Uma nova e perigosa escalada militar entre Israel e Irã reacendeu tensões no Oriente Médio nos últimos dias. Após meses de impasse diplomático quanto ao desenvolvimento do programa nuclear iraniano, Israel lançou uma série de bombardeios aéreos contra instalações militares e nucleares no território iraniano.
A ofensiva de Israel, iniciada em meados de junho, envolveu mais de 200 caças e atingiu mais de 100 alvos em nove províncias do Irã, incluindo as centrais nucleares de Natanz e Isfahan. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que a ação era um “último recurso” para impedir que o Irã adquirisse armas nucleares, acusando o regime dos aiatolás de avançar secretamente em seu programa atômico.
Em resposta, o Irã disparou centenas de drones e mísseis balísticos contra centros urbanos israelenses, incluindo Tel Aviv e Haifa. Um dos ataques mais letais destruiu um edifício residencial em Bat Yam, matando seis civis. Do lado iraniano, os bombardeios provocaram a morte de ao menos 138 pessoas, entre elas mulheres, crianças e cientistas ligados ao programa nuclear. Na noite do último sábado, uma novidade: mísseis hipersônicos iranianos atacaram Tel Aviv, muitos dos quais furando o Domo de Ferro, como é conhecido o moderno sistema de defesa antiaérea israelense.
As autoridades iranianas acusam Israel de sabotar as negociações nucleares previstas para ocorrer em Omã e prometeram uma “resposta severa” a qualquer nova agressão. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, classificou os ataques como uma violação da soberania nacional. Netanyahu, por sua vez, prometeu continuar os bombardeios “por quantos dias forem necessários”.
A comunidade internacional reagiu com preocupação. Estados Unidos manifestaram apoio a Israel, enquanto Rússia, China e Turquia condenaram os ataques e pediram moderação. O Conselho de Segurança da ONU convocou uma reunião de emergência, e países como França e Alemanha advertiram sobre o risco de uma guerra regional.
A crise afetou mercados globais: o preço do petróleo disparou e bolsas do Oriente Médio registraram queda acentuada. Sem perspectiva imediata de cessar-fogo, cresce o temor de que o conflito se estenda e envolva outros atores regionais. Analistas alertam: o confronto direto entre Israel e Irã pode se tornar a mais grave ameaça à estabilidade do Oriente Médio desde a Guerra do Golfo.
O novo conflito começou após Israel destruir completamente Gaza e promover um genocídio na região, que hoje se tornou cenário de uma catástrofe humanitária.
Por que Israel ataca o Irã?
O ataque israelense tem a ver, basicamente, com o desenvolvimento de armas nucleares por parte do Irã. Embora os iranianos digam que as armas são medidas defensivas, os israelenses afirmam que esse tipo de armamento coloca em risco a existência do Estado de Israel. O cálculo militar de Israel, agora, foi: destruir esse programa enquanto ele continua em desenvolvimento, destruindo instalações de enriquecimento de urânio (fundamental para as armas) e centros de pesquisas.
Em entrevista à CNN Brasil, o pesquisador de Harvard e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Vitelio Brustolin, explicou que “Israel não tolera que o Irã tenha um programa nuclear. E como o Irã quer declaradamente a destruição do Estado de Israel, Israel vem há muito tempo sabotando esse programa nuclear”.
Brustolin também comentou que os dois países nem sempre foram inimigos. Israel, criado em 1948, foi inicialmente reconhecido pelo Irã, na época governado por uma monarquia apoiada pelos Estados Unidos. A ruptura entre os dois ocorreu em 1979, com a Revolução Islâmica no Irã.
A Agência Brasil, o professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG) Ronaldo Carmon falou sobre um senso de “oportunidade” no conflito, por parte dos israelenses:
“O que a gente pode concluir dessa situação toda é que exatamente o Netanyahu está observando essa janela de oportunidades para realizar o seu projeto do Grande Israel, ou seja, de uma expansão territorial de Israel e de enfraquecimento dos seus adversários em todo o Oriente Médio. Ele está levando a cabo esse projeto, ainda que numa situação política precária”, explica Carmona.
É importante sublinhar ainda que Israel não assinou o tratado de proliferação nuclear e não apoiou o acordo nucelar firmado entre EUA, Rússia, China, França e Reino Unido. Segundo a Federação dos Cientistas Americanos e o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, Israel tem, atualmente, 90 ogivas nucleares, o que o deixa com 8º maior arsenal nuclear do mundo, entre os 9 países com essa capacidade.
Israel, contudo, nega ter essas armas. “Israel continua mantendo sua política de longa data de ambiguidade nuclear, deixando uma incerteza significativa sobre o número e as características de suas armas nucleares.
Relatório do Sipri sobre a corrida armamentista global”.
O impasse
O impasse diplomático entre Israel e Irã em 2025 tem como centro o programa nuclear iraniano. Após a saída dos EUA do acordo nuclear de 2015 (JCPOA), o Irã passou a violar seus compromissos, acumulando urânio em níveis próximos ao grau militar.
Tentativas recentes de retomar as negociações com mediação do Omã esbarraram em pontos sensíveis: o nível de enriquecimento permitido, o acesso da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) às instalações iranianas e a exigência de Teerã por alívio imediato das sanções.

Israel, contrário a qualquer acordo que não elimine totalmente a capacidade nuclear do Irã, considerou que a diplomacia havia fracassado. Com informações de inteligência apontando que Teerã estaria a poucos meses de obter uma arma nuclear, o governo israelense lançou, então, o que ele considera “ataques aéreos preventivos”. O Irã interpretou a ofensiva como uma tentativa de sabotar o diálogo e respondeu com mísseis e drones, dando início à atual escalada militar.
Os Estados Unidos adotaram uma posição de apoio explícito a Israel no conflito com o Irã, embora neguem envolvimento direto nos bombardeios. O presidente Donald Trump classificou a ofensiva israelense como um ato legítimo de autodefesa diante da ameaça nuclear iraniana e alertou Teerã para não atacar alvos americanos, sob risco de uma resposta militar massiva. Ao mesmo tempo, Washington tenta conter uma escalada regional mais ampla, reforçando a segurança de suas bases no Oriente Médio e mantendo canais diplomáticos com aliados para evitar o colapso total das negociações nucleares.
Comparativo
Israel e Irã apresentam contrastes marcantes em termos geopolíticos e econômicos. O Irã tem uma população de cerca de 88 milhões de pessoas, enquanto Israel possui aproximadamente 9,8 milhões. O território iraniano é vasto — com mais de 1,6 milhão de km² — quase 80 vezes maior que o de Israel, que tem cerca de 22 mil km². Em termos econômicos, o PIB nominal do Irã gira em torno de 420 bilhões de dólares, já o PIB de Israel, apesar de sua menor população, é mais alto, ultrapassando 525 bilhões de dólares, refletindo uma economia mais tecnológica e integrada ao mercado global.
Nos gastos militares, o Irã investe cerca de 6,8 bilhões de dólares por ano em defesa, enquanto Israel destina aproximadamente 24 bilhões de dólares, o que representa mais de 4% de seu PIB — uma das proporções mais altas do mundo. Israel também mantém superioridade tecnológica e nuclear, ainda que não oficialmente reconhecida, enquanto o Irã busca desenvolver capacidades nucleares próprias, o que é justamente o cerne da atual crise.
Os países estão separados por cerca de 2.100 km, e uma incursão de forças terrestres não é uma possibilidade neste momento, devendo o conflito ficar restrito ao uso de caças, drones e foguetes.
Sabia mais sobre o Irã e os iranianos nesta entrevista aqui, com Samy Adghirni.