Morte no Nilo: a jornada “christiana” de um diretor

Famoso por interpretar desde Shakespeare até personagem da saga Harry Potter, ator e diretor Kenneth Charles Branagh chega ao streaming com obra que vai agradar aos fãs de Agatha Christie.

"Morte do Nilo", versão 2022. Reprodução da internet.

Sir Kenneth Charles Branagh tem um catálogo artístico bem sortido: é ator, diretor, roteirista, produtor e até mesmo cantor e compositor. Assim como tem também um armário cheio dos mais cobiçados prêmios da indústria audiovisual, tais como o Oscar, o Emmy ou o Bafta. Quando pensamos em adaptações contemporâneas das obras de Shakespeare para as telonas, o seu nome é o primeiro que nos vem em mente. De Henry V (1989) e Much Ado About Nothing (1993) onde trabalhou com Emma Thompson, à época sua esposa, até Othello (1995) ou no papel do próprio William Shakespeare, em All Is True (2018). Porém todo oevre de um artista um dia se esgota, e chega a hora de mudar o foco da paixão. No caso de Kenneth o novo amor se chama Agatha Christie, outra instituição da literatura britânica, e a expressão deste novo amor se chama “Morte no Nilo” (Death On The Nile, 2022), disponível no StarPlus.

As obras de mistério e investigação da autora em torno da pitoresca figura do investigador belga Hercule Poirot são bastante populares. Quem nunca assistiu a sucedida versão para o cinema de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder On The Orient Express – 1974) com o sensacional Albert Finney como Poirot e ainda Lauren Bacall, Sean Connery, Ingrid Begmann e até o nosso psicopata predileto Anthony Perkins no elenco? Ou Morte No Nilo (Death On The Nile – 1978) com o melhor Poirot de todos – Sir Peter Ustinov, além de Bette Davis, David Niven e Mia Farrow? Um programa quase obrigatório para fãs de detetives ficcionais ou de Christie.

Alguém ousar redesenhar essas obras primas do cinema cult é, no mínimo, uma empreitada bastante arriscada e que demonstra grande autoconfiança. Branagh não se intimidou com o desafio e em 2017 lançou a sua interpretação de “Assassinato No Expresso do Oriente” com um elenco estelar. Kenneth, naturalmente, assumiu o papel de Poirot, e não economizou no orçamento chamando Lady Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Olivia Colman e Johnny Depp para papeis menores. O resultado foi adequado e um grande sucesso de bilheteria com boas interpretações e bastante opulência visual. Mas o Poirot de Kenneth é bastante caricato e bonachão, não raramente extrapolando o limite do pastiche. O comportamento obsessivo-compulsivo, o perfeccionismo e a arrogância típicos de Hercule, e que pareciam naturais nas interpretações de Finney e Ustinov, recebem aqui uma camada exagerada de maquiagem teatral, quase transformando o suspense em uma farsa.

O relativo sucesso, tanto de público quanto de crítica, dessa primeira empreitada, incentivou Sir Branagh a continuar sua jornada “christiana” e assim chegamos na sua adaptação de Morte “No Nilo”, de 2022. Mais uma vez a verdadeira joia (do Nilo, no caso) é o grupo de atores recrutados para a tarefa. Gal Gadot é Linnet Ridgemont, a milionária com muitos inimigos entre os amigos, que está em lua de mel no Egito com seu belo marido Simon (Armie Hammer). Tudo estaria perfeito se não fosse a presença da ex-amiga de Linnet, e ex-namorada de Simon, Jacqueline (Emma Mackey), que resolveu curar a sua dor de cotovelo seguindo todos os passos do casal. Para fugir de Jacqueline, Linnet embarca em um cruzeiro pelo rio Nilo junto com seus amigos. A patota animada é formada pelo playboy Bouc (Tom Bateman), sua mãe Euphemia (Annette Bening), um ex de Linnet, Linus (Russell Brand), sua assistente Louise (Rose Leslie), o advogado Andrew (Ali Fazal), assim como sua madrinha Marie (Jennifer Saunders) junto com a acompanhante Mrs. Bowers (Dawn French).

E onde entra Poirot? Em um encontro aparentemente casual, enquanto tira suas merecidas férias comendo ovos perfeitamente simétricos em frente as pirâmides no Cairo, Poirot encontra Bouc. Ambos são amigos desde o caso no “Expresso do Oriente” e compartilham uma simpatia mútua em suas excentricidades. Bouc convida Poirot para se juntar ao grupo em suas comemorações nupciais. Sem entender muito bem o porquê, como de costume, Hercule acaba nas águas do Nilo junto com o grupo. Mais uma vez temos montado o cenário com o preeminente investigador em um ambiente confinado com um grupo de pessoas e com um crime em mãos para resolver. O assassino, muito provavelmente, se encontra entre os presentes. E assim começa o jogo de gato e rato, de interpretação de pistas e de intuição que são característicos do personagem. E no final, claro, saberemos o verdadeiro culpado pelas deduções de Poirot.

Esteticamente, “Morte No Nilo” segue o mesmo caminho de “Assassinato no Expresso do Oriente”. É visualmente deslumbrante e tecnicamente muito apurado. O calor das areias egípcias e a vida dentro e em torno do rio Nilo são exaltados. Porém de novo tropeçamos aqui no mesmo Poirot de Kenneth, apesar de, justiça seja feita ao ator, bem menos exagerado em seus gestos e trejeitos do que na obra anterior do diretor. É uma refilmagem que não seria necessária, dentre tantas outras que vemos nessa época que parece querer reescrever os clássicos, mas ao mesmo tempo não decepciona na sua execução e é garantia de bom divertimento. Mesmo para quem já conhece de cor e salteado os desenrolares da trama.

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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