“O Nazismo como um movimento de esquerda”: historiadora fala sobre as possíveis origens dessa ideia

Tatiana Poggi, professora de História da UFF, acredita que os trabalhos de economista Ludwig von Mises estão na origem desta associação.

Bruno Leal | Agência Café História

No último sábado, grupos de nacionalistas brancos, neonazistas e membros da Ku Klux Klan (KKK) saíram às ruas da pequena Charlottesville, no estado de Virgínia, nos Estados Unidos, para protestar contra a retirada de uma estátua do general confederado Robert E. Lee, que lutou pela independência dos estados do Sul para evitar a abolição da escravatura no país. Com tochas nas mãos, gritavam palavras de ódios contra negros, imigrantes, gays e judeus. O episódio acabou em confronto com grupos antifascistas e antirracismo que estavam acompanhando a bizarra manifestação. Desde então, o episódio tem repercutido bastante nas redes sociais e requentou, especialmente no Brasil, uma ideia que, embora absurda, parece convencer algumas pessoas: a ideia de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

“O trabalho liberta” – inscrição cínica encontrada na entrada dos campos de concentração nazistas. Foto: Pixabay

Nesta terça-feira, o historiador Michel Gherman, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicou um artigo bastante preciso no Estadão explicando de forma bastante contundente aquilo que até então parecia óbvio: que o nazismo é de extrema-direita. O historiador Felipe Schadt, em post bastante compartilhado no Facebook, também falou a respeito, destacando vários trechos anticomunistas e antimarxistas do Mein Kampf (“Minha Luta”). Mas há uma outra questão importante a ser respondida aqui: de onde vem essa ideia? O Café História foi, então, em busca de respostas.

Para isso, conversamos com a historiadora Tatiana Poggi, professora de História Contemporânea do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Poggi trabalha principalmente com História dos Estados Unidos e movimentos conservadores, especialmente os fascismos. Sua tese de doutorado, realizada na UFF e na Universidade de Virgínia, defendida em 2012, intitula-se: “Faces do Extremo: uma análise do neofascismo nos Estados Unidos da América 1970-2010”.  (Download aqui).

Reproduzimos a seguir, na íntegra, a colaboração de Poggi com o Café História:

“Até onde sei, o primeiro a fazer uma afirmação nesse sentido foi Ludwig von Mises, expoente da “Escola Austríaca” e grande influenciador do pensamento de Friedrich Hayek e Murray Rothbard. Em sua crítica ao intervencionismo do estado e defesa do livre mercado, Mises identificou o Estado nazista como totalitário (não exatamente no sentido da teoria dos totalitarismos, que só surgiria no contexto da Guerra Fria) e socialista. Ele considerava todos os movimentos e regimes socialistas como totalitários na medida em que o Estado intervinha em todas as áreas da vida, comprometendo a liberdade individual e o livre mercado. No caso do nazismo, ainda que o Estado não tivesse a propriedade dos meios de produção, detinha o controle sobre os mesmos, limitando a livre possibilidade de ação, de troca, dos empresários, dos indivíduos, enfim da esfera privada no geral. É possível ver essa crítica em dois livros dele: “Intervencionismo, uma Análise Econômica”, de 1940 e “As seis lições”, de 1979.

Essa análise não teve grande repercussão à época, isto é, nos anos 1940, mas veio ganhando maior visibilidade recentemente com o inegável sucesso das teses revisionistas a partir de fins dos anos 1960 e, mais recentemente, de teses neoliberais e anarco-capitalistas, como as influenciadas por Murray Rothbard. Essas últimas, em sua maioria não têm grande respeitabilidade no meio científico, sendo realmente simplistas em sua lógica argumentativa, sem maior análise empírica e sem levar em conta certas condições históricas. O revisionismo é outro caso. Consiste em uma corrente liberal da historiografia que dialoga e se contrapõe à teorias que criticam dinâmicas e estruturas sociais baseadas na desigualdade e na exploração, como o marxismo, a Escola dos Annales, a teoria crítica dos Frankfurtianos, a teoria da dependência, etc. O revisionismo oferece uma chave explicativa alternativa e comprometida com a crítica às ideias de dominação, luta, conflito e revolução, entendendo-as não mais como caminho que leva à conquistas e à emancipação, mas como um caminho para servidão, desordem, violência e terror.

Alguns desses autores, François Furet particularmente, recuperaram e jogaram nova luz justamente à tese do totalitarismo, um conceito claramente apologético ao capitalismo liberal cunhado no contexto da Guerra Fria, primeiramente por Hans Kohn e popularizado nos trabalhos de Hannah Arendt, Raymond Aron e Zbigniew Brzezinski. Em seus escritos, já em 1950, observa-se uma clara defesa da natureza revolucionária dos regimes totalitários, uma vez que observavam uma proposta de ruptura radical com o passado, ensejando a modernidade. Desse modo, eles não viam o nazismo como uma filosofia política e um movimento conservador ou reacionário. Ao contrário, esse projeto de sociedade olhava para frente, tinha os olhos no futuro, era inovador em seu estilo, retórica e forma de fazer política e, por isso, em sua visão, poderia ser caracterizado claramente como revolucionário.

A associação entre revolução/jacobinismo/participação popular e terror/violência/autoritarismo/opressão se popularizou e vem sendo retomada por diversos autores revisionistas em suas análises de diversos processos históricos, como a revolução russa, o fascismo, os regimes autoritários da Europa Ibérica e da América Latina, fazendo do revisionismo uma tradição intelectual que atravessa a história contemporânea.

Mais do que um debate intelectual, acredito que o propósito seja político, ainda mais no contexto atual de implementação de políticas de austeridade e restrição de direitos políticos e sociais.

Apesar de anterior ao revisionismo, entendo que o resgate das teses do totalitarismo e principalmente da ideia de que revolução (socialista ou burguesa) resvala inevitavelmente em terror, contida nas teses do totalitarismo e nos escritos anarco-capitalistas, não é despropositada ou inconsciente. Minha intenção aqui não é associar revisionismo a anarco-capitalismo, mas apontar para o impacto social gerado pela suavização do conservadorismo de certos movimentos e ideologias. Essas teses, ainda que diferentes, parecem contribuir para o fortalecimento desse imaginário.  Mais do que um debate intelectual, acredito que o propósito seja político, ainda mais no contexto atual de implementação de políticas de austeridade e restrição de direitos políticos e sociais. Teorias que desqualifiquem a intenção de mudança social através da luta, que obscureçam a dominação e promovam a passividade e a desesperança, caem como uma luva para intelectuais e ativistas apologéticos da ordem e para uma mídia comprometida com os interesses do grande empresariado.

É nesse contexto que vejo a recuperação das ideias de Mises e Arendt e sua associação entre nazismo e socialismo.”


Como citar essa notícia

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. “O Nazismo como um movimento de esquerda”: historiadora fala sobre as possíveis origens dessa ideia. (Notícia). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/nazismo-e-esquerda/. Publicado em: 15 Ago. 2017. Acesso: [informar data].

4 Comentário

  1. Gostaria de tirar uma dúvida: esses autores citados abaixo inscrevem-se numa vertente revisionista?
    “Alguns desses autores, François Furet particularmente, recuperaram e jogaram nova luz justamente à tese do totalitarismo, um conceito claramente apologético ao capitalismo liberal cunhado no contexto da Guerra Fria, primeiramente por Hans Kohn e popularizado nos trabalhos de Hannah Arendt, Raymond Aron e Zbigniew Brzezinski. Em seus escritos, já em 1950, observa-se uma clara defesa da natureza revolucionária dos regimes totalitários, uma vez que observavam uma proposta de ruptura radical com o passado, ensejando a modernidade. Desse modo, eles não viam o nazismo como uma filosofia política e um movimento conservador ou reacionário. Ao contrário, esse projeto de sociedade olhava para frente, tinha os olhos no futuro, era inovador em seu estilo, retórica e forma de fazer política e, por isso, em sua visão, poderia ser caracterizado claramente como revolucionário.”
    Pergunto isto porque o parágrafo acima parece se relacionar com a passagem “O revisionismo oferece uma chave explicativa alternativa e comprometida com a crítica às ideias de dominação, luta, conflito e revolução, entendendo-as não mais como caminho que leva à conquistas e à emancipação, mas como um caminho para servidão, desordem, violência e terror.”
    Desde já, agradeço.

    • O maior movimento revolucionário da história foi feito pela classe que hoje é chamada de ‘a dominante’, que no caso, foi a Burguesia em seu enfrentamento de tomada do poder e derrocada da monarquia absolutista. Embora revolucionário, a classe burguesa converteu-se posteriormente em classe conservadora, já que uma vez no poder, a classe dominante instaurou mecanismos de permanecer no poder, abandonando todo o viés da Cultura Ilustrada. Esse foi um movimento da Direita, uma revolução que surgiu para substituir o feudalismo pelo Capitalismo. Ou seja, chamar algo de revolucionário, não quer dizer, necessariamente, que seja de Esquerda, uma vez que o próprio Capitalismo representava uma evolução em comparação ao feudalismo

  2. A Alemanha vivia grande efervescência revolucionária após a derrota na I Gerra Mundial e a constituição da República de Weimar (1919). Hitler soube tirar proveito desta situação, apropriando-se do antigo Partido dos Trabalhadores Alemães para transformá-lo no Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, ao mesmo tempo que combatia toda sorte de judaísmo, tanto o burguês quanto, principalmente, o marxista, muito embora o alemão Karl Marx não se identificasse com o conservadorismo judeu. O socialismo partidário do nazismo era apenas figurativo e estratégico como meio de persuadir as massas para a causa nacional racista.

  3. O nazismo nasceu com a ideia de que os arianos eram descendentes divinos dos deuses da era pre-deluvio, os mesmos que contruiram os pirámides do Egipto, do México e da China. Esses ‘deuses’ são referênciados na Bíblia como sendo ‘anjos caídos’ que habitavam o famoso continente perdido conhecido como Atlántida, mas também Thule, maurigosima, kumari kandam, e.t.c. Eram conhecidos por vários nomes em vários locais, entre os quais, nephelim, Tuatha de Danaan, Shemsu Hor, Nagas, Nommos, ou lung wang.

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