Município de Brumadinho possui sítio arqueológico que ajuda a contar a história do “Ciclo do Ouro”

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“Forte do Brumadinho”, construído em meados do século XVIII, não foi atingido pela tragédia. Localizado a cerca de 50 km do local do desastre da Vale, suas ruínas estão em local elevado e fora da rota dos rejeitos da barragem rompida.   

Bruno Leal | Agência Café História

Brumadinho, o município mineiro arrasado na última sexta-feira (25) pela ruptura de uma das barragens da Vale, fazendo dezenas de vítimas e centenas de desaparecidos, possui um lugar de destaque na história da mineração no Brasil. A região possui diversos sítios arqueológicos que ajudam a contar a história do “Ciclo do Ouro”, como é chamado o período de intensa dinâmica econômica que caracterizou o Brasil colonial do século XVIII. Tais sítios arqueológicos não foram atingidos pela tragédia da Vale.

Historia de Brumadinho - sitio arqueologico
Forte de Brumadinho visto de mirante na Serra da Calçada, Minas Gerais, Brasil. Foto: Caio Viana / Wikipedia.

Um dos sítios mais importantes da região chama-se Forte do Brumadinho, também conhecido como Forte de Piedade ou Casa de Pedra. Ele foi construído pela Coroa Portuguesa por volta de 1750, período conturbado da atividade na região, com o propósito de proteger o negócio da mineração de ameaças internas e externas. A fortificação, que é ponto turístico no município, possui cerca de 2.000 m2 e está em uma área de propriedade da Vale S/A – a empresa, por isso, desenvolveu um Tour Virtual 360º pelos principais sítios arqueológicos da região.

Segundo o arqueólogo Warley Delgado, o sítio arqueológico Forte de Brumadinho, ao lado do sítio arqueológico “Casas Velhas”, localizado no mesmo município, “representam um momento de opulência do ciclo do ouro e de todos os conflitos que existiram nessa época, tanto os sociais, quanto os de relações económicas”. Ainda segundo Delgado, o momento em que ambos foram construídos foi muito importante para a formação da cultura mineira e da construção do estado de Minas.

O Forte de Brumadinho está a cerca de 50 km da cidade de Brumadinho, epicentro da tragédia (ver mapa). Apesar de a lama já ter percorrido mais de 80 km, a antiga fortificação construída no período colonial encontra-se em um local elevado e do lado oposto para onde se dirigiram os rejeitos da mineradora.

Forte do Brumadinho: objeto de pesquisa acadêmica

O arqueólogo Carlos Magno Guimarães e a arqueóloga Camila Fernandes de Morais, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estudam a relação entre mineração, degradação ambiental e arqueologia. O “Forte do Brumadinho” foi objeto de estudo em artigo acadêmico publicado por ambos em junho de 2018 no periódico Memoria Americana. Nele, Guimarães e Morais o descrevem com detalhes:

Historia de Brumadinho - Ruinas do Forte
Distância e caminhos possíveis de Brumadinho até as Ruínas do Forte de Brumadinho. Foto: Google Maps.

“Trata-se de uma fortificação com muros de pedras, muitas delas de grandes dimensões, associada a vestígios de tanques e mundéus, canais, plataformas arrimadas, muros e escoramentos de pedras, galerias de minas, uma grande cava de encosta, trilhas e segmentos de estradas calçadas, dentre outros. É um imenso complexo de vestígios que permitem uma visão bastante clara de uma unidade de exploração minerária e de seu funcionamento. É um sítio exemplar através do qual é permitido compreender as formas de interação e adaptação do ser humano com o meio natural – explorado e impactado –, além de ter integrado o contexto da atividade minerária desenvolvida durante o período colonial na região das Minas Gerais. E isto faz do Forte de Brumadinho um dos mais importantes sítios arqueológicos do período colonial de Minas Gerais”.

Os pesquisadores destacam ainda que o “Forte do Brumadinho” cumpre um papel importante nessa região de mata: “as imagens de satélite mostram como os vestígios arqueológicos constituem como uma barreira contra incêndios, principalmente na fortificação onde a proteção das paredes para a vegetação preservada é mais evidente”.  

Potencial turístico

Ítalo Sousa de Senna, Carlos Fernando Ferreira Lobo e Úrsula Ruchkys, pesquisadores de Geociências e Sistemas Ambientais da UFMG, também já analisaram o Forte de Brumadinho em artigo acadêmico publicado em 2015. Segundo os três pesquisadores, o “Forte de Brumadinho” é o sítio que recebeu a maior nota de Potencial Geoturístico (PGT) no Relatório de Monitoramento do Patrimônio Cultural da Serra da Calçada, produzido em 2008 com o intuito de tombar os sítios arqueológicos e históricos da região.

Forte de Brumadinho - como chegar
Trilha para o Forte de Brumadinho, Serra da Calçada, Minas Gerais, Brasil. Foto: Caio Viana / Wikipedia.

“O Forte de Brumadinho, local de grande importância histórica regional obteve nota de PGT de 87,90, e já apresenta um intenso fluxo de visitações, dado a facilidade de acesso e ao apelo cênico do local. A construção foi sede de uma fazenda voltada a mineração do ouro, onde a agricultura e pecuária serviam de subsídio à exploração aurífera. Com localização estratégica no topo de uma vertente, o local é dotado de vista panorâmica da qual é possível observar vários pontos da região”, apontam Senna, Lobo e Ruchkys.

O tombamento do Conjunto Histórico e Paisagístico da Serra da Calçada, onde se encontram as ruínas do Forte de Brumadinho, foi efetuado por meio da reunião do Conselho Curador do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, Iepha-MG, no dia 30 de julho de 2008. O tombamento do conjunto em âmbito federal, contudo, ainda não foi aprovado, segundo dados do relatório do IPHAN de março de 2018.

Atualização em 18/02/2018: a Folha de S. Paulo informa que a lama da Vale pode ter destruído sítios arqueológicos secundários em Brumadinho – clique aqui.


Como citar essa notícia

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Município de Brumadinho possui sítio arqueológico que ajuda a contar a história do “Ciclo do Ouro” (notícia).  In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/historia-de-brumadinho-sitio-arqueologico/. Publicado em: 29 jan. 2019.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social (UFRJ, 2015). Foi professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas. Foi cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ entre 2011 e 2018. É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.

4 Comments

  1. Bento Rodrigues, devastado pela irresponsabilidade da Samarco, que também é Vale, também fazia parte do Ciclo do Ouro, tinha Igrejas e nessas muitas imagens deste período. Só para lembrar.

  2. Apesar de haver parecer técnico favorável, o IPHAN decidiu em 2015 não tombar bem, pois este tipo de ação, com relação a sítios arqueológicos, só se justificaria em casos excepcionais.

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