“Kimi”: atendendo a pedidos

No novo thriller de Steven Soderbergh, que estreou na plataforma HBO Max dia 10 de fevereiro, uma das personagens é uma assistente virtual.

"Zoë Kravitz" em ‘KIMI’ © Courtesy of Warner Bros. Picture.

Em tempos de Siri e Alexa,assistentes virtuais da Apple e da Amazon, respectivamente, a IoT (Internet of Things) tá cada vez mais presente na vida cotidiana das pessoas, e já anda ocupando espaço no audiovisual também. Kimi é a versão fictícia da Alexa, mas não, aqui não se trata de mais uma distopia dos computadores querendo dominar o mundo. Kimi não é Hal, o computador super inteligente criado por Arthur C. Clarke e imortalizado pelo cineasta Stanley Kubrick, em 2001: uma Odisseia no espaço. E também não tem outro papel na trama a não ser atender aos pedidos e responder às perguntas de Angela (Zöe Kravitz). 

Angela, por sua vez, trabalha como techie desfazendo bugs de Kimi. Passa seu dia escutando trechos de áudios gravados pelos usuários que não tiveram seus pedidos atendidos pela secretária virtual. Ela se ocupa de adicionar ao código todas as novas questões que são levantadas, ampliando assim a base de dados de dispositivo.

Meio entediante? Sim. Me parece uma das atividades mais metódicas e maçantes do TI junto ao testing e o bug fixing. Mas Angela gosta e precisa da organização, da solidão e da previsibilidade do seu trabalho. Ela sofre de agorafobia, episódios de pânico e extrema ansiedade desde que foi atacada na rua. Ela realmente nunca sai de casa. Nem mesmo com um dente infeccionado e precisando urgentemente de tratamento. E, como não poderia deixar de ser, a pandemia do coronavírus só colaborou ainda mais para agravar suas fobias.

Tudo parece certinho: ela trabalha, come ou se exercita em casa, e tem até um caso com um vizinho do prédio da frente que volta e meia aparece para visitá-la. De uma forma geral, ela vê o mundo pela janela e também é observada. É Steven Soderbergh fazendo uma homenagem a Hitchcock em seu pequeno, porém bem feito, thriller. Zöe interpreta Angela como uma pessoa nervosa, rígida e frágil, consumida pelos seus medos, mas que também não faz nada para escondê-los. Ela assume suas limitações, ela carrega esse fardo publicamente. Dos poucos contatos de sua vida, a mãe parece ser a muleta emocional de Angela. E a mãe tá meio de saco cheio. Assim como o quase namorado. 

E é nesse clima que as coisas viram do avesso na vida da protagonista, e o isolamento tão confortável, de uma hora para outra, vira uma correria com direito a perseguições e escapadas fantásticas. Angela é literalmente empurrada para fora de sua zona de conforto. E ela não é uma heroína do universo Marvel e nem uma espiã eficiente como Elisabeth Jennings (The Americans), ela é somente uma moça geek cheia de manias e que não faz muita questão de socializar. Mas Angela também tem um superpoder que apenas os ansiosos parecem possuir – funcionar muito bem sob pressão. Todos os cenários futuros possíveis já tiveram protagonismo dentro de sua cabeça. Enfim o famoso sofrimento antecipado que acompanha a ansiedade mostra suas vantagens.

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Dispositivo inteligente do filme Kimi. Foto: reprodução.

Sublinhando esse drama/suspense, a trilha sonora dá o toque final nos momentos de tensão – no maior de todos a “virada da mesa” ocorre ao som de Sabotage dos Beastie Boys e o final feliz se materializa com Connection da banda Elastica. Nada mais “sunny side of the life” do que isso. Aparentemente, hoje, não existem mais filmes sem que pelo menos uma banda noventista faça uma aparição. Pelo menos até o revival de uma nova década apontar no horizonte da nostalgia. 

Kimi é uma obra interessante e bem elaborada, com uma protagonista altamente carismática. Zöe Kravitz tem o dom de misturar doçura e força, segurança e fragilidade, dependência e rebeldia. Ela transita muito bem de um extremo a outro. Do medo à bravura. Esse não é o melhor filme de Soderbergh, mas certamente é um dos melhores trabalhos de Kravitz até agora.

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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