Dicas de livros: outubro de 2016

História & Narrativa | Jurandir Malerba | Editora Vozes | 2016 | 308 pp.

A Editora Vozes acaba de lançar “História & Narrativa – A ciência e a arte da escrita histórica”. Organizado por Jurandir Malerba, professor do departamento de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o livro traz 18 artigos clássicos de autores brasileiros e estrangeiros que discutem a questão da narrativa historiográfica. Jörn Rüsen, por exemplo, contribui com dois textos: “Narração histórica: fundações, tipos, razão” e “Retórica e estética da história: Leopold von Ranke”. No primeiro, o autor busca discutir o que seria a narração histórica, mas o busca fazer para além da diferenciação entre fato e ficção: levando em conta elementos como a mediação da memória, a questão da continuidade e a identidade (de autores e ouvintes). Já Carlos Fico, docente do Instituto de História da UFRJ, em “História que temos vivido”, explora os desafios das narrativas históricas do tempo presente. “O importante a destacar é que o relato do vivenciado tem uma particularidade em relação a outras narrativas históricas: escrevemos para quem viveu aqueles episódios e essa forma singular de pressão pela verdade exercida pelos coetâneos tem marcado o estatuto discursivo de nossa especialidade”. Além de Rüsen e Fico, o leitor encontra textos do próprio Malerba, Allan Megill, Jerzy Topolski, Luiz Costa Lima, Nelson Boeira, William Dray, Walter B. Gallie, Maurice Mandelbaum, Daniela Kern, Claudio Pereira Elmir, Hélio Rebello Cardoso Junior e David Carr. Para saber mais sobre “História & Narrativa”, clique aqui.

A guerra não tem rosto de mulher | Svetlana Aleksiévitch | Companhia das Letras | 2016 | 390 pp.

A Companhia das Letras lançou recentemente no Brasil o livro “A guerra não tem rosto de mulher”, da jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015. Nesta obra, a autora dá voz a algumas das quase um milhão de mulheres que lutaram nas fileiras do Exército Vermelho, na Segunda Guerra Mundial. Vemos um conflito contado de forma diferente, que constrói uma narrativa e acontecimentos até então silenciados. “Por que, depois de defender e ocupar seu lugar em um mundo antes absolutamente masculino, as mulheres não defenderam sua história? Suas palavras e seus sentimentos? Não deram crédito a si mesmas. Um mundo inteiro foi escondido de nós. A guerra delas permaneceu desconhecida. Quero escrever a história dessa guerra. A história das mulheres”. Aleksiévitch, desta forma, narra memórias de enfermeiras-instrutoras, francas atiradoras, atiradoras de metralhadora, comandantes de canhão antiaéreo, sapadoras, etc. São histórias surpreendentes, emocionantes e que ajudam a perceber a Segunda Guerra Mundial de uma forma bastante particular. Uma das várias memórias relatadas no livro é a Tamara Illariônovna Davidovitch, sargento, motorista, que depois de uma linha de tiro, colheu algumas flores e fez um pequeno buquê, depois amarrado na baioneta. Depois de voltar correndo para a sua posição, o comandante percebeu o esquecido buquê na arma e lhe deu uma bronca: “um soldado tem que ser um soldado, e não alguém que fica colhendo flores”. Segundo Tamara, ele não entendia como era possível pensar em flores naquela situação. “Mas não joguei fora as violetas. Tirei quietinha e pus no bolso. Por causa dessas violetas me deram mais três serviços extras”. Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

Escritos Judaicos | Hannah Arendt | Amarilys | 2016 | 895 pp.

O Café História já está se tornando repetitivo, mas a coisa se faz necessária: a editora Amarilys (selo da Manole) rouba a cena editorial mais uma vez no Brasil com um lançamento. Desta vez, a editora publicou pela primeira vez em língua portuguesa, “Escritos Judaicos”, de Hannah Arendt (1906-1975). O livro, como o nome já adianta, reúne a maior parte dos escritos da pensadora alemã, produzidos entre 1930 e 1960, que tratam especificamente das questões reúne a maior parte dos escritos de Hannah Arendt, produzidos entre 1930 e 1960, que tratam especificamente das questões relacionadas aos “assuntos judaicos”. O livro é dividido em décadas: de 1930 a 19960, além de contar com uma introdução do organizador da obra, Ron H. Feldman, e de um posfácio de Edna Brocke. “Escritos Judaico” é uma obra fundamental para se compreender boa parte da produção intelectuais de Arendt. De acordo com a historiadora Judith Butler, em “Escritos Judaicos”, “apresenta um modo de vida político que dispersa soberania, nacionalismo e individualismo em novas formas de coexistência social e política”. Além do conteúdo, “Escritos Judaicos” ainda conta com todo o refinamento editorial da Amarilys, que vem ocupando, definitivamente, o espaço deixado pela Cosac Naify. Quer saber mais sobre o livro? Clique aqui.

História Alemã| Ulf Dirlmeier et all | Edições 70| 2014 | 480 pp.

Obras-sínteses em história não são lá muito comuns no Brasil. Talvez Boris Fausto e sua “História do Brasil” seja uma exceção por aqui. Essa lacuna editorial é um problema para aqueles que procuram por uma leitura introdutória sobre a história de um país, de um acontecimento ou de uma questão. Há pouco tempo (2014), a Edições 70, ajudou a diminuir essa lacuna no Brasil no que tange a história da Alemanha mediante o lançamento do livro “História Alemã – do século VI aos nossos dias”. O livro é uma obra coletiva, escrita por pelos historiadores Ulf Dirleimer, Andreas Gestricht, Ulrich Herrmann, Ernst Hinrichs, Konrad H. Jarausch, Christoph Klessmann, e Jürgen Reulecke. Retrato de uma realidade complexa, que nem sempre esteve agregada numa entidade político-administrativa como hoje a conhecemos – e, por isso, História Alemã e não História da Alemanha -, o texto retrocede até ao século VI, na Alta Idade Média, concluindo com aquilo a que os autores chamam a República de Berlim, que se iniciou em 1990, após a reunificação alemã. O livro, diferente da chamada “história-problema”, herança do Movimento dos Annales, segue um modelo de “história-narrativa”, privilegiando elementos políticos e econômicos. Segundo os autores, “As exposições das épocas não podem, em princípio, senão oferecer análises das constelações, bem como uma história estrutural da época em causa. Esta abordagem tem a vantagem de colocar no centro das atenções as forças motrizes e as condições gerais dos acontecimentos, sobretudo nas suas encruzilhadas, e de transformar o presente passado naquilo que o passado lembrado e narrado deve ser: história enquanto perspectiva acerca do caráter histórico do presente”. Para saber mais sobre o livro, clique aqui. Mora no Rio de Janeiro e deseja comprar o livro pessoalmente? Visite a Livraria Almedina (Rua Bittencourt da Silva,12 Loja C, Centro – site aqui).

Nazistas entre nós | Marcos Guterman | Contexto | 2016 | 189 pp.

A trajetória dos criminosos nazistas no pós-guerra sempre despertou enorme atenção, sobretudo de jornalistas, detetives, cineastas e escritores. O livro “Nazistas entre nós”, do historiador Marcos Guterman, conta seis dessas trajetórias: Klaus Barbie, Josef Mengele, Albert Speer, Franz Stangl, Gustav Wagner e Adolf Eichmann. Barbie, Stangl, Wagner e Eichmann foram julgados no pós-guerra; todos foram descobertos em países latino-americanos. Barbie na Bolívia, Eichmann na Argentina, Stangl e Wagner no Brasil. Mengele foi a exceção, encontrado morto, em 1985, no interior de São Paulo. Além desses cinco casos, Guterman explora o caso de Albert Speer, julgado no Tribunal de Nuremberg e solto após cumprir pena. “Nazistas entre nós”, que é publicado pela Editora Contexto, não avança em termos de historiografias. Há algumas imprecisões e o texto, por vezes, parece mais jornalístico do que historiográfico. Mas isso não torna o livro desinteressante. O livro de Guterman é bem escrito e problematiza as políticas de punição na Europa do pós-guerra. O autor acerta em pontuar que os criminosos que foram encontrados no Brasil não foram ajudados pelo governo brasileiro, diferentemente do que ocorrera em países como Argentina e Estados Unidos. “Nenhum dos três contou com a ajuda do governo brasileiro nem para se esconder nem para se manter, e também, até onde se sabe, não participaram de nenhuma atividade relativa à perseguição de comunistas. E os que acabaram capturados – caso de Stangl e Wagner – foram julgados conforme a lei, sem nenhum tipo de tratamento especial”. Guterman também acerta em sublinhar que a mítica organização “Odessa” – que supostamente agia nas sombras ajudando nazistas em fuga – nunca existiu de fato, embora não faltasse quem oferecesse ajuda a esses foragidos da justiça. “Nazistas entre nós” é uma obra necessária, muito bem-vinda em um país onde ainda reinam (quase absolutas) tantas mitologias políticas sobre o tema. Para saber mais sobre “Nazistas entre nós”, clique aqui.

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