Dicas de livros: novembro de 2014

Blitzkrieg | Nigel Cawthorne | m.Books | 2014 | 208 pp.

Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o mundo assistiu com bastante preocupação as seguidas vitórias alcançadas pelas forças militares nazistas. Com um avanço cada vez mais rápido, as chances da Alemanha vencer o conflito eram enormes naquele momento, sobretudo porque grandes potências, como Estados Unidos e União Soviética, tinham optado por não se envolver na guerra. Mas esse não foi o único motivo para o início arrasador da Alemanha. O país tinha desenvolvido um novo conceito de batalha, a chamada “Blitzkrieg”, em português, “guerra-relâmpago”. É justamente esse o tema do livro de Nigel Cawthorne, “Blitzkrieg – o Plano Estratégico de Hitler para Conquistar a Europa”, que acaba de ser lançado pela editora brasileira m.Books. O livro é uma leitura rápida, fácil e bastante didática sobre a estratégia militar alemã na Segunda Guerra. Nele, Cawthorne mostra como unidades de tanques leves, apoiadas por aeronaves e infantaria, abriram caminho nas linhas inimigas e, mais do que representar uma mera estratégia militar, passaram a significar também o sonho de Hitler da supremacia pela força. O livro, no entanto, não é um trabalho historiográfico. Ou seja, ele não possui nenhuma questão historiográfica, o que pode frustrar leitores iniciados no tema. A narrativa é bastante factual, centrada basicamente em episódios militares. Do ponto de vista da editoração um ponto positivo e outro negativo. O ponto positivo é que a m.Book fez um livro bastante ilustrado. Já o negativo diz respeito a divisão do texto do livro em duas colunas, que embora torne a leitura mais dinâmica, não é visualmente a melhor opção de design. Pelo menos, é o que achamos. Clique aqui para saber mais.

O Amigo Americano | Antonio Pedro Tota | Cia das Letras | 2014 | 477 pp.

Durante muito tempo, a literatura especializada, sobretudo de esquerda, pintou o empresário norte-americano Nelson Rockefeller com as piores tintas possíveis. Em um tempo que em que a dependência econômica do Brasil em relação aos Estados Unidos aumentava exponencialmente, Rockefeller, que foi governador de Nova York e vice-presidente de Gerald Ford, passou a simbolizar o mal, a quintessência do imperialismo e da manipulação ianque no país. “O Amigo Americano – Nelson Rockefeller e o Brasil”, do historiador Antonio Pedro Tota (PUC-SP), publicado pela Companhia das Letras, tenta revisitar essa imagem. Nesta pesquisa de fôlego, Tota não nega que as incursões de Rockefeller no Brasil, começando na década de 1930 e se estendendo até o final da década de 1960, mirava um projeto de poder muito bem definido. No entanto, Tota recupera o idealismo liberal de Rockefeller, tornando-o um personagem multidimensional e, principalmente, mais humano. Conforme pontua o cientista político Jorge Caldeira em sua apresentação do livro, “Nelson Rockefeller perseguiu anos a fio meios de melhorar a produção agrícola nacional (financiou alguns dos antecessores da Embrapa) e de reunir capital para empreendimentos que não existiam no país (montou fundos de capitais, fundou indústrias pioneiras).” Assim, Rockefeller teve um papel importante no desenvolvimento na administração pública do país, o que até agora fora eclipsado por interpretações demasiadamente ideológicas. “O Amigo Americano” possui sete capítulos, além de um prólogo e um epílogo. É baseado em uma ampla pesquisa documental e amplia de forma decisiva nosso conhecimento sobre um dos homens mais importantes da historia do século XX. Clique aqui para saber mais.

Formas do Império | Heloisa Meireles Gesteira, Luís Miguel Carolino e Pedro Marinho | Paz e Terra | 2014 | 573 pp.

Acaba de ser publicado pela Editora Paz e Terra o livro “Formas do Império – Ciência, tecnologia e política em Portugal e no Brasil. Século XVIV ao XIX”, organizado pelas pesquisadoras Heloisa Meirelles Gesteira, Luís Miguel Carolino e Pedro Marinho. O livro, que surgiu de um encontro entre pesquisadores no Museu de Astronomia e Ciências Afins, no Rio de Janeiro, reúne duas dezenas de trabalhos, escritos por especialistas brasileiros e portugueses, com o objetivo de compreender as práticas científicas e tecnológicas, principalmente no espaço hoje conhecido com o nome de Brasil, mas sem deixar de focar também aquilo que acontecia no ultramar. “Formas do Império” é divido em quatro partes: Parte I (Impérios em perspectiva); Parte II (Saberes, políticas e projeções imperiais); Parte III (Natureza e colecionismo); Parte IV (Ciência, ensino e engenharia na construção do espaço imperial). Embora compartimentados nestas quatro seções, os artigos que compõem a obra são coerentes com a tentativa de se compreender o uso da ciência, da técnica e do domínio de espaço como alicerces da noção de império. Mas por falar em território, como os próprios organizadoras afirmam na introdução do livro, as tais reflexões ultrapassam os domínios da História da Ciência e da Tecnologia. Elas contribuem “para as atualizações constantes do conhecimento histórico, porém valorizando os homens de ciência e as instituições científicas como agentes ativos na construção do espaço imperial, seja um ‘imenso Portugal’, seja do Império do Brasil.” Se você estuda história do Brasil moderno ou se interessa pelo desenvolvimento técnico-científico e suas interfaces com a cultura e a sociedade brasileira e portuguesa na Era Moderna, vale a pena conferir o livro, que deverá se tornar em breve em referencia obrigatória no campo. Quer saber mais a respeito? Clique aqui.

A Coluna da Morte | João Cabanas | UNESP | 2014 | 390 pp.

A Editora Unesp acaba de publicar “A Coluna da Morte”, de João Cabanas. O livro apresenta, na integra, o relato clássico de João Cabanas (1895-1974) da sangrenta Revolução de 1924, que tomou de assalto a cidade de São Paulo entre 5 e 28 de julho, deixando um rastro de destruição e morte. Foi o maior conflito bélico da história da capital paulista. Durante aqueles dias cerca de 400 mil pessoas deixaram a capital, então com 700 mil habitantes, para sair da mira de granadas, tiros de artilharia pesada e até bombardeios aéreos que acabaram por arruinar vários bairros, além de ferir mais de 500 pessoas e matar outras 5 mil. “A Coluna da Morte” foi escrito em 1926, no exílio, e publicado dois anos depois. A batalho tem sido conhecida como “Revolução Esquecida”, já que não faz parte da maior parte das narrativas sobre a história da cidade. Pelo menos não na mesma proporção da Revolução Constitucionalista de 1932. O movimento tenentista de 1924, do qual participou Cabanas, queria depor o presidente Artur Bernardes, renovando os costumes políticos nacionais e “republicanizando” a República, por meio da instauração do voto secreto, o que poria fim ao voto de cabresto. No livro, dividido em sete capítulos, o autor narra principalmente a sua entrada no movimento tenentista e a sua participação na luta. A obra traz ainda um prefácio de José de Souza Martins, que nos ajuda a compreender o contexto em que ela foi escrito, além de seus eventos e personagens. O interessante desta edição é que ela traz a última edição do livro aprovada pelo autor, o que inclui poemas sobre a Revolução de 1924 e conferências de João Cabanas. O destaque negativo – pelo menos em nossa opinião – fica por conta da capa, um tanto apelativa. Mas nada desabonador. Saiba mais aqui.

Presos políticos e perseguidos estrangeiros na Era Vargas | Marly de Almeida Gomes Vianna, Érica Sarmiento da Silva e Leandro Pereira Gonçalves | Mauad X | 2014 | 263 pp.

No ano em que o fatídico suicídio de Getúlio Vargas completa seis décadas, nada mais natural (e também necessário) do que repensar historiograficamente um dos períodos políticos mais importantes da história do Brasil, a chamada Era Vargas. É exatamente essa reflexão historiográfica que se encontra presente em “Presos políticos e perseguidos estrangeiros na Era Vargas”, publicado pela Editora Mauad X, com parceria da FAPERJ, e organizado pelos historiadoras Marly de Almeida Gomes Vianna (UFScar), Érica Sarmiento da Silva (UERJ) e pelo historiador Leandro Pereira Gonçalves (PUCRS). O livro traz uma abordagem tão interessante quanto original: a figura do “outro”, considerado ameaça ao regime ou que se afastava da “boa sociedade”. Os vários olhares sobre o tema, as perspectivas inovadoras no tratamento das fontes, o uso de documentação que permaneceu, durante muito tempo, interditada aos pesquisadores, caso dos arquivos do Deops/Dops, são pontos altos da coletânea. No total, o livro traz treze textos inéditos que cobrem as diversas dimensões da repressão política, da paranoia e da xenofobia presente no Brasil de Vargas, sobretudo do Estado Novo. Nesses capítulos, o leitor poderá encontrar artigos que tratam sobre anarquistas e sindicalistas, estrangeiros expulsos, comunistas demonizados, italianos e antifascistas, integralistas, nazistas “súditos do Eixo”, judeus, armênios e japoneses. Mais do que um conjunto disperso de grupos, sujeitos e assuntos, “Presos políticos e perseguidos estrangeiros na Era Vargas” é um dos retratos possíveis da violência simbólica e física gerada pelo governo brasileiro nos anos 1930 e 1940. Para saber mais sobre esse lançamento, clique aqui.

O Caso dos nove chineses | Cicá Guedes e Murilo Fiuza de Melo | Objetiva | 2014 | 251 pp.

Três dias após o golpe civil-militar de 1964, agentes policiais do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) invadiram, sem ordem judicial, um apartamento no bairro do Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro, e penderam um grupo de chineses então residentes no local. Ali próximo, No bairro do Catete, outro grupo chinês, quase que simultaneamente, também era preso por policiais. No total, nove cidadãos chineses que residiam legalmente no país encontravam-se presos e fichados no final do dia. O crime? Para a polícia, eles eram “agentes internacionais instalados no Brasil para disseminar a revolução comunista”. O grupo, que estava no país desde 1961, convidado oficialmente pelo Governo João Goulart para incrementar a parceria entre os dois países, foi condenado a dez anos de prisão. Após um ano detidos – durante o qual foram torturados – foram expulsos. Na China de Mao Tsé-Tung, tornaram-se heróis. Cinquenta anos após a prisão, os jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo recuperam essa história, em muitos aspectos esquecida, no livro “O Caso dos nove chineses”, no qual contam o imbróglio daquele que consideram o primeiro escândalo internacional de violação dos direitos humanos da ditadura militar brasileira. Depois do episódio, o Brasil, em 1974, reatou relações com a China e hoje os países são grandes parceiros comerciais. O Brasil, entretanto, nunca pediu desculpas oficiais pelo ocorrido. Com base em documentos inéditos, entrevistas exclusivas, depoimento de um dos sobreviventes, e ampla pesquisa, Guedes e Melo reconstituem um episódio marcante da nossa história recente. O livro é fartamente ilustrado e revela elementos realmente interessantes, como a informação de que os chineses foram defendidos pelo mítico advogado Sobral Pinto. Clique aqui pra saber mais.

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