal como realizada pelo grupo ETA (Euskadi Ta Askatasuna) desde a década de 1960. O fim definitivo das atividades do grupo anunciado em 2018 despertou uma intensa discussão sobre este passado recente que ainda assombra o presente espanhol.

Passados mais longínquos que se revelam nos patrimônios

Mas os passados presentes espanhóis também se manifestam de outras formas. Ainda pelas ruas de Barcelona, é possível notar como alguns passados mais longínquos acabam aparecendo, sobretudo traduzidos para os olhares do presente por meio da ideia e da prática social do patrimônio. São memórias que remetem aos tempos longínquos do medievo e sua arquitetura gótica, alguma parte dela criada há cerca de cinco ou seis séculos, outra parte inventada para fins turísticos no século XX, mas que trazem a força de um projeto consistente e complexo de constituição da identidade catalã.

Mesmo passados que não mais são dados a se ver tão nitidamente acabam por se tornar bastante visíveis justamente em razão da sua ausência. Neste caso, passados que evocam o colonialismo europeu encontram-se em uma situação curiosa e paradoxal: enquanto a grandiosa estátua de Cristóvão Colombo permanece imponente, apontando o dedo direito ao sul onde estão o Mar Mediterrâneo, a África e a América, foi retirada em 2018 a estátua do traficante de escravizados espanhol do século XIX, Antonio López y López, o Marquês de Comillas, que ficava na praça de mesmo nome logo ao final do Passeig de Colóm. O vazio sobre o pedestal que a suportava acaba por se tornar tão eloquente quanto o dedo em riste do navegador genovês.

Enfim, são muitos e variados os passados presentes na Espanha contemporânea. Um olhar um pouco mais detido sobre eles pode oferecer ideias interessantes para refletirmos sobre temas como formas da memória, políticas de patrimônio, usos da história, invenções de identidade, leis memoriais, culturas de passado, pensados a partir da indagação sobre como conciliar estes temas com a definição de uma sociedade democrática. Sobretudo se levarmos em consideração o atual contexto político e social espanhol, após enfrentar a grave crise econômica de 2008 e marcado pela emergência de novos e importantes atores políticos que são fruto deste enfrentamento. Desde partidos que se declaram abertamente anticapitalistas até uma extrema-direita que resgata valores antidemocráticos oriundos do franquismo.

Quando chegamos por aqui, há cerca de cinco meses, trazíamos na bagagem o gosto amargo de termos visto a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República. O momento político brasileiro também é marcado por uma considerável disputa em termos dos nossos próprios passados. Nossa aposta é que a reflexão a partir de outras experiências pode ser de grande importância para definirmos a sociedade que queremos e que podemos construir, reinventando nossas próprias formas de democracia e cidadania.

Caroline Silveira Bauer é doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em Mon Contemporàni pela Universitat de Barcelona. Professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Programa de Pós-graduação em História e do Mestrado Profissional em Ensino de História (PROFHistória) da UFRGS. Foi coordenadora do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA-UFRGS) entre 2017-2018 e publica mensalmente uma coluna no site Dissenso.org. Possui experiência de pesquisa sobre as ditaduras de segurança nacional do Cone Sul e temáticas correlatas, como o estudo sobre os arquivos da repressão, a educação em Direitos Humanos e os direitos à memória e à verdade, a elaboração de políticas de memória, a representação de passados traumáticos e os usos políticos e públicos do passado.

Fernando Nicollazi possui graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR – 2001), mestrado (2004) e doutorado (2008) em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membro dos Programas de Pós-Graduação em História e do Mestrado Profissional em Ensino da História (PROFHistória) da UFRGS. É pesquisador do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA-UFRGS) e pesquisador-colaborador do Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade (NEHM-UFOP). Foi coordenador do GT Teoria da História e Historiografia da ANPUH-RS (2012-2015). Tem experiência na área de História, com ênfase em Teoria da História e Historiografia, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria da história, historiografia moderna e historiografia brasileira.

Como citar este artigo

BAUER, Caroline Silveira; NICOLLAZI, Fernando. Os passados presentes da Espanha (Artigo). In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/os-passados-presentes-da-espanha/. Publicado em: 3 jun. 2019. Acesso:

1 Comentário

  1. Brilhante artigo. A história, a meu ver, é uma ciência que tem por escopo PLANEJAR o futuro a partir do conhecimento do passado do Homem e de suas instituições. O seu uso ideológico sempre houve, ocorre e continuará a se passar, em todas as nações. Saliento que o problema da ccomunidades autônomas espanholas não se restringe ao aspecto linguístico mas à negação do governo central de reconhecer sua diversidade cultural e linguística – lembremo-nos de que há os bascos, galegos, sem mencionar as regiões de Astúrias e Aragão, também dotadas de línguas próprias, a saber, o asturiano e o navarro-aragonês. De mencionar a cidade de Arán, em que se fala o provençal – e, especificamente no caso de Catalunha, de uma melhor divisão de impostos e gastos públicos, pois é a comunidade mais lauta do país, paga mais impostos e recebe menos benefícios.

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