O Selo Editorial Caliandra, do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília (ICH/UnB), acaba de publicar mais um livro: “Políticas de memória no conflito armado colombiano – um estudo a partir de Doris Salcedo”, da historiadora Barbara Mangueira do Nascimento, professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UnB. O livro é fruto de sua pesquisa de doutorado, realizada na UFRJ, e pode ser baixado gratuitamente no site do selo editorial.
O que é o conflito armado colombiano?
O conflito armado na Colômbia se estende por mais de seis décadas. Ele envolve o enfrentamento entre grupos guerrilheiros, paramilitares, o narcotráfico e o Estado. De acordo com Nascimento, o conflito ocorre por disputas ideológicas, questões agrárias, a expansão do narcotráfico, mecanismos frequentes de exceção estatal e restrições à participação na política institucional colombiana. Tudo isso tem levado a um grande desgaste da economia e das instituições colombianas, além de gerar traumas para a população.

De acordo com uma pesquisa liderada pelo sociólogo Andrés Suárez, do Centro Nacional de Memória Histórica (CNMH), o conflito já deixou mais de 262 mil mortos no país, dos quais 82% são civis. Os grupos paramilitares de extrema-direita, segundo documento divulgado pela entidade em 2018, são responsáveis pela maioria dos assassinatos. O período mais violento foi entre 1996 e 2004, quando foram registradas mais de 200 mil mortes no país sul-americano. Além das mortes, o conflito também envolve outros tipos de violência, como sequestros, recrutamento de menores e violência sexual.
– Ainda que ocorra, hoje, em menor intensidade, devido à desmobilização de grandes grupos guerrilheiros (como as FARC-EP) e de parte dos paramilitares, o conflito ainda não pode ser considerado encerrado. Mas é possível afirmar que importantes avanços foram feitos nos últimos anos no caminho de construção de uma saída negociada e dialogada, que podemos caracterizar como um trabalho de Justiça de Transição. O acordo de paz com as FARC-EP e a criação de mecanismos como a Comissão da Verdade e a Jurisdição Especial para a Paz são significativos desse processo, sublinha a historiadora.
O livro
O livro de Nascimento analisa a relação entre a obra da artista colombiana Doris Salcedo e as políticas de memória no contexto do conflito armado colombiano. A partir de cinco obras produzidas entre 2002 e 2019, o estudo mostra como Salcedo centraliza as vítimas e propõe uma reparação simbólica por meio de estratégias estéticas que problematizam monumentos, lugares e datas de memória. O luto coletivo é um eixo central de sua proposta, ainda que suas obras mantenham uma dimensão monumental e o engajamento do público seja conduzido pela artista. Suas produções mais recentes revelam um alinhamento político explícito com os princípios do acordo de paz e da Comissão da Verdade, evidenciando seu posicionamento em meio às disputas sociopolíticas da Colômbia.
Quem é Doris Salcedo?
Doris Salcedo é uma artista plástica nascida em 1958, em Bogotá, que explora o tema da violência política contemporânea por meio de esculturas, instalações, intervenções e ações coletivas. Em conversa com o Café História, Nascimento explicou que, nas obras que abordam o conflito armado colombiano, Salcedo transforma o espaço da imagem em um território de construção coletiva da memória e do luto, destacando as vítimas e seus relatos. Com isso, a artista espera refletir criticamente sobre os efeitos da violência, utilizando vestígios, locais específicos, silêncios e ausências como matéria de criação. Em vez de recorrer a representações explícitas ou figurativas da dor, a artista adota uma abordagem sutil, recusando formas diretas de exposição da brutalidade.
– Ela mobiliza temas, conceitos e categorias utilizados no campo de estudo das memórias de episódios de violência política, como as reflexões sobre os memoriais e monumentos, os lugares de memória e também as datas de rememoração. Recentemente, a artista tem se inserido de forma mais incisiva no campo de disputas por memória, reparação e reconhecimento das milhares de vítimas, dialogando diretamente com ações e mecanismos de Justiça de Transição em curso no país, pontua a historiadora.

No livro, a pesquisadora conclui que o trabalho de Doris Salcedo vai além de uma abordagem temática do conflito armado colombiano: a artista se posiciona ativamente no debate político e simbólico sobre a memória coletiva. Suas obras não apenas dialogam com outras iniciativas de memória, reparação e justiça, mas também expressam uma compreensão política sobre os processos de paz na Colômbia.
– Observando o cruzamento de algumas de suas obras com outras iniciativas de memória e reparação, bem como com ações de justiça e lutas por verdade e esclarecimento, aponto que essas obras carregam um entendimento político sobre os projetos de paz e contribuem para moldar os processos de construção de memória pública. Se em alguns casos a artista estabelece um distanciamento e uma crítica em relação às políticas de memória (ou de esquecimento) oficiais, em outros reforça vínculos institucionais com projetos governamentais. Essas diferenças ocorrem sobretudo devido às mudanças de conjuntura política no país, diz Nascimento.

Ela observa ainda que, dependendo do contexto político, Salcedo pode tanto criticar quanto se alinhar a políticas institucionais de memória. Por exemplo, durante o governo de Álvaro Uribe (2002), suas obras assumem um tom mais crítico, refletindo a dificuldade de avanços nas negociações de paz. Já sob o governo de Juan Manuel Santos (2010–2018), a artista aproxima-se das políticas de resolução do conflito, colaborando com iniciativas oficiais de memória e justiça.
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