Em novo livro, historiador mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889

Em "Utopia autoritária brasileira", Carlos Fico examina as principais intervenções militares que moldaram a história republicana brasileira.
26 de junho de 2025
Em novo livro, historiador mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889 1
Livro já está nas livrarias. Foto: divulgação.

“O Exército brasileiro sempre desrespeitou a democracia. As Forças Armadas violaram todas as Constituições da República. Rebeliões contra decisões legítimas; sublevações motivadas por corporativismo; golpes de Estado e tentativas de golpe. Indisciplina e subversão marcam a trajetória dos militares no Brasil. Eles foram responsáveis por todas as crises institucionais do país desde a Proclamação da República e jamais foram efetivamente punidos. Esse intervencionismo militar expressa a fragilidade institucional da democracia brasileira até hoje – como ficou evidente nos anos recentes”.

Essa “pedrada” está na apresentação de Utopia autoritária brasileira, o mais recente – e o último – livro do historiador Carlos Fico, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos maiores especialistas em história da ditadura militar no Brasil. O livro de quase 500 páginas do selo Crítica, da Editora Planeta, e com revisão técnica de João Roberto Martins Filho, já está à venda nas livrarias.

Segundo o autor, desde o fim do Império, em 1889, até os eventos recentes que colocaram em xeque a estabilidade democrática, as Forças Armadas cultivaram uma visão de mundo que desconfia da política e se vê como guardiã da nação. O livro nomeia essa lógica de “utopia autoritária brasileira”, marcada pela convicção de que os militares estariam mais preparados que os civis para dirigir os destinos do país.

Mas Fico vai além da crítica conjuntural. O historiador examina como esse pensamento foi forjado ao longo do século XX, atravessando momentos-chave como o Estado Novo, o golpe de 1964 e, mais recentemente, a atuação de setores militares durante o governo Bolsonaro. O que une esses episódios, segundo ele, é uma mentalidade que despreza o pluralismo democrático em nome de uma suposta ordem superior.

O livro aborda episódios históricos conhecidos, como o golpe da República, as intervenções militares nas décadas de 1920, a participação ativa nas crises dos governos Vargas e Jango, e os eventos mais simbólicos do autoritarismo militar, como o golpe de 1964 e o parlamentarismo imposto a Goulart. Com títulos provocativos — “O pior da história do Brasil”, “Duplo golpe”, “O pecado original da República” — o autor dá a ver sua tese central: de que a tutela militar sobre a democracia brasileira não é acidente, mas tradição política com raízes profundas.

Em novo livro, historiador mostra como militares ameaçam a democracia desde 1889 2

A obra chega em um momento estratégico. Após os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, o debate sobre o papel das Forças Armadas voltou com força ao centro da arena política. Ao invés de uma resposta pontual, Fico propõe uma análise estrutural – e crítica – da presença militar no imaginário e, na prática, do poder brasileiro.

Carlos Fico

Carlos Fico é professor titular de História do Brasil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Coordenou a Área de História da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) entre 2011 e 2018. Autor de diversos livros, recebeu o Prêmio Sérgio Buarque de Holanda da Biblioteca Nacional, em 2008, pela obra “O grande irmão: da operação Brother Sam aos anos de chumbo”, e colaborou com o livro 130 anos: em busca da República, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Ciências Sociais, em 2020. Este é seu primeiro livro pelo selo Crítica da Editora Planeta.

Bruno Leal

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas, justiça no pós-guerra e as duas guerras mundiais. Autor de "Quero fazer mestrado em história" (2022) e "O homem dos pedalinhos"(2021).

Leia também