Índios da etnia da Rikbaksta na cerimônia de encerramento da nona edição dos Jogos dos Povos Indígenas (Olinda PE). Foto: alter Campanato/ABr para Agência Brasil.
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Oficina escolar utiliza imagens para desfazer imaginário estereotipado sobre povos indígenas

Para desenvolver a atividade, professor apoiou-se na análise de um livro didático utilizado em sua escola, da rede pública do Tocantins, e em questionário aplicado com os alunos de uma turma do 7º ano. Antes e depois da experiência revela mudanças no plano do imaginário.

Quando ensinam a história dos povos indígenas, professores e professoras possuem um recurso e tanto nas mãos: a imagem. Essa é a principal mensagem do professor Jorge Ferreira Lima em seu trabalho de conclusão de curso do ProfHistória, “O indígena no livro didático: possibilidades e desafios no uso da linguagem imagética no Ensino de História”, defendido em 2016 na Universidade Federal do Tocantins.

Lima pesquisou as formas como os povos indígenas têm sido retratados nos livros didáticos e a partir deste levantamento, ele organizou propostas pedagógicas para o trabalho com imagens em sala de aula. De acordo com o professor, apesar da aprovação da Lei Nº 11.645, de 2008, que torna obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, ainda são poucos os livros didáticos e os docentes que conseguem romper com as narrativas mais tradicionais de ensino sobre os povos indígenas.

Representação indígena no livro didático

Ao analisar a coleção “Para viver juntos”, utilizada no 7º ano de um colégio estadual do Tocantins, Lima percebeu que determinadas imagens não eram explicadas de forma crítica, e caso não fossem trabalhadas pelo professor, poderiam reforçar representações depreciativas dos povos originários brasileiros, como aquelas que retratam o Brasil colonial como o “inferno” habitado por selvagens. É o caso de pinturas de Theodore de Bry, pintor renascentista do século XVI que jamais esteve no Brasil, mas representava os indígenas brasileiros a partir dessa perspectiva.

Outro artista selecionado pelo professor naquela coleção foi o francês Jean-Baptiste Debret, que ao longo do século XIX pintou diversas obras que buscavam representar povos indígenas do Brasil. De acordo com Lima, as pinturas de Debret também são problemáticas, pois reforçam a ideia de que os indígenas eram todos iguais, e estavam ora em situação de captura e trabalho forçado, ora em movimento de guerra contra os europeus. Segundo o professor, essas representações silenciam as contribuições dos povos indígenas na formação do Brasil. Além disso, priorizam apenas a visão dos europeus sobre as populações indígenas, fato que contribui no apagamento das narrativas desses povos como protagonistas de sua própria história.

Além da análise das imagens da coleção “Para viver juntos”, Lima também realizou um questionário com os estudantes de uma das turmas de 7º ano da escola. Esse questionário buscou verificar de que forma os povos indígenas apareciam no imaginário dos alunos. Dentre as respostas pelo professor, apareceram afirmações de que os indígenas seriam “diferentes dos seres humanos” e que viveriam em “constante harmonia com a natureza”, sem transformações ao longo do tempo.

A análise das imagens da coleção e o questionário permitiram a Lima organizar uma proposta de oficina para trabalhar a cultura indígena em sala de aula. Essa oficina foi aplicada em uma turma do 7º ano e nela as imagens tiveram um papel central.

A oficina

Na primeira parte da oficina, o professor explicou aos estudantes que qualquer imagem é produzida em um contexto específico. Sendo um de seus principais objetivos a comunicação com o público, toda imagem possui uma intencionalidade e um conjunto de sentidos utilizados pelo artista. O trabalho com essa dimensão comunicativa das imagens contribui, de acordo com Lima, para desnaturalizá-las.

Em seguida, o professor levou imagens do pintor e desenhista holandês Albert Eckhout (1610-1666), que realizou viagens pelas Américas e representou indígenas de distintas etnias em suas obras. Lima solicitou, então, aos estudantes, que eles descrevessem as imagens e comparassem as obras do artista.

Lima destacou que Eckhout retratava os indígenas de formas diferentes, e que isso era intencional: os que viviam no litoral, os povos Tupi, eram representados de forma dócil e mais civilizados, porque estavam em maior contato com os portugueses. Por isso, inclusive, em algumas telas, eles foram representados com vestimentas europeias. Já os povos do sertão, denominados Tapuia, inimigos dos portugueses, eram representados como selvagens, sempre nus e desprovidos de recursos tecnológicos.

No final deste primeiro momento da oficina, o professor discutiu a autoria das demais obras apresentadas, em que momento histórico elas foram produzidas e quais as outras intenções dos artistas nas diferentes formas de representar os povos Tupi e os Tapuia.

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Tela ”Olata Ouae Utina”, 1591, de Theodore de Bry. National Portrait Gallery, Smithsonian Institution.

No questionário realizado com a turma, a maioria da turma havia sinalizado não conhecer pessoas indígenas da região. Pensando nisso, o professor usou a segunda parte da oficina para apresentar fotografias atuais de povos indígenas que vivem no estado do Tocantins e mostrou a turma um mapa do estado do Tocantins com o indicativo dos principais povos indígenas presentes no estado. Seu principal objetivo foi destacar a presença de populações indígenas no tempo presente, rompendo com a principal perspectiva do livro didático que destaca os povos indígenas apenas no passado.

Ao final da apresentação desses conjuntos de imagens, o professor mostrou aos estudantes a fotografia de Lucíola Belfort, primeira indígena a se formar em medicina pelo sistema de cotas, de jaleco e estetoscópio. Muitos estudantes afirmaram que ela seria uma mulher branca e se opuseram ao fato de Lucíola ser indígena. A reação dos estudantes abriu margem para a discussão de que mesmo fora das aldeias e distantes dos elementos associados aos povos indígenas historicamente, esse fato não retira dessas pessoas a identidade indígena, que está presente em distintos espaços e temporalidades.

Na terceira a última parte da oficina, o professor distribui um roteiro de análise de imagens, que deveria ser preenchido pelos estudantes, agrupados em dupla. Esse roteiro incluía questões sobre o espaço geográfico e as vestimentas das pessoas representadas. A data de produção, as semelhanças, diferenças e as escolhas de representação de cada artista presente no documento também deveriam ser elencadas pelos estudantes.

As respostas produzidas pelos estudantes, ao final da oficina, que durou 4 aulas, revelaram uma mudança de suas perspectivas acerca dos povos indígenas. Se em um primeiro momento, os estudantes associavam os indígenas apenas ao passado e à relação com a natureza, ao final do trabalho desenvolvido por Lima, os estudantes demonstraram compreender que independente da temporalidade e do espaço em que vivem (aldeia ou grandes cidades), as pessoas indígenas carregam seus elementos culturais e identitários, sem apagar suas heranças ancestrais.          

Thaís Pio Marques

Faz parte da equipe do Café História, onde realiza estágio voluntário. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação fez parte do Grupo PET Conexões de Saberes – Licenciaturas, voltado para a elaboração e desenvolvimento de Projetos pedagógicos interdisciplinares. Atualmente, organiza o perfil de Instagram “Poesia e oralidade”, onde compartilha textos breves sobre competições de poesia (slams) e seus participantes. O trabalho na rede social é
articulado aos estudos sobre História Oral e História Pública.

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