A onda brasileira no Oscar continua em 2026: pela segunda vez na História, temos uma produção concorrendo ao prêmio de Melhor Filme. Trata-se de “O Agente Secreto” (2025), escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. A obra é finalista em outras três categorias, incluindo Melhor Ator para Wagner Moura. O artista baiano é apenas o terceiro brasileiro indicado a um Oscar de atuação, formando um grupo seleto ao lado de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres [1].
Moura já venceu prêmios importantes do circuito internacional, como o Festival de Cannes e o Globo de Ouro. Ele interpreta Armando, homem de passado misterioso que assume uma segunda identidade para fugir de perseguições no período da ditadura militar. Enquanto luta para deixar o Brasil em segurança ao lado do filho, Armando busca conhecer melhor a própria história. Ao longo de sua jornada, depara-se com momentos de violência, humor, erotismo e acolhimento.
A crítica especializada e o público nas redes sociais destacaram o desempenho de Moura ao interpretar um personagem multifacetado e marcado por contradições. Para muitos, é um papel perfeito para o ator poder demonstrar seus talentos e dialogar com diferentes gêneros cinematográficos, oferecendo-lhe vantagens na corrida pelo Oscar. No entanto, há uma receita para vencer os prêmios de atuação? Existem papéis talhados para se sagrar o melhor intérprete do ano? Nesse artigo, vamos falar sobre os papéis premiados pela Academia nas categorias de Melhor Ator e Melhor Atriz.
“Iscas” para o Oscar
Desde a sua consolidação como indústria cinematográfica, ainda na década de 1910, Hollywood busca moldar o comportamento de seu público por meio dos filmes. Como bem assinala o sociólogo Emanuel Levy, em passagem emblemática de seu livro sobre o Prêmio da Academia, os papéis indicados ou vencedores do Oscar expressam padrões considerados adequados ou não. Desse modo, os personagens contemplados servem de modelos para os espectadores em suas vidas pessoais.
Nesse sentido, a Academia demonstrou realmente algumas predileções quanto aos tipos de papéis considerados dignos de um Oscar. Parte dessas predileções mudou ao longo do tempo, influenciada por processos históricos e pelas transformações do público de cinema. Outras consolidaram-se de forma rígida, arraigando-se no imaginário da Academia. Tais preferências originaram o termo “Oscar bait” – literalmente, “isca para o Oscar”. A expressão é empregada para definir papéis considerados do gosto dos votantes do prêmio, reunindo características que se repetem historicamente entre os vencedores.
O poder das iscas é inegável. É comum ver veículos especializados em cinema fazendo previsões para o Oscar com até um ano de antecedência, considerando como as sinopses dos próximos lançamentos definem os personagens e a trama de um filme.
Mason Wiley e Damien Bona afirmam que os estúdios hollywoodianos descobriram a força de certos traços nas caracterizações de personagens ainda nos anos 1930, explorando-os de maneira extensiva ao longo das décadas seguintes. Portanto, não é de se estranhar que muitos atores e atrizes tenham conquistado a estatueta dourada por papéis amparados nas predileções da Academia, mesmo em filmes de qualidade questionável.
A isca mais comum em ambas as categorias é a predominância de papéis dramáticos. Levy classifica como “dramas” filmes que abordam e debatem questões políticas e sociais, sejam elas de caráter público (guerras, pobreza, trabalho) ou privado (família, casamento, relacionamentos). Trata-se de uma definição bastante abrangente, de modo que o autor destaca as principais características desses papéis, como o enfrentamento de conflitos capazes de mudar radicalmente a vida do personagem e a superação de obstáculos e dificuldades que proporcionam grande sofrimento.
Um bom exemplo deste raciocínio é Scarlet O’Hara, protagonista de “…E o Vento Levou” (1939), interpretada por Vivien Leigh. Scarlet é uma jovem vaidosa e mimada. Mas, à medida que a trama progride, ela precisa amadurecer para sobreviver a diferentes crises públicas (guerras, fome) e privadas (casamentos infelizes, problemas familiares). Aliás, houve uma grande disputa pelo papel que mobilizou algumas das mais talentosas e populares atrizes dos anos 1930 – à época, já se considerava que a escolhida venceria o Oscar de Melhor Atriz com facilidade devido às características da personagem.

O declínio da saúde, seja física ou mental, é outro elemento recorrente em ambas as categorias. Ray Miland foi premiado por interpretar um alcoólatra em luta contra o vício em “Farrapo Humano” (1945). Tom Hanks recebeu seu primeiro Oscar como um advogado que lida com os devastadores efeitos da AIDS em “Filadélfia” (1993). Entre as atrizes, Hilary Swank venceu sua segunda estatueta como uma boxeadora que fica paraplégica em “Menina de Ouro” (2004). Por seu trabalho como uma professora universitária que sofre de Alzheimer precoce em “Para Sempre Alice” (2014), Julianne Moore também recebeu a honraria.
O aspecto transformativo de uma performance pode converter-se em importante isca para uma vitória, por existir entre os membros da Academia uma predileção em premiar profissionais capazes de moldar o corpo e a voz mediante as exigências de um papel. Ao longo de sua carreira, Meryl Streep ficou bastante conhecida pelo cuidado no uso de sotaques para interpretar personagens de diferentes nacionalidades. Suas duas vitórias no Oscar de Melhor Atriz são por papéis que se valem desse recurso – ela interpretou uma polonesa sobrevivente de um campo de concentração em “A Escolha de Sofia” (1982) e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher em “A Dama de Ferro” (2011). Já Matthew McConaughey se submeteu a uma dieta rigorosa para demonstrar o declínio físico de seu personagem em “Clube de Compras de Dallas” (2013), que lhe valeu a estatueta de Melhor Ator.
A ideia de transformação é ainda mais evidente em cinebiografias. Muitas das performances premiadas em filmes desse gênero utilizam-se da emulação de gestos e vozes, bem como do emprego de maquiagem pesada, perucas e próteses a fim de se atingir uma maior semelhança entre o ator e o biografado. Embora tais estratégias continuem sendo reverenciadas pela Academia, cinéfilos atuantes em podcasts e redes sociais dedicadas a debater o Oscar vêm criticando tais elementos como artificiais e forçados.
Apesar dessas interseções, as iscas para as categorias de Melhor Ator e Melhor Atriz divergem consideravelmente. Nas palavras de Levy, “os papéis masculinos ganhadores do Oscar podem ser descritos como tipos sociais, enquanto os femininos são estereótipos”. O autor define tipos sociais como normas socialmente aceitas de um padrão de comportamento; por sua vez, os estereótipos são imagens reducionistas e permeadas de preconceitos. Nesse sentido, parte das vitórias nessas categorias acaba por reproduzir noções machistas e patriarcais sobre questões de gênero.
Homens heroicos e exemplares
Tendo em vista os papéis vencedores ao Oscar, é possível identificar três conjuntos dominantes de representações na categoria de Melhor Ator. Chamarei o primeiro de “grandes homens”. Trata-se de personagens retratados como figuras históricas ou públicas de grande destaque, como reis, líderes políticos, militares, cientistas ou artistas consagrados, e cuja trajetória individual é apresentada como decisiva para a história ou para a vida coletiva. Nesses filmes, a narrativa costuma enfatizar o protagonismo e a força individual dessas figuras, sugerindo que suas ações e decisões tiveram impacto determinante no curso dos acontecimentos.
Há uma profunda ligação entre os papéis masculinos e cinebiografias, tendência que vinha se acentuando quando da publicação do livro de Levy e que se consolidou nos anos 2000: cerca de 30% dos vencedores na categoria de Melhor Ator interpretaram homens reais. A maioria desses filmes veicula representações positivas dos biografados ou recorre à nostalgia para atrair o público. Entre os casos mais recentes, podemos destacar as vitórias de Daniel Day-Lewis, como o presidente dos Estados Unidos, em “Lincoln” (2012), e de Rami Malek, como o cantor Freddie Mercury, em “Bohemian Rhapsody” (2018).

O segundo grupo hegemônico no prêmio de Melhor Ator é o do “homem da lei”– militares, policiais, xerifes etc. Em nosso levantamento, verificamos que 17% dos papéis vencedores remetem a alguma dessas representações. O caso mais emblemático é o de Gary Cooper, duas vezes premiado com o Oscar de Melhor Ator por interpretar homens da lei: um comandante militar tido como herói da Primeira Guerra Mundial na cinebiografia “Sargento York” (1941); e como um xerife que busca proteger uma cidadezinha de criminosos no faroeste “Matar ou Morrer” (1952).
Tais imagens estão fortemente associadas à violência, à autoridade e à masculinidade, de modo que reforçam ideias de força e imponência. Mesmo homens da lei que abusam de seu poder são, em geral, apresentados sob um viés positivo, como anti-heróis que lutam contra o sistema. Por “Operação França” (1971), Gene Hackman venceu o Oscar como um policial que não mede esforços para capturar um grande traficante de drogas – ao longo de sua jornada, a violência se torna um mal menor e justificável para se atingir um objetivo nobre. Em contrapartida, figuras corruptas, como o detetive interpretado por Denzel Washington em “Dia de Treinamento” (2001), são minoria neste grupo.
Por fim, um terceiro traço comum aos papéis masculinos vencedores do Oscar é a importância da carreira profissional. Levy destaca que praticamente todos os personagens premiados têm algum tipo de trabalho que os define e permite sua inserção na sociedade. Na prática, isso reforça a imagem do homem como provedor e figura dominante no espaço público – e é importante salientar que tal tendência se mantém até os dias atuais. Para além dos já mencionados “homens da lei”, há diversos professores, profissionais do ramo do entretenimento e, sobretudo, advogados.
O caso mais emblemático é, talvez, o de Gregory Peck, que venceu o Oscar por interpretar o advogado Atticus Finch em “O Sol É para Todos” (1962). O personagem, que desafia uma cidadezinha racista para defender um homem negro falsamente acusado de estupro, converteu-se em uma das figuras mais marcantes da cultura popular estadunidense e ficou profundamente associado à figura de Peck. Em 2003, Atticus foi eleito o maior herói do cinema mundial em uma votação promovida pelo American Film Institute, ficando à frente de personagens como James Bond e Indiana Jones.
Imagens de dor e sofrimento: os estereótipos nos papéis femininos
No que diz respeito aos papéis femininos, as escolhas do Oscar devem ser analisadas considerando-se um importante marco temporal: 1966, quando começou a ser abandonado o sistema de censura que vigorou em Hollywood por mais de três décadas. Esse sistema era conhecido como Hays Code, um conjunto formal de regras morais criado pela própria indústria cinematográfica e aplicado de maneira rígida pelos estúdios entre os anos 1930 e meados dos anos 1960.
O código estabelecia limites claros para o que poderia ser representado na tela, restringindo sobretudo temas ligados à sexualidade, ao adultério, ao divórcio e a comportamentos considerados “imorais”, além de exigir que a instituição do casamento e da família fosse preservada como valor central. Essas normas afetaram diretamente as oportunidades e os tipos de papéis disponíveis para as atrizes. Como muitos personagens femininos eram definidos a partir das posições de mãe, esposa ou companheira, reforçando funções socialmente atribuídas às mulheres em um regime patriarcal, o Hays Code contribuiu para consolidar representações idealizadas e moralizantes da conduta feminina no cinema.
Até o final dos anos 1960, a influência do Hays Code teve grande repercussão nas escolhas do Oscar de Melhor Atriz. A maioria dos papéis vencedores traz menções explícitas ao estado civil das personagens e trata de assuntos como casamento, noivado, gravidez e filhos. Nesse sentido, há uma preocupação menor com relação às atividades profissionais das personagens, de modo que muitas delas não desempenham ou não aparentam desempenhar um emprego formal. Entre os exemplos de imagens romantizadas, podemos destacar a vitória de Greer Garson em “Rosa de Esperança” (1942), filme em que interpretou uma dona de casa inglesa que mantém sua família unida durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial.
Outro estereótipo consolidado à sombra do Hays Code foi o da “mulher sofredora”. De acordo com Levy, o sofrimento foi o traço dominante nos papéis femininos premiados com o Oscar, sobretudo, com relação à família e ao casamento. Muitas personagens lidam com o adultério, com relações interpessoais conturbadas ou com a exploração física e/ou mental. Um exemplo bastante discutido nos últimos anos é o de Ingrid Bergman, que venceu seu primeiro Oscar de Melhor Atriz por “À Meia-Luz” (1944). Na trama, ela interpreta uma mulher torturada psicologicamente pelo próprio esposo, que planta dúvidas sobre sua sanidade. O título original do filme, “Gaslight”, deu origem ao termo gaslighting, empregado para descrever casos semelhantes na vida real. Mesmo em uma comédia como “Nascida Ontem” (1950), que rendeu o prêmio de Melhor Atriz para Judy Holliday, a protagonista convive com um namorado abusivo e violento.
O terceiro estereótipo dominante entre os papéis femininos vencedores do Oscar até 1966 é o da mulher que foge dos padrões sociais aceitáveis. Representadas como egoístas, imaturas ou abertamente perigosas, tais personagens eram punidas por seus comportamentos desviantes. É o caso da primeira vitória de Elizabeth Taylor por “Disque Butterfield 8” (1960). Na trama, ela interpreta uma garota de programa de luxo que tenta mudar de vida após conhecer um “rapaz de boa família”. O Hays Code, todavia, não permitiu tal redenção: a protagonista morre em um acidente de carro que serve de alerta às espectadoras.

Com o fim do Hays Code e a crescente mobilização das atrizes por melhores ofertas de trabalho, os papéis femininos se diversificaram a partir da segunda metade dos anos 1960. Esse movimento teve impacto direto nas listas de indicadas e vencedoras do Oscar. As profissões das personagens ganharam maior destaque, enquanto o casamento e a maternidade deixaram de ser traços determinantes de suas personalidades, ganhando representações menos romantizadas. Um bom exemplo é o da primeira vitória de Frances McDomand. Em “Fargo” (1996), ela interpreta uma policial encarregada da investigação de um assassinato, capaz de conciliar a dureza de sua vida profissional com um casamento feliz e uma gravidez muito desejada.
Apesar dessa mudança significativa, ainda existem resquícios do período pré-1966 nas vitórias da categoria de Melhor Atriz. Um panorama da década de 2000 oferece um bom exemplo dessa dinâmica entre rupturas e permanências. Nesse período, quatro atrizes venceram o Oscar por interpretar mulheres reais de grande projeção: Nicole Kidman, como a escritora Virginia Woolf, em “As Horas” (2002); Reese Witherspoon, como a cantora June Carter, em “Johnny e June” (2005); Helen Mirren, como Elizabeth II da Inglaterra, em “A Rainha” (2006) e Marion Cotillard, como a cantora Édith Piaf, em “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007). Embora se trate de figuras públicas notáveis, os filmes em questão dedicam grande preocupação a assuntos familiares, como crises matrimoniais e problemas domésticos, muitas vezes relegando as carreiras profissionais das personagens a um segundo plano.
Outra tendência que permanece entre os papéis femininos é o chamado “deglam” – abreviação para desglamourização. O termo se refere a atrizes consideradas padrões de beleza que interpretam mulheres vistas como feias. Trata-se, mais uma vez, de uma visão machista, pois muitos votantes consideravam que “sacrificar” a beleza em cena era uma prova de dedicação ao ofício. Tais papéis são caracterizados pelo uso de maquiagem e adereços para ressaltar a suposta feiura, bem como estão associados às já mencionadas condições de vulnerabilidade e de sofrimento das personagens. Grace Kelly, uma das mais belas e elegantes atrizes de seu tempo, venceu o Oscar de Melhor Atriz utilizando óculos, figurinos simples e cabelos presos ao interpretar uma mulher relegada a um casamento infeliz. No Brasil, o título do filme recebeu uma curiosa e adequada tradução: “Amar É Sofrer” (1954).
Tipos Dominantes e Contra o Tipo
Outro elemento relevante na definição de um vencedor do Oscar é a recorrência de um determinado papel na carreira de um ator ou atriz. Desde sua formação, a indústria estadunidense busca associar seus profissionais a certos tipos de personagens para facilitar a identificação das “estrelas” hollywoodianas por parte do público. Assim, alguns profissionais se especializaram em interpretar apenas mocinhos ou apenas vilões, por exemplo. Tal prática ganhou o nome de typecasting – “escalação de elenco conforme o tipo” em tradução livre.
Com o tempo, alguns profissionais buscaram romper com esse modelo, almejando maior liberdade artística e melhores ofertas de trabalho. Muitos passaram a interpretar papéis bastante diferentes em comparação àqueles que, até então, definiam suas carreiras. Essa estratégia passou a ser vista como crucial para demonstrar versatilidade, tornando-se popularmente conhecida como playing against type, ou seja, “interpretar contra o tipo dominante”.
O julgamento da Academia com relação ao typecasting e o playing against type varia de caso a caso. Bette Davis, por exemplo, teve uma carreira duradoura e profícua. Ela recebeu 11 indicações ao Oscar que refletem sua habilidade de interpretar papéis bastante diferentes. Contudo, suas duas vitórias – por “Perigosa” (1935) e “Jezebel” (1938) – estão ligadas ao tipo de personagem pelo qual ela se tornou conhecida do público no início dos anos 1930: mulheres egoístas e ambiciosas que, como punição por suas atitudes, são impedidas de viver um relacionamento com os homens que amam.
Todavia, venceram o Oscar por playing against type profissionais cujas carreiras eram baseadas em papéis distantes do gosto da Academia, aceitando trabalhos mais palatáveis ao gosto dos votantes. Conhecido por interpretar mafiosos violentos, James Cagney recebeu o prêmio de Melhor Ator por “A Canção da Vitória” (1942), cinebiografia do artista da Broadway George M. Cohan, em que realiza números de canto e dança. Mais recentemente, Sandra Bullock, venceu o prêmio de Melhor Atriz por “Um Sonho Possível” (2009), interpretando um papel dramático que em nada se assemelha às comédias românticas que consolidaram sua carreira.
Com a queda do Hays Code, o typecasting perdeu força. É notável o aumento da diversidade de papéis entre os indicados e vencedores a partir dos anos 1970, sobretudo, na categoria de Melhor Atriz. Profissionais como Jane Fonda, Jodie Foster, Dustin Hoffman, Jack Nicholson, Sean Penn e Emma Stone são exemplos de profissionais que venceram o Oscar mais de uma vez interpretando papéis bastante diferentes um do outro. Esse processo, no entanto, não pode ser compreendido como o fim dos estereótipos relacionados aos personagens premiados, que continuam a se manifestar de forma aberta ou velada.
Enquanto aguardamos o Oscar de 2026
Uma análise sobre os papéis vencedores do Oscar nos últimos dez anos nos permite observar o processo de mudanças e permanências no gosto da Academia. As cinebiografias ainda dominam a categoria de Melhor Ator, com mais atrizes premiadas por interpretar personagens baseadas em mulheres reais. São os casos de Gary Oldman, que interpreta o primeiro-ministro britânico Winston Churchill em “A Hora Mais Escura” (2017), e de Jessica Chastain, distinguida por sua atuação como uma celebridade evangélica em “Os Olhos de Tammy Faye” (2021). Ambos os filmes também venceram o Oscar de Melhor Maquiagem e Penteado, realçando o aspecto transformativo das performances.
Para além das cinebiografias, identifica-se entre os papéis masculinos a recorrência de homens que experimentam o declínio de sua saúde, porém, a partir de um maior enfoque na fragilidade das personagens. São os casos de Anthony Hopkins, como um idoso acometido por demência em “O Pai” (2020), e de Brendan Fraser, que interpreta um professor vítima de obesidade mórbida em “A Baleia” (2022).

Entre as rupturas, chama a atenção que as três últimas vencedoras do prêmio de Melhor Atriz foram reconhecidas por comédias: Michelle Yeoh, por “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” (2022); Emma Stone, por “Pobres Criaturas” (2023) e Mikey Madison, por “Anora” (2024). Apesar da classificação e do teor cômico das produções, todas as personagens experienciam momentos de forte caráter dramático e lidam com temas relacionados à família e ao casamento. No caso das duas últimas, são notáveis as relações de subordinação que diferentes personagens masculinas buscam estabelecer sobre as protagonistas, evocando a ideia da “mulher sofredora”.
Os indicados ao Oscar de Melhor Ator e de Melhor Atriz em 2026 parecem equilibrar-se entre as rupturas e permanências nas predileções da Academia. Há cinebiografias em ambas as categorias, assim como homens vivenciando jornadas transformadoras e mulheres que enfrentam traumas e crises familiares. Por outro lado, há mulheres independentes e homens capazes de demonstrar vulnerabilidade perante situações difíceis. Correndo risco de uma emitir uma opinião reducionista – e muito influenciada por minha torcida por “O Agente Secreto” – arrisco dizer que, caso Wagner Moura vença o prêmio, será reconhecido por um dos personagens mais originais dos últimos anos.
Referências bibliográficas
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BORDWELL, David; STAIGER, Janet; THOMPSON, Kristin. The classical Hollywood cinema: Film style & mode of production to 1960. Londres: Routledge, 1988.
LEVY, Emanuel. And the winner is: Os bastidores do Oscar. São Paulo: Trajetória Editorial, 1990.
LEVY, Emanuel. Oscar Fever: The History and Politics of the Academy Awards. Londres: Bloomsbury Academic, 2001.
WILEY, Mason; BONA, Damien. Inside Oscar: The unnoficial history of the Academy Awards. Nova York: Ballantine Books, 1996.
[1] Mãe e filha foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz, respectivamente, por seus trabalhos em “Central do Brasil” (1998) e “Ainda Estou Aqui” (2024). Ambos os filmes foram dirigidos por Walter Salles.
Como citar este artigo
CLARO, Celso Fernando. O papel certo para vencer o Oscar (Artigo). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/o-papel-certo-para-vencer-o-oscar. ISSN: 2674-5917. Publicado em: 13 mar. 2026.