Morreu em Paris nesta segunda-feira, 2 de junho de 2025, aos 93 anos, o historiador Pierre Nora, referência na pesquisa sobre a memória coletiva e a identidade francesa. Membro da Académie Française desde 2001, Nora dedicou grande parte de sua carreira a investigar como a nação constrói narrativas que definem seu passado e seu presente.
Nascido em 1931 em uma família da alta burguesia judaica parisiense, ele construiu carreira na editoração de ciências humanas na editora Gallimard a partir de 1965, defendendo projetos ousados mesmo diante de censuras internas, como na publicação de L’Aveu, de Arthur London. No fim de sua vida, revelou-se também como escritor de memórias, publicando Jeunesse (2022) e Une étrange obstination (2023), nos quais traçava retratos vívidos do ambiente intelectual e mundano de Paris, além de lembrar com carinho o irmão Simon Nora, figura-chave nos anos Pompidou.
Nos anos 1980, Pierre Nora, ao lado de Marcel Gauchet, fundou a revista Le Débat, marco da renovação do pensamento liberal na França. Inspirada em antecessores como Raymond Aron e François Furet, a publicação surgiu no pós-Bicentennial e na queda do Muro de Berlim para afastar a reflexão intelectual francesa das amarras do marxismo e do “catéchisme révolutionnaire”. “Quando criei Le Débat, eu estava errado em acreditar em um apaziguamento do radicalismo. Não durou muito.”
A obra mais emblemática de sua trajetória, entretanto, é o monumental Lieux de mémoire (Lugares de Memória), que reuniu, ao longo de dez anos, sete volumes dedicados ao espírito da França — contemplando “a República”, “a Nação” e “as Franceses”. No ensaio, Pierre Nora parte da constatação de que, na era moderna, as memórias coletivas não circulam mais de forma espontânea e viva, como em épocas anteriores. Para ele, a memória tradicional – aquela que se transmite organicamente entre gerações, sem mediações – foi progressivamente corroída pelas rápidas transformações políticas, sociais e tecnológicas.

Reconhecido por criticar o que chamou de “triunfo do mémoriel” — a preocupação excessiva com a memória em detrimento de uma análise histórica crítica —, Pierre Nora alertava para os riscos de distorções na forma como sociedades lembram o passado. Sua atuação como editor na Gallimard, a partir de 1965, abriu caminho para a publicação de obras de autores como Michel Foucault, Claude Lefort e Emmanuel Le Roy Ladurie, ampliando o alcance dos estudos em humanidades e consolidando sua influência no campo acadêmico.
Em 1990, foi um dos primeiros intelectuais a se opor à lei Gayssot, alertando para os riscos de uma “ditadura da memória” que poderia tolher a liberdade do historiador. Em 2005, lançou a petição “Liberté pour l’histoire” contra a proliferação de leis memorialistas, defendendo sempre uma tradição humanista e laica baseada em Montesquieu e Tocqueville. Elegido para a Académie française, permaneceu um “cidadão laïque pur e dur”, dedicando-se até o fim a um liberalismo iluminado, distante de dogmatismos econômicos ou libertários.