A historiografia da polícia e do crime no Brasil faz aniversário

Em entrevista exclusiva ao Café História, o historiador Marcos Bretas fala sobre os 20 anos de dois livros de sua autoria que são marcos na historiografia da polícia e do crime no Brasil.

Por Frederico Oliveira

“Lidar com polícia e crime é trabalhar num território que desperta muitas resistências”, diz o historiador Marcos Luiz Bretas. No ano em que comemora os 20 anos de publicação dos seus livros “A Guerra das Ruas” e “Ordem na Cidade”, o pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conversou com o Café História sobre sua formação acadêmica, algumas opções teóricas, cultura policial, violência, projetos em curso e a possibilidade de reedição de alguns dos seus livros.

Além de pesquisador e professor, Bretas é um formador, um dos desbravadores dos estudos sobre polícia e crime no campo da História no Brasil. Descortinou arquivos, formulou perguntas, inquiriu teses e publicou duas obras importantes sobre aqueles assuntos quando a maioria dos historiadores brasileiros mirava outras paragens. Polícia e crime, até então, eram objetos investigados mais pelo labor de sociólogos, juristas, cientistas políticos, ex-policiais, antropólogos e jornalistas. Nos últimos vinte anos, muito do que foi produzido pela historiografia no Brasil sobre polícia e criminalidade se reporta e se ampara nas trilhas descortinadas pelos seus estudos pioneiros. Por tudo isso, é um prazer entrevistá-lo para essa minha colaboração com o Café História. A entrevista a seguir foi realizada entre a última semana de novembro e a primeira de dezembro de 2017.

Marcos Bretas
Marcos Bretas, no Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde é docente. Foto: Bruno Leal

Frederico Oliveira: Saudações, professor Bretas! Em 2017 se comemora 20 anos da publicação dos livros “A Guerra das Ruas” e “Ordem na Cidade”, hoje obras obrigatórias para quem pretende conhecer a História da polícia do Rio de Janeiro na Primeira República. As pesquisas que originaram aqueles livros foram produzidas em ambientes acadêmicos muito distintos, no caso no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), sob a orientação do historiador José Murilo de Carvalho, e na Open University, na Inglaterra, tendo como orientador o historiador Clive Emsley. Qual é o balanço que o Sr. faz daquelas experiências de pesquisa na sua trajetória acadêmica como historiador, professor e orientador?

Marcos Bretas: Se tem alguma coisa que eu sempre busquei na minha trajetória acadêmica foi a diversidade. Tento sempre estar mudando de foco, de lugar, de tratamento; gosto de experimentar. Saí do curso de História e fui fazer o mestrado em Ciência Política – jovens historiadores costumam ter uma certa obsessão com teoria. O fato é que me aproximei muito mais de uma Sociologia de corte interacionista do que da Ciência Política. José Murilo de Carvalho, Edmundo Campos, Alexandre Barros foram figuras que tiveram um papel importante na minha formação como historiador. Ao buscar o doutorado, decidi voltar para a História e contemplei duas opções, ir para Los Angeles trabalhar com Eric Monkkonenn, o que teria feito de mim um quantitativista hard, ou para a Inglaterra trabalhar com Clive. Nesse momento, eram os principais historiadores da polícia no mundo. A Inglaterra me seduziu muito mais, por ser velho mundo, por ser a terra de Thompson – uma das minhas principais referências – e por ser onde os livros de História são mais bem escritos. O cuidado com a escrita e também com a empiria são valores que guardo com carinho. Escrevo pouco porque quero levantar muita coisa e a redação me dá um trabalho infernal. Invejo o José Murilo, que faz com que pareça fácil escrever bem. Não sei como ele consegue.

Frederico Oliveira: Em 2009 foi lançada (em dois volumes) a obra “História das Prisões no Brasil”, organizado pelo Sr. e pelos historiadores Clarissa Nunes Maia, Flávio de Sá Neto e Marcos Costa, propondo uma reflexão sobre o cárcere e o sistema prisional brasileiro. No ano seguinte, 2010, o Sr. organizou com o sociólogo Michel Misse o livro “As Guardas Municipais no Brasil: diagnóstico das transformações em curso”. Em 2015, com os historiadores Deivy Carneiro e André Rosemberg, o Sr. organizou o livro “História, Violência e Criminalidade: reflexões temáticas e narrativas regionais”. E no ano passado, 2016, o Sr. e o historiador Diego Galeano, foram os responsáveis pela coordenação do livro “Policías escritores, delitos impresos: revistas policiales en América del Sur” (download gratuito aqui). O aspecto colaborativo dessas obras refletiria uma ampliação do interesse acadêmico contemporâneo pelos estudos históricos sobre polícia, crime e sistema de justiça no Brasil?

Marcos Bretas: Talvez. Continuando a resposta anterior, funciono melhor quando trabalho em colaboração, tendo alguém para me obrigar a escrever. Mas existe também algo que aprendi com Clive, que é a preocupação com a formação de um campo intelectual. Lidar com polícia e crime é trabalhar num território que desperta muitas resistências, são temas contaminados. É muito importante que haja um grupo ativo de historiadores e cientistas sociais dedicados a essas temáticas e todas as suas ramificações. Tenho um esforço de anos de ligar essas pessoas, promovendo debates nacionais e, quando possível, internacionais.

Frederico Oliveira: No artigo “A cultura policial e o policial civil carioca”, escrito pelo Sr. e pela pesquisadora Paula Poncioni, é abordada a questão da dificuldade que os estudos sobre polícia enfrentam em relação à definição de qual seria a especificidade de seu objeto. A discussão sobre a existência ou não de uma cultura policial ainda é pertinente ou esse debate já foi superado?

Marcos Bretas: São duas questões: a primeira diz respeito à definição do que é polícia, algo muito difícil de precisar. Gosto muito de um artigo da Maureen Cain que sugere que a polícia é o resultado de um processo histórico de formação e não de uma tentativa de formulação normativa, seja jurídica, seja sociológica. Por isso a História é tão importante. A segunda questão diz respeito à cultura policial. É uma opção metodológica. É possível explorar a diversidade, pensar que dentro de uma polícia existem grupos com experiências muito diversas, lidando com drogas ou investigação de homicídios, por exemplo; um dos efeitos da profissionalização é a especialização de grupos. Mas eu acho também estimulante pensar como pessoas de sociedades muito diferentes, de organizações policiais muito diversas, se identificam por um nexo simbólico de ser policial, envolvendo uma expectativa de experiências comuns e que, de fato, em diversos momentos se colocam em contato em função de suas atividades. Já faz tempo que vem se intensificando uma transnacionalidade na função policial. Dentro da própria polícia, o pensamento comparativo é fundamental. O Brasil esteve presente nas primeiras iniciativas de congressos internacionais de polícia e as revistas tinham longos artigos descrevendo como funcionavam as polícias em outros estados ou países. Mesmo hoje são transnacionais os debates sobre tolerância zero, polícia comunitária ou polícia de proximidade. Eles podem fundamentar reformas ou articular discursos de resistência à mudança. Isso reforça o recurso, a ideia de cultura policial.

Frederico Oliveira: No artigo “As Empadas do Confeiteiro Imaginário: A pesquisa nos arquivos da justiça criminal e a história da violência no Rio de Janeiro”, o Sr. discute se os processos criminais permitiriam ou não ao historiador pensar o Rio de Janeiro do início do século XX como uma cidade violenta. Aquelas questões enfrentadas no artigo, em torno de como compreender a violência em outras épocas e lugares, teriam hoje outras respostas?

Marcos Bretas: Não sei. Teria de rever o que escrevi com algum cuidado e pensar nisso. Mas acho que o essencial já está lá. Podemos optar por uma definição estrita da violência como ação física de uma pessoa sobre outra – como faz Chesnais. Mas também é produtivo pensar na negociação simbólica do que é violência e em que circunstância. No mundo contemporâneo, as possibilidades de violência se multiplicam mais e mais, com implicações significativas tanto na política como na prática dos historiadores que leem de forma diversa contextos do passado. Eu gosto sempre de propor a busca de se e como essa ação hoje percebida como violenta era vista naquele momento.

Frederico Oliveira: Para pensar historicamente sobre a instituição policial, em que medida autores como Egon Bittner, John Bender, Jerome Skolnick, Peter Manning, Eric Monkkonen, Clive Emsley, Victor Bayley, Martin J. Wiener e outros, mais conhecidos no Brasil, como Dominique Monjardet, James Wilson, Robert Reiner, Thomas Holloway e David Bayley, foram importantes para a sua formação como pesquisador?

Marcos Bretas: São diálogos permanentes, autores extremamente estimulantes, grandes sociólogos e historiadores. Em torno de objetos como polícia, violência ou crime existem inúmeras abordagens possíveis e diálogos a serem estabelecidos. Me encantam as definições de polícia estabelecidas por Egon Bittner, as sínteses possíveis de Reiner e Monjardet, as abordagens históricas de Wiener ou Emsley. Existem também as interlocuções sobre Brasil, como Holloway que você cita, além de Elizabeth Cancelli e Gizlene Neder. São abordagens muito diferentes da minha, o que permite um debate estimulante.

Frederico Oliveira: Atualmente, o Sr. e os historiadores Diego Galeano (PUC) e Gonçalo Rocha Gonçalves (UNIRIO), organizam o grupo “História do Crime, da Polícia e da Justiça”, que se reúne periodicamente em diferentes instituições de ensino superior no Rio de Janeiro. Fale um pouco sobre os objetivos dessa iniciativa. E ainda: os livros “A Guerra das Ruas” e “Ordem na Cidade” serão reeditados?

Marcos Bretas: Já faz tempo que queremos organizar as conversas sobre os temas do crime e da polícia. Alguns estados já têm grupos dialogando. Decidimos que era hora do Rio de Janeiro começar a conversar, de nós nos encontrarmos algumas vezes por ano para discutir nossa produção, caminhando para um GT na ANPUH. Isso envolve compromisso dos interessados, e acho que está dando certo. Quanto às reedições, isso não é tão simples assim. O mercado editorial brasileiro é pequeno e ultimamente vai se deformando por contas de demandas de produtividade mal colocadas. Livros são publicados mas, ao mesmo tempo, não existem. Está esquisito. Nesse momento penso em reeditar o “A Guerra das Ruas”, estou fechando isso para 2018. Acho que faz sentido porque a edição do Arquivo Nacional foi pequena e ficou rara. O “Ordem na Cidade” não faz parte dos planos.


Marcos Luiz Bretas da Fonseca possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense – UFF (1981), mestrado em Ciência Política e Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ (1988), doutorado em História pela The Open University (1995) e pós-doutorado pela Université de Lille 1 (2012). Atualmente é professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua na área de História, com ênfase em História do Brasil República, pesquisando temas como Rio de Janeiro, polícia e crime.

Frederico Oliveira é professor de História no ensino básico, mestre em História Social pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP-UERJ) e especialista em História das Relações Internacionais pela UERJ. É membro integrante do Grupo de Pesquisa (GT) “História do Crime, da Polícia e da Justiça”.


Como citar essa entrevista

BRETAS, Marcos. A historiografia da polícia e do crime no Brasil faz aniversário (Entrevista). Entrevista concedida a Frederico Oliveira. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/historiografia-do-crime-e-da-policia/. Publicado em: 18 dez. 2017. Acesso: [informar data].

4 Comentário

  1. Saudações aos leitores. Comentem a entrevista, façam observações, participem. Sobre as reuniões do Grupo “História do Crime, da Polícia e da Justiça”, elas estão abertas a qualquer interessado/a. Os textos que são discutidos nos encontros circulam previamente na lista de e-mails do grupo. Para ser incluído basta solicitar por e-mail aos ORGANIZADORES:
    -> Marcos Bretas (UFRJ) [email protected] ;
    -> Diego Galeano (PUC-RIO) [email protected] ;
    -> Gonçalo Rocha Gonçalves (UNIRIO) [email protected]

  2. Muto bom…Como Policial Militar e Historiador, achei muito interessante estas publicações, particularmente, gostaria de receber mais publicicações referente a este assunto.

    • Saudações, Joacir! Fico feliz que tenha gostado da entrevista. O historiador Marcos Bretas é um dos expoentes da pesquisa histórica sobre polícia no Brasil. Recomendo seus livros e seus artigos. Além disso, o Café História é uma inciativa fantástica, sempre nos presenteando com informação e reflexão de qualidade. Visite periodicamente a página! Abraço.

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