Chegou aos cinemas brasileiros (e mundiais), na última sexta-feira, o mais novo filme da franquia “Extermínio” (“28 Years Later”, no original), dirigido pelo vencedor do Oscar Danny Boyle (“Quero ser um milionário” e “Trainspotting”) e com roteiro de Alex Garland (“Tempos de Guerra” e “Guerra Civil”).
O primeiro filme, de 2002, “28 Days Later”, no original, conta a história de um superpotente vírus da raiva que escapa de um laboratório britânico e dizima a vida humana na Grã-Bretanha. O protagonista, Jim, vivido por ainda novato Cillian Murphy (de “Oppenheimer”), que estava em coma antes do apocalipse, acorda num hospital abandonado e precisa processar tudo que aconteceu enquanto “esteve fora”. O filme foi um sucesso estrondoso, reiniciando e renovando o gênero “zumbi”, que andava meio apagado desde o cinema de George Romero, nos anos 1970. “Extermínio 1” é um filme brutal sobre o espalhamento do ódio, da incompreensão e da violência que assola nossas sociedades.
“Extermínio 2”, “28 Weeks Later”, no original, lançado em 2007, mas agora dirigido por Juan Carlos Fresnadillo, se passa seis meses depois da destruição da Grã-Bretanha, quando o exército norte-americano declara que a epidemia foi controlada e ajuda os sobreviventes a reconstruir o país. O vírus, claro, não está morto e retorna com força total. O filme, agora, é sobre ressentimento e vergonha. Traz em seu elenco grandes nomes, ainda em início de carreira, como Jeremy Renner, Idris Elba, Harold Perrineau Jr., além do já experiente Robert Carlyle. O filme recebeu muitas críticas, que considero muito injustas, pois embora não tenha o mesmo talento do primeiro, é um filme bastante digno e, diria, potente.
Desde 2007, os fãs da saga tiveram muitos outros filmes e séries de zumbi, que entraram numa espécie de Era Dourada, embora muita coisa produzida não tivesse qualquer brilho. Mesmo assim, esses fãs, dentre os quais eu me incluo, esperavam ansiosamente pelo terceiro filme da franquia de Extermínio. A cobrança em cima de Boyle era enorme – ele prometia, mas nunca dava nada concreto. E assim os anos foram passando, e de rumor em rumor fomos esperando, mas sempre sem nada realmente concreto.
Mas eis que a espera, subitamente, acabou, há cerca de dois anos, quando Boyle anunciou o retorno à franquia e à direção. E mais recentemente, ele premiou a espera dos fãs ao anunciar que não só um, mas outros dois filmes vêm aí. O próximo está garantido para 2026 e terá a direção de uma cineasta jovem, mulher e negra, Nia DaCosta, que dirigiu filmes como “Passando dos limites” (2018) e “A Lenda de Candyman” (2021). O terceiro dessa trilogia está previsto para 2027, mas isso certamente vai depender do desempenho comercial dos dois anteriores. E quem vai dirigir continua em aberto também.
“Embora cada história se complete sozinha, há também uma passagem para o próximo. Então, é tudo muito ambicioso. Ainda não temos dinheiro para o terceiro. Vai depender do desempenho do primeiro, eu acho. Mas espero que, se dermos certo, eles nos deem sinal verde para o dinheiro e para o terceiro. Todo mundo está torcendo por isso, na verdade. Inclusive Cillian”, disse Boyle, em entrevista recente reproduzida no site Omelete.
Extermínio 3
“28 Years Later”, como o nome original deixa claro, se passa quase três décadas após o início da epidemia que devastou a Grã-Bretanha. Um grupo de sobreviventes conseguiu estabelecer uma comunidade isolada em Lindisfarne, uma ilha britânica ligada ao continente por uma única rota de areia fortemente guardada que fica submersa segundo o movimento da maré. Os habitantes da ilha levam uma vida simples, sem contato com o mundo exterior (que conseguiu barrar o vírus), sem tecnologia, sem luxos – uma vida à moda antiga.
A estabilidade dura o suficiente para criar uma nova geração, incluindo Spike, um garoto de 12 anos vivido pelo incrível ator-mirim Alfie Williams, que carrega o filme nas costas. A trama começa com um dia festivo na cidade. Eles celebram a ida de Alfie e seu pai, Jamie, vivido pelo ótimo Aaron Taylor Johnson, para o continente, a fim de ver “a vida como ela é”, numa espécie de rito de passagem da puberdade, com referências ao Bat Mitzvá do judaísmo. Alfie treinou durante muito tempo para aquele dia e agora terá que se provar. “Não posso voltar, porque vão me achar um fracote”, diz ele ao cruzar o caminho das águas.
O menino e o pai encontram-se com alguns infectados, abrem confronto, passam dificuldades, mas conseguem retornar para a ilha, que os recebe com grande festa. O rito foi completo: Alfie agora é um homem, valente como o pai. O problema é que Alfie não se sente muito assim. Enquanto estiveram fora, o menino não conseguiu matar nada além de um zumbi pesado e lento, tendo o resto sido feito por seu pai, que, aliás, é meio um zé-mané. Mas uma vez retornado à ilha, Jamie diz que seu filho fez acontecer, o que deixa o menino constrangido.
Mas Alfie está incomodado com o pai por outros motivos também. O pai o ama, mas ele é rígido com o garoto, distante, não brinca com ele, não leva muito em consideração o que ele diz. E tudo piora quando Alfie vê o pai transando com outra mulher depois da festa de recepção de ambos. Ele fica furioso porque a mãe Isla, vivida por Jodie Comer, está em casa, passando poucas e boas com uma doença que ninguém sabe muito bem o que é. Ela fica o tempo todo na cama, com muita dor de cabeça, tem momentos de lucidez intercalados com confusão mental.

Numa conversa com Sam (vivido por Christopher Fulford), que vive com a família na mesma casa, Alfie menciona ter visto, na jornada com o pai, uma chama acesa no meio do nada. Sam, então, revela que se trata de um médio bem estranho e que vive sozinho há muitos anos. Seu nome é Ian Kelson, interpretado por Ralph Fiennes. Alfie interpela o pai: ele quer levar sua mãe até o médico, mas o pai não concorda e eles acabam brigando. Indignado, o menino apronta uma distração na cidade e a deixa com a mãe, rumo ao interior da Escócia. E até chegarem ao médico, vão passar por poucas e boas pelo meio do caminho.
“28 Years Later” é arte brutal e contundente
Depois de tanto tempo de espera pela continuação da franquia, tive muito receio de me decepcionar com o resultado. Mas depois de quase 2h de filme, a sensação foi de alívio e alegria, porque “28 Years Later” não decepciona nem um pouco. Trata-se tranquilamente do melhor ou de um dos melhores filmes de 2025. Boyle entrega uma direção artística excepcional em todos os sentidos, enquanto Garland escreve uma fábula comovente que fala não de violência, morte e raiva, como no primeiro filme, ou de ressentimento e vergonha, como no segundo, mas de vida. A força da vida e a descoberta do mundo como ele é.
O filme pode ser dividido em três partes. A primeira corresponde aos primeiros cinco minutos. Esse trecho se passa em 2002, quando uma casa no interior da Escócia é atacada por uma primeira leva de infectados. É um pequeno flashback, portanto. A casa está cheia de crianças entre 4 e 12 anos, aproximadamente. Elas ficam numa sala de estar pequena, trancadas, assistindo aos coloridos Teletubbies, que fazia muito sucesso, na época, com o público infantil.
Enquanto Tinky-Winky, Dipsy, Laa Laa e Po se divertem no mundo ensolarado da Teletubbilândia, os pais das crianças são devorados pelos seres necrófagos. Escutamos gritos de desespero e de dor misturados ao do programa infantil. É uma cena brutal e bizarra, assim como as cenas de abertura dos dois filmes anteriores, a do primeiro filme numa Londres completamente silenciosa, abandonada, e a do segundo filme, com uma meia maratona desesperada de um pai que abandona o filho e a esposa para salvar a própria pele.
Os zumbis, infelizmente, conseguem forçar a porta e entrar no quarto das crianças, provocando uma matança desoladora. Um dos meninos, contudo, consegue escapar, mas a tempo de ver sua mãe encurralada. Mas ela, mesmo acossada pela horda, tranca uma das portas para dar tempo de fuga ao menino. Essa mãe, mesmo mortalmente ferida, atacada por um zumbi, já convulsionando e prestes, portanto, a se transformar, consegue reunir forças e dizer para o filho ir o mais rápido que ele puder. É o que ele faz. O menino corre para o pai, que é padre numa Igreja Anglicana. O pai, contudo, o abandona. Ele diz que se trata de um dia glorioso, o dia do arrebatamento. E se deixa ser devorado pelos zumbis.
A segunda parte corresponde à jornada que o Alfie faz com o pai. O filme passa veloz, com muita correria, descobertas, mortes. Boyle é virtuoso, mas no bom sentido. As cenas noturnas e ao cair do sol são impecáveis, assim como os rituais realizados pelos zumbis, em câmera infravermelha. Além disso, há cenas de sonhos e de céu totalmente estrelado, quase soando uma aurora boreal. É um ritmo frenético, com músicas repetitivas e tribais. Boyle intercala, em alguns momentos chave, leituras de poemas e cenas de arquivos, da época da Primeira Guerra Mundial. Em muitos momentos, eu me lembrei dos Irmãos Grimm e suas históricas edificantes e moralistas, como Chapeuzinho Vermelho e João e Maria.
A propósito, as falas que escutamos no trailer (que fez um baita sucesso) e que escutamos no filme também, soando como uma marcha fúnebre e aterrorizante, são a declamação de um poema chamado Boots, do cultuado escritor britânico Rudyard Kipling (1865-1936), publicada em 1903. Ela diz no trecho que aparece em trailer e no filme:
We’re foot—slog—slog—slog—sloggin’ over
AfricaFoot—foot—foot—foot—sloggin’ over Africa
(Boots—boots—boots—boots—movin’ up and down again!)
There’s no discharge in the war!
“Boots” imagina os pensamentos repetitivos de um soldado de infantaria do Exército Britânico marchando na África do Sul durante a Segunda Guerra dos Bôeres. Sua declamação, linha a linha, soa como um soldado marchando.
Vale a pena dizer que o filme todo foi filmado com 20 iPhones Pro Max 15, criando uma estética bastante espetacular. E não foi a primeira vez que Boyle decidiu fazer algo assim. NO filme de 2002, a cena de abertura foi filmada com uma câmera a Canon XL1 (DV), que era menor e mais manobrável do que as câmeras de filme tradicionais, o que permitiu que a equipe filmasse em locais desertos com mais facilidade e dentro de prazos curtos.
A jornada com o pai é angustiante, com efeitos estéticos que denotam urgência, lições de moral, mortes estilizadas (mas com sentido) e violência masculina. O pai claramente quer dominar a narrativa da saída com o filho para o mundo dos infectados, apresentar o mundo que ele vê e viu em outras saídas dele para lá, a fim de produzir determinados efeitos de masculinidade em seu filho. O pai tem a verdade dele e está focado em tornar essa verdade também a do filho, mais do que qualquer outra coisa. Eu usei várias vezes a palavra “jornada” nessa resenha, mas bem que poderia ter usado “marcha” – porque o que ele faz no filme é a marcha assustadora do poema de Kipling.
A terceira parte do filme é bem diferente da segunda. Trata-se da jornada do filho com a mãe. Os sons agonizantes da anterior cessam completamente. Embora fragilizada, essa mãe aceita a proposta do filho em visitar o médico. Embora fragilizada, essa mãe consegue proteger de verdade o seu filho, sem falsas performances. Embora fragilizada, essa mãe ajuda uma mulher infectada, já transformada, em sofrimento, a dar à luz a uma criança aparentemente sadia. A cena em que as duas dão as mãos é muito tocante – a força poderosa da maternidade e do feminino alcança neste ponto um dos momentos mais bonitos do filme. E aí, lembramos da mãe da primeira parte, que se deixa capturar para salvar o filho.

A força das mulheres e as potências de ser mãe, a propósito, estão o tempo todo no filme. Isla mostra ao mundo o que, de fato, esse mundo é realmente. Um mundo visceral, certamente, mas onde há vida, esperança e dignidade, até mesmo para os mortos. Como diz o Dr. Kelson, ao conhecê-los, infectados e não infectados, após mortos, são iguais. Não diferem. Sua escultura apologética de crânios não é a obra de um louco, de um homem que perdeu a razão, mas de quem encontrou a razão daquele mundo. Sua escultura é uma homenagem aos que tombaram – homes e mulheres que um dia falaram, comeram, choraram. Momento Mori ele menciona (“lembre-se de que você vai morrer”) e Momento Amori (lembre-se de viver) são duas faces de uma mesma presença no mundo. “Extermínio 3”, assim, é sobre vida, força e diferentes descobertas do mundo.
Vale dizer que em “Extermínio 3” o Reino Unido pertence aos zumbis. São eles, em comunidades primitivas, vivendo aos trancos e barrancos, que dominam tudo, ao passo que os humanos são os invasores deste mundo, aqueles que pilham e destroem, sejam sobreviventes ou soldados estrangeiros que naufragaram e se refugiaram na Grã-Bretanha. Essa ambivalência e inversão de papéis não é nova: foi brilhantemente criada por Richard Matheson no livro “Eu sou a Lenda”, de 1954, que deu origem a filme de mesmo nome de 2007 com Will Smith.

“Extermino 3” é muito bem dirigido, muito bem escrito e com atuações memoráveis. A direção de arte é impecável, assim como a trilha sonora, que dá ritmo às transições necessárias ao filme, de ponta a ponta. Para quem gosta de significados escondidos, é legal ver as referências a Rainha Elisabeth, ao passado antigo e medieval inglês, dos cavaleiros e castelos, e, no final, é ótimo poder ver a releitura da música do final do primeiro filme, bem como a referência a estética de Trainspotting (1996) materializada no grupo que encontra Alfie. Até referência aos corvos que infectam um pai no primeiro filme está lá no novo filme.
“Extermínio 3” mostra que ainda há muito o que extrair do gênero zumbi. E sejamos francos, o filme de Boyle faz “The Last of Us”, principalmente depois dessa segunda temporada fraquíssima, parecer uma historinha boba e repleta de superficialidades. Temos todos os indícios do mundo para acreditar que ‘Extermínio 3”, tal como o primeiro filme, redefinirá, uma vez mais, o gênero.